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 | Andre Borges/Agência Brasília
| Foto: Andre Borges/Agência Brasília

Há uma década, Roberto Libera resolveu que não queria mais abrir áreas de pastagens na Fazenda Paraná, propriedade com 34 mil hectares no alto da Serra do Roncador, em Mato Grosso. As 10 mil cabeças de gado exigiam novos pastos, mais distantes das estruturas existentes e seriam necessários novos investimentos e desmatamento. Libera tentou, então, fazer diferente. Resolveu recuperar o solo já degradado, plantando acácias.

Sua expectativa era, além de usar as árvores de origem australiana para fixar nitrogênio na terra e criar húmus, vender a madeira para móveis ou lenha e transformar folhas em ração para o gado. Um efeito colateral, porém, mudou totalmente seu negócio. As acácias atraíram tantas abelhas que, em breve, Libera, de 64 anos, deverá se tornar o maior produtor de mel do Brasil. Sua expectativa é, em seis anos, faturar mais com a apicultura da Casa Roncador do que com o gado. “Nunca mais cortamos um pé de árvore”, diz ele, que hoje tem mais de 1 milhão de acácias plantadas.

Apesar de ser um caso único, a Fazenda Paraná reflete uma tendência que vem se consolidando no agronegócio brasileiro: a da integração lavoura-pecuária-floresta (ILPF). Pesquisa realizada pela consultoria Kleffman Group para a Rede de Fomento ILPF, na safra 2015/2016, mostrou que o sistema já é adotado em 11,5 milhões de hectares - ou 5,5% das áreas sob uso agropecuário no Brasil -, com crescimento de quase 20% ao ano, desde 2005. A expectativa é superar os 20% da área total explorada em 2030. “Os benefícios aparecem de todos os lados”, diz Lourival Vilela, pesquisador da Embrapa.

Isso porque, ao colocar o gado em campos nos quais planta soja e milho, o produtor consegue, entre outras coisas, diversificar sua fonte de renda.

Pesquisas feitas pela Embrapa e outras instituições também mostram o aumento da produtividade tanto do gado quanto dos grãos. Isso sem contar a redução do impacto ambiental, a diversificação da biodiversidade e a melhoria do bem-estar dos animais. Há ganhos ainda pela diminuição do êxodo rural e na maior geração de empregos.

Tantas vantagens, porém, não significam que a monocultura extensiva, realidade da maior parte dos campos explorados no País, esteja com os dias contados. “O maior ganho é não precisar aumentar a área desmatada porque a produtividade aumenta”, diz Vilela.

No caso de pecuaristas como Libera, a alternativa de diversificação faz todo o sentido, dizem os especialistas. “O ganho com pecuária é baixo”, afirma Plínio Nastari, presidente da consultoria Datagro. Enquanto a renda média anual com gado no País é de R$ 800 a R$ 900 por hectare, com milho ela sobe para R$ 2,4 mil, chega a R$ 3,6 mil com soja e vai a R$ 11 mil com cana. O pecuarista ganha mais dinheiro com a valorização da terra do que com o gado em si.

Mudança

“A pecuária, tradicionalmente, tem altos e baixos”, diz Libera. “Estamos sofrendo mais por causa da recessão, da Operação Carne Fraca e dos problemas com a JBS, mas de tempos em tempos é assim.” Essa instabilidade foi um dos motivos pelos quais, quando as primeiras caixas para abelhas colocadas com as acácias, há oito anos, ficaram cheias de mel, ele resolveu investir.

Engenheiro civil de formação, ele escolheu a acácia depois de pesquisar alternativas de recuperação do solo na internet, mas teve de descobrir sozinho como criar as mudas, já que não havia tradição no cultivo dessa árvore no País. Virou referência na área.

Também foi buscar treinamento para que os funcionários aprendessem a manejar as colmeias e produzir o mel. Desistiu de arrendar as terras para o cultivo de soja, por conta dos defensivos que ameaçavam as abelhas e a qualidade do produto. Tirou as autorizações sanitárias e legais e ergueu o entreposto, como são chamadas as fábricas da área. A unidade deve entrar em funcionamento no fim de agosto. No total, foram investidos cerca de R$ 5 milhões desde 2009.

O entreposto da Casa Roncador nasce com capacidade de processar seis toneladas de mel por dia, de maneira totalmente automatizada. Inspirada num sistema desenvolvido na Finlândia, a máquina que remove o mel dos favos consegue extrair 720 quilos por hora. A intenção é produzir 200 toneladas já em 2018 e atingir a plena capacidade, de 1,4 mil toneladas por ano, entre 2023 e 2025.

Para chegar ao objetivo, as 1,5 mil caixas com colmeias se transformarão em 30 mil, no mesmo período. Serão contratados 50 trabalhadores só para o manejo. “Hoje, é viável fazer três colheitas no ano, mas nosso objetivo é chegar a quatro”, diz Libera. Na Europa, há apenas uma ou duas, por conta do inverno rigoroso.

