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Ovos de ouro

Criar galinhas virou moda e sinal de status na cidade do Facebook

O Vale do Silício abriga as principais empresas de tecnologia do mundo, como Facebook e Google. Seus executivos desenvolveram um novo hobby: criar e observar galinhas, gastando milhares de dólares com o bem-estar dos animais

Christie Hemm Klok/The Washington Post Filha de dois anos do criador de galinhas urbanas Matt Van Horn | Christie Hemm Klok/The Washington Post

Filha de dois anos do criador de galinhas urbanas Matt Van Horn

  • The Washington Post

John Land tem uma vida de destaque até mesmo entre os executivos da elite do Vale do Silício. Gerente de produção da Waymo (formalmente conhecida como o projeto de carros automáticos do Google), o trabalho o deixa pregado às telas de computador, aficionado com o futuro e exige um foco obsessivo, afirma Land.

Mas manter essa paixão - especialmente com seu quarto filho à caminho – significa que ele precisa saber quando dar um tempo. O segredo para o sucesso: relaxar com uma taça de vinho em seu quintal ao lado da esposa, filhos e uma família de 13 galinhas e três ovelhas.

É meio sem sentido, ele admite, mas está longe de ser banal. “É uma coisa fascinante sentar e ver esses animais porque, ao invés de olhar para uma tela, você está olhando para o ciclo da vida”, afirma. “É muito diferente do trabalho abstrato que eu faço”.

Ovos de ouro

Em áreas rurais e de classes trabalhadoras, criar galinhas é uma maneira econômica para obter ovos frescos. Nos últimos anos, a prática que surgiu como uma moda improvável do ambiente urbano. Na Bay Area - onde o movimento de alimentação local se confunde com a elite de especialistas em tecnologia - criar galinhas poedeiras é uma tendência eco-consciente, assim como dirigir um Tesla.

Nessa recente moda do Vale do Silício, os donos das galinhas jogam com as aves como qualquer outro fundo capitalista de risco: aplicando montanhas de dinheiro em uma aposta, ao gastar algo como US$ 20 mil com alta tecnologia, controle de produtividade e verificação da qualidade e das cores dos ovos. Eles também tentam encontrar novas maneiras de otimizar o bem-estar dos animais, assim como o seu próprio.

Christie Hemm Klok/The Washington Post

Ovos de galinhas do Vale do Silício tem cores e aspectos diferentes

Assim como qualquer outra startup de sucesso, as ninhadas não são tão desenvolvidas como a engenharia reversa. As decisões sobre a seleção de raças são feitas traçando matrizes de engenharia e gráficos que apresentam o crescimento médio. Alguns proprietários das aves falam sobre suas aves cada vez mais extravagantes como se comentassem atualizações de software, referindo-se às produções como Gen 1, Gen 2, Gen 3, e assim por diante. Eles mantêm os corretores de frangos da região ocupados buscando mais e mais aves.

“Na Amazon, sempre que desenvolvemos algo, escrevemos primeiro uma divulgação para a imprensa e decidimos nossas metas. Eu trago essa mesma mentalidade empresarial para as galinhas de quintal”, afirma Ken Price, diretor da Amazon Go, que morou uma década em São Francisco antes de se mudar para Seattle. Price tem 49 anos e teve seis frangos nos últimos oito anos e agora planeja um plano de sucessão para a sua próxima atualização.

“Estamos nos movendo para uma estrutura de custos mais sustentável”, nota Price, ao perceber quais galinhas produzem mais ovos com a menor quantidade de alimento.

Raças especiais

Enquanto o resto dos Estados Unidos gasta em média US$ 15 em um frango em um supermercado, os moradores do Vale do Silício podem gastar mais de US$ 350 por uma galinha de raça, com uma designação para aves raras e não industriais, com linhas genéticas que podem ser rastreadas por gerações. São selecionados traços de personalidade desejáveis (como uma galinha ser carinhosa e calma o suficiente para permitir que uma criança a abrace), raridade, beleza, capacidade de produzir ovos cobiçados e coloridos.

