Normalmente, uma vaca produz cerca de 40 litros de leite por dia. Com o tempo mais quente, porém, o rendimento pode cair pela metade. | Jonathan Campos/Gazeta do Povo
Normalmente, uma vaca produz cerca de 40 litros de leite por dia. Com o tempo mais quente, porém, o rendimento pode cair pela metade.| Foto: Jonathan Campos/Gazeta do Povo

Os famosos pastos verdejantes e o clima ameno na Irlanda compõem o ambiente perfeito para o gado leiteiro. Mas não neste ano. O verão sufocante “tingiu” os campos de marrom e levou a uma escassez de forragem para os milhões de vacas no país.

Os meses secos e quentes causaram problemas em toda a União Europeia. O bloco é o maior exportador de leite do planeta. Produtores rurais da Irlanda à Alemanha tiveram de reduzir rebanhos ou interromper a ordenha meses mais cedo.

Para a indústria leiteira europeia, um complexo de US$ 12 bilhões, os campos secos fizeram aumentar os custos de alimentação animal, estrangulando os lucros dos pecuaristas. A Autoridade Irlandesa para Desenvolvimento da Agricultura e Alimentação, equivalente ao Ministério da Agricultura no Brasil, estima que os produtores devem receber em 2018 apenas metade do que haviam ganhado no ano passado. A situação do abastecimento pode se tornar crítica e a produção de leite cair nos próximos meses, segundo a Arla Foods, maior companhia leiteira do Norte da Europa.

“Em julho, nós consumimos a forragem que deveria ter durado o inverno todo”, afirma Pat McCormack, que tem um rebanho de 100 vacas leiteiras no Condado de Tipperary, na Irlanda, onde trabalha há mais de 20 anos. “Para um produtor sem grama, silagem, dinheiro e com os filhos indo para a faculdade, isso é um grande desafio mental.”

As coisas têm ido tão mal que a cooperativa Arla afirmou recentemente que planeja dar um passo sem precedentes: repassar todo o seu lucro aos produtores que enfrentam a pressão provocada pela estiagem. A União Europeia também tem se mexido para socorrer os pecuaristas em dificuldades, acelerando pagamentos ou aliviando a legislação.

Na Irlanda, a neve no começo do ano encharcou os pastos de tal maneira que os produtores começaram a recorrer às reservas de forragem antes que a seca tivesse prejudicado o crescimento dos pastos, fazendo com que eles consumissem neste verão os estoques que seriam para o próximo inverno. Alguns tiveram que buscar alimento para o gado fora da porteira, com custos extras, pois não tinham colheita própria para alimentar os animais.

Aqueles que não tinham condições para isso foram obrigados a reduzir o rebanho. Desde junho, o número de vacas abatidas por semana aumentou 16% na comparação com o ano passado, de acordo com o departamento de agricultura da Irlanda. Na Alemanha, os abates estão 50% acima do observado em 2017, conforme o grupo DBV.

A produção de leite não tem sido diretamente proporcional ao tamanho do plantel, mas, por enquanto, ainda é cedo para afirmar com segurança o real impacto à cadeia. O DBV avalia que as entregas na região Leste da Alemanha podem cair 10% no comparativo com o ano anterior. Um produtor irlandês acredita que as perdas totais cheguem a US$ 11,70 por vaca.

O calor também tem afetado as produtividades. Normalmente, uma vaca produz cerca de 40 litros de leite por dia. Com o tempo mais quente, porém, o rendimento pode cair pela metade e os animais levam mais tempo para se recuperar, explica Peter Paul Coppes, analista sênior do Rabobank em Utrecht, na Holanda. Pecuaristas tiveram que gastar mais com suprimentos alimentares para impulsionar a produção.

Os custos adicionais e a redução produtiva chegam num momento em que os preços do leite na Europa vinham em queda de 4%, de um ano para cá. Na Dinamarca, que reponde por 8% da cadeia leiteira europeia, o impacto da onda de calor pode ter chegado a US$ 1 bilhão, devendo levar a um aumento no preço do leite nos próximos seis meses, segundo o grupo dinamarquês SEGES.

A indústria pode enfrentar mais problemas, mesmo que as condições climáticas melhorem daqui em diante, pois o calor interfere na fertilidade do gado. Os resultados ainda são nebulosos pelos próximos nove meses, pontua Chris Gooderham, especialista da Câmara de Desenvolvimento Agropecuário do Reino Unido.

“Isso tudo deve levar a uma crise financeira no setor de pecuária leiteira da Irlanda, a menos que haja um aumento expressivo nos preços”, complementa John Robinson, produtor de leite com um rebanho de 130 vacas no Sudeste do país. “O Natal deve ser bem desolador.”

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