Libera pretende alcançar essa produtividade graças ao manejo intensivo das abelhas - é necessário, por exemplo, checar as colmeias a cada 16 dias para evitar uma fuga em massa - e as estratégias para sua multiplicação. Para que elas permaneçam na área, é preciso pólen, néctar e água. Um dos métodos usados pela Fazenda Paraná é fazer com que a área de preservação ambiental, obrigatória em 30 metros ao redor de rios e córregos, seja ampliada a 300 metros. Nos 270 metros restantes, estão sendo plantadas árvores nativas que floresçam em períodos diferentes das acácias.

Tipo exportação

Se os planos se concretizarem como o esperado, Libera se tornará o maior produtor de mel do País. “Ele enxergou o potencial dessa indústria”, diz José Aragão Brito, presidente da Confederação Brasileira de Apicultura. Segundo ele, pesquisas indicam que, em 5 a 10 anos, a demanda por mel será de 100 mil a 150 mil toneladas por ano. “O Brasil deve atender a boa parte da demanda mundial por mel, já que de 80% a 85% do pasto apícola é inexplorado”, afirma.

Hoje, são produzidos entre 45 mil e 50 mil toneladas de mel por ano no País, mas praticamente não há grandes produtores individuais. No Nordeste, uma das regiões mais relevantes da apicultura no Brasil, os maiores produtores têm até 3 mil caixas de abelhas, segundo Brito. A distribuição geralmente é feita por meio de cooperativas, e os donos de entrepostos passam de sítio em sítio para recolher o mel oriundo de várias fontes, misturá-lo e processá-lo.

Em sua fazenda, além de controlar o processo produtivo, Libera tem outra vantagem: uma espécie de denominação de origem controlada. Por ser feito apenas com flores e néctar de acácias, o mel da Casa Roncador é muito suave e valorizado no exterior.

Em seus planos, porém, os potes da marca chegarão primeiro aos mercados premium das grandes cidades, ainda este ano, para depois serem exportados em tonéis. Se tudo correr como planejado, há a possibilidade de o produto ser enviado ao exterior, também engarrafado com a marca.

Enquanto a produção de mel começa a se concretizar, Libera inicia os trabalhos em outro projeto: a criação de porcos caipiras, que não crescem comendo apenas soja, em granjas. Eles já estão pastando num sistema de rotação, com direito a chafurdar na lama. Serão vendidos na própria gordura, como os porcos na lata da época pré-refrigeração. “O gosto muda totalmente”, diz ele, já planejando o próximo sonho.

Muitos ainda resistem à integração lavoura-pecuária-floresta

A ideia de cultivar acácias pela madeira e para recuperar o solo, substituída pelo projeto de produzir mel com a chegada das abelhas, em pouco tempo ganhou uma função adicional. Enquanto as árvores cresciam na Fazenda Paraná, na Serra do Roncador, a 800 metros de altitude, vacas e bezerros começaram a ganhar peso mais rápido.

”Com as acácias, o capim voltou mais bonito e regenerado”, diz Roberto Libera, diretor da Fazenda Paraná. “As acácias, por sua vez, cresceram mais fortes com a adubação do gado.”

No fim de julho, em plena seca no cerrado, as reses avançavam sobre as folhas mais baixas das acácias, altamente proteicas e as únicas plantas verdes em todo o pasto.

Não é à toa que Libera pretende fazer com que os 2 mil hectares plantados hoje, se transformem em 20 mil hectares no longo prazo. “Nosso conceito de fazenda mudou”, diz ele. “Hoje, queremos preservar o máximo possível e estimular a biodiversidade.”

É exatamente esse um dos ganhos percebidos com a integração lavoura-pecuária-floresta: um sistema de produção leva a ganhos do outro, que são sentidos na ponta do lápis. Segundo pesquisas da Embrapa, num consórcio no qual se intercalem grãos ou braquiária com gado, o ganho de peso médio dos animais é de 800 gramas por dia. Já o produtor de grãos pode obter de 6 a 12 sacas a mais de soja por hectare.

Os exemplos são vistos em todo o País. Numa propriedade acompanhada pela Embrapa, no Rio Grande do Sul, a rotação de gado com grãos (e suplementos alimentares) fez com que a média de produção de leite chegasse a 23 litros por vaca a cada dia, numa região cuja média de produção é de 11 litros. Em outra, na qual o cultivo de arroz foi intercalado com a criação de gado, os animais que antes eram vendidos entre 24 e 36 meses, atingiram o peso ideal entre 18 e 24 meses.

Com resultados tão sensíveis, 83% dos produtores que aderiram ao sistema integram só a pecuária com a lavoura. “Há muita resistência dos pecuaristas e produtores de grãos a incluir árvores na equação”, diz Lourival Vilela, pesquisador da Embrapa. Isso porque a floresta atrapalha as colheitadeiras de grãos.

”O gado só vê sombra na hora que vai ao abatedouro”, diz. “Só que deixá-lo sob o sol é mais ou menos como condenar alguém a almoçar sob calor de 40 graus: sem conseguir comer, o ganho de peso é pequeno.”

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