Frigorífico de aves, no Oeste do Paraná: indústria já reduziu os abates em 10% | Jonathan Campos/ Gazeta Do Povo
Frigorífico de aves, no Oeste do Paraná: indústria já reduziu os abates em 10%| Foto: Jonathan Campos/ Gazeta Do Povo

A alta generalizada verificada nos preços do frango e do suíno começa a contagiar a carne bovina e deve encarecer o alimento até o Natal e o Ano Novo. As três cadeias produtivas informam que a oferta foi reduzida numa época de custos recordes, forçando reajustes aos produtores e ao consumidor final.

A indústria da carne de frango – a mais consumida no país, com 47 quilos por habitante ao ano – anunciou redução de cerca de 10% nos abates, com reflexos da granja ao supermercado. No Paraná, o preço do frango vivo subiu 15,54% (para R$ 2,03 o quilo) e o de cortes como coxa e sobrecoxa aumentou 12,35% (a R$ 5,04/kg) em relação às médias de junho, mostram as pesquisas do Departamento de Economia Rural do Paraná, o Deral.

O maior salto está sendo verificado na carne suína, cujo consumo anual é de 15 quilos por habitante. Os suinocultores atravessaram seis meses recebendo menos do que gastam, segundo a Associação Paranaense de Suinocultores (APS), e resolveram abater matrizes. Além do controle da oferta, o anúncio de que parte da produção do país será exportada para países como o Japão faz as cotações apontarem para o alto. O quilo do suíno vivo aumentou 58,38% em relação a junho. Ao consumidor, o reajuste até agora chegou a 15% – caso da paleta, vendida a R$ 7,10 o quilo.

As altas só não são maiores porque nas últimas semanas a carne bovina teve baixas, segurando os preços das concorrentes. A maior redução foi registrada no mignon, encontrado a R$ 28,37 o quilo. Esse preço é 12% menor que o do início deste mês e 17% inferior à média de janeiro. Temporariamente, o consumidor – que leva para casa 38 quilos de carne bovina anualmente – pode até mudar seu cardápio.

Entretanto, as cotações do boi em pé dão sinais de que retomaram tendência de alta. A arroba (15 quilos), cotada à média de R$ 90 em julho, chegou a R$ 92 ontem, com reajuste de 0,29% em um dia. Os preços nos supermercados devem seguir esse movimento.

Seca e chuva extra

No caso do frango e do suíno, as altas nas cotações dos grãos – provocadas essencialmente pela seca histórica que afeta as lavouras dos Estados Unidos – explicam praticamente todo o aumento no preço da carne. A soja, um dos principais ingredientes da ração, está 80% mais cara que um ano atrás, chegando ao recorde de R$ 75 por saca de 60 quilos no Paraná. O milho avançou 17% no período e passou de R$ 26 por saca nas regiões de pecuária, cotação também sem precedentes.

Em relação ao boi, os especialistas explicam que outros fatores, também ligados ao clima, criaram uma tendência contraditória. Apesar do amplo uso de pastagem, o milho e a soja influenciam os custos da terminação (fase de engorda que antecede o abate) na bovinocultura. Mesmo com os reajustes nos grãos, a pecuária teve de suportar queda de receita. A arroba baixou de R$ 97 em dezembro para R$ 90 em julho.

Essa diferença, que começa a ser revertida, ocorreu devido ao excesso de oferta, relacionado ainda à seca registrada no estado no último verão. O clima reduziu o pasto e parte do gado ficou retida nas fazendas, para que pudesse ganhar mais peso, explica o zootecnista Paulo Rossi, que coordena o Laboratório de Pesquisas em Bovinocultura na Universidade Federal do Paraná (UFPR). Nos últimos meses, ocorreu o contrário. Choveu bem e, com mais pasto, o gado que fez regime no verão enfim engordou e foi desovado todo de uma vez.

Essa oferta extra, no entanto, não deve durar muito. A tendência, a julgar pelos custos dos grãos, é de redução no rebanho, avalia o veterinário da Secretaria Estadual da Agricultura e do Abastecimento (Seab) Fábio Mezzadri. O estado já teve 10,2 milhões de bovinos, em 2005, e agora conta com cerca de 9,6 milhões.

CustosGrãos deixam boi encurralado

O gado vem sendo encurralado pelas cotações dos grãos, reclamam os pecuaristas. Com preços recordes, a soja fatalmente vai ganhar espaço no campo, o que reduz automaticamente as terras de outras culturas, incluindo as pastagens. Porém, sem pasto, a bovinocultura em confinamento torna-se praticamente inviável.

As contas dos especialistas consideram que um boi de aproximadamente 450 quilos, durante os 70 dias de confinamento para engorda, consome R$ 400 em ração e ganha 52 quilos. Com a cotação de R$ 92 por arroba, esse peso representa renda de R$ 322. Ou seja, o prejuízo pode chegar a R$ 80 por cabeça.

"A saída para o pecuarista que dispõe de espaço é deixar o boi no pasto. Vai demorar mais tempo para engordar, mas o custo tende a ser menor", afirma o zootecnista Paulo Rossi, da Universidade Federal do Paraná (UFPR). Quem não possui pastagem tende a vender o boi magro ou reduzir a criação de confinamento para atravessar a crise. A tendência é que os grãos sustentem preços bem acima da média ao menos até a entrada da próxima safra sul-americana no mercado, em janeiro de 2012.

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