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Para produtores dos EUA, nomenclatura pode confundir consumidores sobre a carga nutricional dos alimentos. | HEDESON ALVES/HEDESON ALVES
Para produtores dos EUA, nomenclatura pode confundir consumidores sobre a carga nutricional dos alimentos.| Foto: HEDESON ALVES/HEDESON ALVES

Se o leite vem de uma planta, ainda assim é possível chamá-lo de leite? Não segundo a indústria de laticínios. Mas não é apenas questão de nome, a dúvida tem um forte impacto comercial e alimentar. Tanto que nos Estados Unidos, uma das maiores bacias leiteiras do mundo, produtores estão contra-atacando com a ajuda do Congresso. Enfrentando a concorrência crescente de alternativas como amêndoa, soja e leite de coco, eles querem impedir que as empresas chamem produtos de origem vegetal de iogurte, leite ou queijo. O setor afirma que a prática confunde o consumidor e o leva a pensar que o leite não proveniente de uma vaca é nutricionalmente similar àquele que vem do animal.

Um grupo bipartidário de 32 membros do Congresso está pedindo à FDA, a agência norte-americana reguladora de alimentos e medicamentos, que reprima as companhias que chamam de “leite” bebidas fabricadas a partir de plantas. O grupo afirma que as regras da FDA definem leite como uma “secreção láctea” obtida pela ordenha de “uma ou mais vacas saudáveis”. O projeto de lei apresentado pelo deputado Peter Welch, do Partido Democrata, e pela senadora Tammy Baldwin, também dos Democratas, sugere uma definição um pouco mais ampla. O projeto exige que a FDA se concentre em leite, iogurte e queijo que não contenham leite de “mamíferos ungulados”. “O que estamos dizendo é que o leite é definido pela FDA e nós pedimos que a FDA faça cumprir sua definição”, diz Welch.

Críticos, porém, dizem que os consumidores sabem exatamente o que estão comprando quando escolhem leite de soja ou amêndoa em vez do de vaca. “Não existe vaca em nenhum dos recipientes de leite de amêndoa ou soja”, afirma Michele Simon, diretora executiva da Plant Based Foods Association, grupo que representa 70 empresas que produzem alimentos com plantas. “Ninguém está tentando enganar o consumidor.”

E os outros produtos que não são de origem animal, mas têm nomes de laticínios? Será que o leite de magnésia, a manteiga de cacau, o creme de trigo e a manteiga (ou creme) de amendoim também terão de mudar seus nomes?

Queda de consumo

O leite de vaca já foi uma das bebidas mais icônicas dos Estados Unidos, mas os norte-americanos bebem 37% menos leite hoje do que em 1970, segundo o Departamento de Agricultura. O Mintel, instituto de pesquisa de mercado, constatou que percepções negativas à saúde estavam incentivando o declínio nas vendas do leite de vaca.

Enquanto isso, as alternativas ao produto de origem animal, feitas com amêndoa, soja, caju e coco, viram a popularidade explodir nos últimos anos. Os leites de origem vegetal são comercializados no corredor de laticínios e ainda representam uma migalha do mercado de bebidas, mas as vendas continuam crescendo, em boa parte pela popularidade crescente do leite de amêndoa. No ano passado, a Starbucks, maior rede de cafeterias do mundo, anunciou que começaria a oferecer o produto para tornar mais leves seus expressos, buscando atender à demanda do público. A empresa disse que essa era uma das sugestões de consumidores mais populares de todos os tempos.

Especialistas dizem que a venda do leite de amêndoa está crescendo por diversos motivos. A indústria de laticínios tem sofrido críticas por questões ligadas ao bem-estar animal e ao suposto impacto ambiental do gado, que, segundo os críticos, contribuiria para a poluição do ar e da água.

A produção de amêndoa também tem impacto ambiental. A maior parte das amêndoas do mundo é produzida pela Califórnia assolada pela seca, e cultivar 16 amêndoas requer 58 litros de água. No fim das contas, entretanto, o impacto ambiental da produção do leite de vaca em áreas onde amêndoas são cultivadas seria muito pior, afirma David Zetland, professor assistente de economia da Universidade de Leiden, Holanda, e autor de um livro sobre a escassez de água.