Tudo isso acontece em uma estrutura granjeira de primeira linha, com gastos exorbitantes com veterinários e até mesmo uma dieta de salmão orgânico, melancia e bifes.

Os novos proprietários podem começar com uma raça padrão, como Leghorn, Barred Rock ou Rhode Island Red, antes de comprarem raças mais exóticas e ornamentais como Silkie, uma raça gigante de Jersey, ou um frango polonês, ou ainda a raça Dorking, uma ave britânica em extinção e galinhas parentes daquelas que viviam no antigo Império Romano.

Outra modalidade popular são os Easter Eggers (Ovos de Páscoa), um tipo de frango com um gene que permite produzir ovos azul claro.

Número de aves

Um bando típico no Vale do Silício é de quatro ou cinco aves, mas aqueles que ‘enlouquecem’ acabam tomando conta de 15 ou 20. Quando bem tratados (e mimados), os animais podem viver mais de uma década.

Em vez de construir um galinheiro com compensados da loja mais próxima, as aves raras do Vale do Silício contratam empreiteiros para construir granjas de até US$ 20 mil, com materiais sustentáveis e que parecem casas humanas. Elas podem ser equipadas com painéis solares, portas automáticas e luz elétrica, além de câmeras que permitem aos proprietários monitorar os pássaros remotamente.

Criador de frangos de Redwood City, Bill Michel gosta de compartilhar vídeos de suas aves para que qualquer pessoa assista. “O melhor momento é a hora de dormir”, afirma Michel por email, ao comentar um dos momentos do vídeo. “Elas se empurram para encontrar a melhor posição antes de deitar”.

Michael utiliza um sistema que permite aos proprietários controlar suas granjas por smartphone, monitorando e ajustando temperatura, ventilação e incidência de luz.

O sistema inclui ainda uma porta automática e um detector de movimentos de predadores, que acende uma luz de segurança e envia aos proprietários uma mensagem quando há algum perigo. Apesar dos privilégios, até mesmo essas aves são circundadas por predadores como falcões, coiotes, guaxinins e linces.

Christie Hemm Klok/The Washington Post

Matt Van Horn com sua filha de dois anos

Pelo menos um dos proprietários planeja transformar sua granja em um Airbnb (site de hospedagens) para humanos, assim que as galinhas morrerem, segundo a Scoot Vanderlip, entidade que monitora 2,5 mil criadores.

“Minha madeira emoldurada e as cercas são lindas: com fios elétricos, água encanada, janelas e portas vintage”, descreve Laura Menard, uma criadora orgulhosa, moradora do luxuoso subúrbio do Vale do Silício.

As galinhas de lá são consideradas membros da família, destaca Moira Hanes, afirmando que se recusa a comer frango assado na frente de suas três aves. Já uma professora de Berkeley registrou seu galo Gwennie em um centro de apoio emocional para animais por ser ‘portador de necessidades especiais’. Gwennie é caolho e tem bico cruzado e é alimentado com uma mistura de grãos com comida para bebês. O galo também recebe um banho semanal, claro, sem dispensar o secador. “Ele ama isso”, disse a professora por email.

Não é incomum encontrar galinhas passeando dentro da casa de seus donos ou empoleiradas nos quartos, muitas vezes usando fraldas – conta Leslie Citroen, 54 anos, uma espécie de “encantadora de galinhas” de Bay Area, que faz de tudo, da venda de galos e galinheiros “de luxo” até a consultoria especializada em aves. Seus serviços custam US$ 225 a hora. Quer um galinheiro ou viveiro maior, que dê para entrar em pé? Por um modelo padrão, prepare-se para pagar de US$ 4.000 a US$ 5.000.

Citroen acumula experiência com milhares de clientes ao longo dos anos e isso lhe dá credenciais diferenciadas para atender a crescente obsessão dos moradores de Bay Area.

Mimos: chefs e médicos

Um estudo de 2002 (o mais recente disponível) feito pelo Departamento de Agricultura da California, mostra que há pelo menos 62 mil criadores de galinha, mas alguns estudiosos acreditam que esse número já seja o dobro, graças à “chicken-mania” que varre Bay Area – como classificou o jornal Mercury News.

