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Agronegócio

E se, da noite para o dia, o Brasil parasse de produzir alimentos?

Em meio a discussões sobre o papel do agronegócio, especialistas afirmam que, sem ele, a segurança alimentar do planeta estaria ameaçada. A nossa economia, então...

Marcelo Andrade Para especialistas, nenhum outro país seria capaz de suprir a ausência do Brasil na oferta de comida. | Marcelo Andrade

Para especialistas, nenhum outro país seria capaz de suprir a ausência do Brasil na oferta de comida.

Flávio Bernardes |

Poderia ser uma política, um desastre ambiental... um sinal do fim dos tempos, talvez. Mas o certo é que todas essas causas levariam a consequências desastrosas. Se, de uma hora para outra, o Brasil simplesmente parasse de produzir comida, o mundo inteiro sentiria os efeitos.

Impacto econômico

A economia seria a primeira a sofrer com o fim do agronegócio. No acumulado de 2015, dos 10 itens exportados que mais trouxeram dinheiro para o país, oito vieram da agropecuária. O setor representou 24% do PIB nacional. Logo de cara, seria quase R$ 1,5 trilhão a menos em nossa conta.

E se prepare para a bola de neve

Com menos dólares entrando em terras tupiniquins, o real seria extremamente desvalorizado, a ponto de a moeda americana bater na casa dos R$ 7. Assim, o Brasil ficaria sem reservas em dólar para enfrentar futuras crises. E como não produziríamos mais, teríamos que importar alimentos para abastecer o mercado interno. Detalhe: com o dólar nesta cotação.

Se você acha que a inflação hoje está alta – entre 7% e 8%, de acordo com o Banco Central –, sem o agronegócio ela poderia chegar fácil, fácil a 40%. “E afetaria os mais necessitados por causa do aumento no preço dos alimentos. A cesta básica ficaria insustentável”, afirma o economista da Valuup Consultoria e professor da Universidade Positivo, Lucas Dezordi.

Desemprego

Lembra da bola de neve? Então... Atualmente a taxa de desemprego no Brasil está em 11,6%, segundo o IBGE. Nada que não pudesse ser pior. “Hoje, o agronegócio emprega até 30% da mão de obra do país. São milhões de pessoas”, diz o analista de mercado Flávio França Junior. Sem matéria-prima, haveria o fechamento em massa de indústrias ligadas ao campo. “Elas não teriam como sobreviver dependendo de importações”, ressalta.

Risco ambiental

Etanol vem da cana de açúcar; biodiesel, basicamente da soja. Neste cenário, esqueça a principal matriz energética sustentável do Brasil. “Aumentaríamos a dependência por combustíveis minerais, como xisto, e derivados do petróleo, que são mais poluentes. Ambientalmente, também seria um tiro no pé”, diz França Junior.

Risco alimentar

Segundo previsão das Nações Unidas, o Brasil será o maior exportador de alimentos do mundo já na próxima década. A questão é que, mesmo que a agricultura familiar continuasse existindo, ela provavelmente não daria conta de toda a demanda brasileira. Imagine a internacional. “Na agricultura familiar, você produz muito, mas é para sobrevivência, quase não chega ao mercado. Sem o Brasil, o que resta é um buraco na oferta mundial. A inflação aumentaria no mundo inteiro. Ninguém conseguiria cobrir”, afirma França Junior.

Possíveis saídas

Ok, nós avisamos que o cenário seria desastroso... mas haveria a possibilidade de olhar para outros setores. Os dois especialistas citam a Coreia do Sul como exemplo. Investindo em educação e tecnologia, o país asiático conseguiu excelentes indicadores sociais. O problema é que isso levaria gerações e, até lá, o colapso econômico e social poderia ter tomado conta do Brasil. “Talvez, em longuíssimo prazo, pudéssemos sobreviver”.

Ufa... sorte que é só uma reflexão, né? Porém, para Lucas Dezordi, vale o exercício. O agronegócio segue firme como pilar da economia brasileira, mas ainda assim é preciso buscar novas bases. O ideal, de acordo com o economista, seria o paradoxo: conciliar a força do agro à situação hipotética – e assustadora – do seu fim, ou seja, mesmo com o campo rentável, investir pesado na indústria de tecnologia. “O problema é que no Brasil os juros para investimentos de médio prazo ainda são muito altos. Pra descer a rodovia da inovação, o pedágio é muito caro”, define Dezordi.

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