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Alemães que trocaram o Brasil pelo Paraguai impulsionam economia do país vizinho

Cooperativa Colonias Unidas, fundada por imigrantes teuto-brasileiros, têm forte presença na comercialização de grãos, erva-mate, pecuária de leite e suinocultura, com faturamento anual de US$ 400 milhões

Fernando Zequinão/Gazeta do Povo  | Fernando Zequinão/Gazeta do Povo

Obligado (Paraguai) |

  • Marcos Tosi, enviado especial

“Meus avós vieram do Brasil” é a resposta mais frequente dos descendentes de alemães que encontramos na Feira Agrodinámica, em Obligado, no sul do Paraguai, quando perguntados sobre como surgiu a comunidade que originou a Colonias Unidas, hoje a maior cooperativa do país vizinho, com faturamento de 400 milhões de dólares por ano.

Apesar da origem brasileira, o nome da cidade Obligado não é uma corruptela da maneira de se agradecer em português, mas uma homenagem ao fazendeiro argentino dono das terras da região, Servando Obligado, que as vendeu em 1912 aos colonos teuto-brasileiros recém-chegados. Esses descendentes de brasileiros, ou de alemães que apenas passaram pelo Brasil, têm primos espalhados em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul. E há outros parentes em Missiones, na Argentina, de onde alguns reimigraram após inundações e diante da oferta de terras boas e baratas a poucos quilômetros além da fronteira.

“O solo aqui é muito bom e o clima também é ideal, mas meu avô sofreu bastante no começo, porque era tudo floresta. Ele veio ainda muito jovem do Brasil, de Blumenau, e morreu em 1997, aos 93 anos”, conta Selval Reinhardt, cuja esposa também é descendente de brasileiros. Ao lado do netinho Tobias, Lira Schütz de Reinhardt diz que não se lembra de onde são os avós, sabe apenas que também vieram de Santa Catarina. “Meus irmãos, que têm whatsapp, participam das reuniões familiares dos Schütz do Paraguai, da Argentina e do Brasil. Neste ano o encontro foi na Argentina, no ano passado no Paraguai e parece que no ano que vem será no Brasil”, revela Lira.

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O presidente da Cooperativa Colonias Unidas, Agustin Konrad, é ele mesmo filho de imigrante brasileiro do Rio Grande do Sul, que chegou ao país com 8 anos. “Meu papá era um gaúcho que veio do município de Estrela. Naquela época, as famílias ouviram que aqui tinha uma região próspera e vieram em busca de um horizonte melhor. Ah, mas os gaúchos brasileiros sabem como se divertir num CTG. Aqui falamos bastante de futebol, mas não nos divertimos”, brinca Konrad.

A dedicação ao trabalho é mesmo a “desculpa” de muitos para ainda não ter visitado a terra dos avós, do outro lado da fronteira. “Só conheço a praia de foto, nunca vi o mar. Aqui não temos tempo de ir à praia, somente à luta, porque precisamos cuidar da criação”, diz Lira Reinhardt.

A maioria dos descendentes dos teuto-brasileiros já não sabe a língua portuguesa, mas mantém a tradição de falar o dialeto alemão dos avós. Entre os imigrados mais recentes, no entanto, o português subsiste. “Meus pais são brasileiros, vieram de Entre Rios (distrito da cidade paranaense de Guarapuava) há 40 anos”, conta Myria Venzke, ao lado do marido, Daniel (neto de teuto-brasileiros) e dos três filhos, Alexis, de 9 anos, Lucy, 7, e Sabrina, 4. “Oi”, diz Sabrina, enquanto a mãe explica que os filhos têm vontade de aprender a falar o português.

O presidente da cooperativa aponta que a Colonias Unidas começou com 78 sócios-fundadores – 76 descendentes de alemães e 2 paraguaios. Ao longo das décadas, no entanto, outras 19 nacionalidades se integraram à associação, incluindo japoneses, ucranianos, poloneses, belgas, franceses e russos.

A diversidade de etnias no Paraguai se deve ao esforço de reconstrução do país após a Guerra da Tríplice Aliança, o maior conflito armado da história da América do Sul, entre 1864 e 1870, do qual o Paraguai saiu devastado e com uma população reduzida a cerca de 250 mil pessoas, a maioria mulheres, crianças e homens idosos. “Para tentar recuperar o país da devastação, as portas foram abertas de tal maneira como nunca antes fora visto no continente americano. As exigências e pré-requisitos foram reduzidos ao mínimo e todos os que desejavam imigrar para o Paraguai eram virtualmente aceitos”, diz o historiador Peter Klassen no livro Os Menonitas no Paraguai.

Em artigo, o professor Wilson Maske, titular de história contemporânea na Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), salienta que a colônia Hohenau, ao lado da cidade de Obligado, nas terras altas junto ao Rio Paraná, passou a ser considerada a “Blumenau” do Paraguai. “Caracterizou-se por conseguiu manter uma grande unidade étnica e por alcançar algo raro entre as colônias alemãs no país: um considerável sucesso econômico”. O faturamento da Cooperativa Colonias Unidas neste ano, de R$ 1,5 bilhão, não deixa dúvidas do progresso dos teuto-brasileiros do outro lado do Rio Paraná.

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