Pelo menos um dos clientes de Leslie Citroen tem um chef que cozinha exclusivo para suas galinhas. Citroen lembra que como algumas galinhas se alimentam dos próprios ovos – quando não dos próprios pintainhos – a saúde das aves é prioridade total. Seus clientes gastam milhares de dólares em cirurgias e exames para mantê-las vivas após ataque de predadores ou doenças.

Às vezes, obviamente, nada pode ser feito, como em relação à galinha que encontrou seu fim numa piscina no condado de Marin.

“A dona me telefonou em prantos”, diz Citroen. “Ela estava arrasada”.

Os clientes de Citroen geralmente são homens entre 30 e 40 anos, com famílias jovens. Após passarem seus dias em frente aos computadores, eles anseiam por uma conexão com a natureza. O que eles mais querem, diz ela, é um “arco-íris” de ovos coloridos, em vários tons de azul, verde azeitona e marrom salpicado.

Por quê?

O motivo do empenho é uma declaração de que “esses ovos não vieram do Whole Foods ou Walmart, eles vieram do fundo do meu quintal”, explica Citroen. “É um símbolo de status”.

Luca, o filho de 19 anos de Citroen, que cresceu envolvido no negócio da família, descreve dessa forma: “Ao dizer que cria galinhas, você está dizendo que possui um quintal, e ter quintal significa ter espaço. E ter espaço significa ter dinheiro, especialmente quando se trata do mercado imobiliário do Vale do Silício”.

“Temos obsessão por galinhas e isso é um pouco constrangedor”, diz Amina Azhar-Graham, pesquisadora do condado de Contra Costa casada com Justin, um engenheiro de software. Eles criam 10 galinhas como forma de atenuar o desejo de Amina de ter mais filhos. “Gastamos uma quantia insana de dinheiro com elas. A gente imaginava que as alimentaria com sobras, mas o fato é que elas acabam comendo salmão grelhado, bifes, alfaces frescas e melões orgânicos”.

Assistir às galinhas é uma das atividades favoritas da família. Eles chamam isso de “televisão de caipira”.

“Somos uma típica família de Bay Area. Compramos qualquer coisa que tenha a ver com nossas raízes ou que seja orgânica”.

Caixinha de presente

Não faz muito tempo Matt Van Horn e sua mulher, Lauren, chegavam para um jantar entre amigos com uma bela garrafa de vinho embaixo do braço – geralmente um californiano Zinfandel da vinícola favorita do vale vizinho de Napa.

Mas ultimamente os Van Horns preferem oferecer algo que acham mais impactante. Eles levam uma caixinha com meia-dúzia de ovos.

Não são meros ovos. Integram uma coleção de cor café, colhidos manualmente do ninho da Rainha Elizabeth, da Ursa ou de outra imponente galinácea da linhagem criada pelos Van Horn num aconchegante galinheiro no deque do quintal da família, com vista para a floresta de Sutro. Como um toque final, cada embalagem leva o carimbo de selo de qualidade da família: “VH SF Eggs”.

É um selo bem rústico e artesanal. Não exatamente o que se esperaria de um casal da alta casta da indústria tecnológica.

Lauren trabalhou no setor de parcerias estratégicas do Facebook antes de largar tudo para se dedicar em tempo integral para a filha de dois anos. Ela é uma das fundadoras da marca June, que produz fornos conectados à internet. O casal possui oito aparelhos Amazon Alexa (assistente que realiza tarefas por comandos de voz). Matt, que se autodescreve como um “empreendedor futurista”, transmitiu ao vivo sua proposta de casamento a Lauren.

Mas como Johan Land e outros profissionais de muito estresse e sucesso, as galinhas fazem mais do que apenas cacarejar.

“É muito legal esta experiência táctil de dar comida e água para as galinhas, de cuidar e tratar delas”, diz Matt Van Horn, que foi apresentado às galináceas pelo seu chefe na empresa. “Viver próximo delas é uma forma de fugir da tecnologia que invade nossas vidas a toda hora”.

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