Muitos consumidores também consideram o leite de amêndoa uma alternativa mais saudável do que o leite de vaca. A indústria de laticínios não concorda, destacando que o leite tem nove ingredientes essenciais necessários para a boa saúde, como cálcio, vitamina D, vitamina B12 e potássio. O setor também criou anúncios afirmando que o leite tem até oito vezes mais proteína que a versão de amêndoa e menos ingredientes e aditivos. Algumas marcas de leite de soja e amêndoa contêm grandes quantidades de açúcar, mas também existem versões não adoçadas, com zero açúcar, e alguns são fortificados com cálcio, B12 e outros nutrientes.

Também existe discussão quanto aos méritos nutricionais do leite de vaca. Por exemplo, em 2013, dois especialistas em nutrição, Walter Willett e David Ludwig, ambos de Harvard, publicaram um artigo defendendo que adultos saudáveis que comam legumes, nozes e proteínas suficientes em duas dietas podem não precisar do benefício extra do leite de vaca. Eles também questionaram a presença de hormônios no leite e do açúcar no leite achocolatado servido em muitas escolas.

Enquanto o setor de laticínios continua defendendo seu caso, os produtores de leites de origem vegetal rebatem. A associação que os representa enviou cartas à FDA afirmando que o produto é adequadamente identificado com seus nomes “comuns ou habituais”.

“Eles não têm coisa melhor para fazer do que se preocupar com a forma com que um produto é chamado?”, indaga Miyoko Schinner, diretora executiva da Miyoko’s Kitchen, que vende queijos e manteigas de nozes populares em quase duas mil lojas dos EUA. “A única razão pela qual se interessam por isso é a proteção de seus interesses especiais.”

Marsha Cohen, especialista em direito de alimentação e remédios da Universidade da Califórnia, afirma que a indústria de laticínios terá uma batalha difícil pela frente. Segundo ela, a definição pública para leite e outros alimentos - conhecidas como “padrões de identidade” - tem a intenção principal de proteger o consumidor de danos financeiros, tais como ser levado a comprar alimentos baratos ou imitações disfarçados de versões mais caras. De acordo com Cohen, a FDA permitiu recentemente que a empresa Hampton Creek chamasse seu substituto vegano à maionese de “Just Mayo”, ainda que a definição legal da agência para maionese afirme que o produto deve conter ovos.

Da fazenda para o tribunal

O debate sobre o que pode ou não ser chamado de leite foi parar nos tribunais, com os juízes até agora ficando do lado dos produtos feitos com plantas. Em 2013, o juiz Samuel Conti, de San Francisco, rejeitou uma ação coletiva que afirmava que os leites de amêndoa, coco e soja apresentavam rótulos errados porque não são de vaca. Conti alegou que a ação “alargava os limites da credulidade” e que era “simplesmente implausível que um consumidor razoável confundisse um produto como leite de soja ou leite de amêndoa com o de vaca”. Ainda de acordo com o juiz, o caso lembrava um anterior no qual uma mulher alegou ter sido enganada pelo cereal Cap’n Crunch’s Crunch Berries por achar que ele contivesse frutos de verdade - o caso foi rejeitado.

Em outro processo, de 2015, Vince Chhabria, juiz da Califórnia, rejeitou uma ação semelhante alegando que os consumidores poderiam ser levados a pensar que leite de soja e leite de vaca eram nutricionalmente equivalentes. “Um consumidor razoável não vai pensar que dois produtos distintos têm o mesmo conteúdo nutricional; se o consumidor tiver dúvidas quanto ao conteúdo nutricional, ele consulta o rótulo”, alegou o juiz.

Um lugar em que a indústria do laticínio sempre encontrou apoio foi em Washington. As diretrizes dietéticas do governo recomendam que os norte-americanos bebam até três copos de leite desnatado ou de laticínios por dia, afirmando que os produtos contêm muitos nutrientes essenciais, tais como proteína, cálcio, vitamina D e potássio.

Baldwin conta que um dos motivos para ter apresentado a lei do orgulho do laticínio foi que seus eleitores do setor escreveram manifestando preocupação. Entre eles estava Janet Clark, da terceira geração de uma família produtora de leite no estado de Wisconsin. Segundo Clark, ela e sua família têm sofrido enquanto o preço do leite vem caindo e o custo de produção só faz aumentar. Para a produtora, os fabricantes da versão de origem vegetal lucram injustamente com o renome e a reputação granjeados pelo leite de vaca.

“Definimos um padrão elevado para o leite que produzimos. O leite já foi definido como vindo de um animal leiteiro. Nós só queremos que isso seja aplicado na comercialização nos supermercados - o fato de que aquilo que chamamos de leite provém de um animal leiteiro”, diz ela.

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