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Chinesas aproveitam estruturas de rivais e avançam na produção de carros made in Brazil

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Montadora chinesa BYD iniciou a produção de veículos eletrificados em Camaçari (BA), onde já foi a fábrica da Ford (Foto: Eduardo Andrade / Ascom SDE-BA )

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A chegada das montadoras chinesas ao mercado brasileiro deixou de se concentrar apenas na importação de veículos e começa a ganhar espaço também na produção nacional. Além de disputar espaço no mercado com veículos importados, as empresas asiáticas estão ocupando fábricas e estruturas industriais que já pertenciam a montadoras tradicionais.

Atualmente, 15 marcas chinesas operam no Brasil. BYD, GWM e Caoa Chery já possuem fábricas próprias no país, instaladas em estruturas que pertenceram a montadoras tradicionais. Outras marcas, como Geely e Leapmotor, recorrem a parcerias para utilizar instalações existentes e acelerar a fabricação local.

O movimento ganhou força a partir da estratégia de algumas empresas de aproveitar uma infraestrutura industrial que já estava instalada no país. Em vez de começar do zero, as montadoras encontraram fábricas, linhas de produção e complexos automotivos que poderiam ser adaptados para a fabricação de seus veículos.

A GWM, por exemplo, assumiu a fábrica de Iracemápolis (SP), que havia pertencido à Mercedes-Benz. A unidade começou a produzir veículos da marca chinesa em 2025 e atualmente fabrica modelos como Haval H6, Haval H9 e a picape Poer P30.

A BYD, principal marca chinesa em operação no país, também aproveitou uma estrutura industrial já existente. A empresa assumiu o complexo de Camaçari (BA), onde funcionava a antiga fábrica da Ford, e iniciou a produção local em 2025.

Em Anápolis (GO), a Caoa Chery produz veículos desde 2017, enquanto a chinesa Changan iniciou em 2026 a fabricação do UNI-T na estrutura industrial da Caoa. O movimento amplia o uso de uma unidade que já conta com infraestrutura e cadeia produtiva instaladas.

A estratégia também aparece em projetos que ainda estão em implantação. A Geely prepara a produção em São José dos Pinhais (PR), utilizando a estrutura da Renault. A Leapmotor, por sua vez, produzirá os modelos B10 e C10 no Polo Automotivo de Goiana (PE), da Stellantis, com início previsto para novembro.

No Ceará, a MG Motor, marca pertencente ao grupo chinês SAIC, prepara a produção de veículos na antiga fábrica da Troller, em Horizonte. Já a GAC deverá produzir em Catalão (GO), em parceria com a HPE Automotores, enquanto Omoda & Jaecoo têm produção prevista em Itatiaia (RJ), em uma estrutura anteriormente utilizada pela Jaguar Land Rover.

Por que as montadoras chinesas estão aproveitando fábricas brasileiras?

Comprar capacidade instalada permite às chinesas encurtar em anos o caminho até a produção local. Enquanto uma planta construída praticamente do zero pode levar de três a cinco anos entre licenciamento, obras e início da produção em escala, uma operação que aproveita uma estrutura industrial existente permite começar com parte da infraestrutura já pronta. Além dos galpões, essas unidades possuem instalações elétricas e hidráulicas, licenças ambientais, logística estruturada e, principalmente, mão de obra especializada.

A estratégia também permite que as fabricantes reduzam riscos durante a entrada no mercado brasileiro. "Em vez de comprometer bilhões de reais antes de saber como o consumidor brasileiro vai receber seus produtos, as empresas começam montando veículos a partir de grandes kits importados e vão aumentando gradualmente a produção local conforme as vendas crescem”, explica Ingridhe de Moraes Magalhães, professora de economia da PUC-PR.

“Esse modelo reduz o risco inicial e permite ajustar o ritmo de investimento conforme a demanda se confirma", prossegue.

Incentivos fiscais favorecem crescimentos das marcas chinesas

A política industrial brasileira também entrou na equação. Um dos principais instrumentos é o Mover (Mobilidade Verde e Inovação), programa federal que substituiu o Rota 2030 e prevê R$ 19,3 bilhões em créditos financeiros entre 2024 e 2028. Os recursos podem ser utilizados para abatimento de tributos federais, desde que as empresas cumpram contrapartidas relacionadas a pesquisa e desenvolvimento e novos projetos de produção.

"O desenho é mais generoso que o anterior. Cada real investido em P&D gera créditos financeiros entre R$ 0,50 e R$ 3,20, contra R$ 0,12 de abatimento no Rota 2030. Além disso, o Mover oferece IPI diferenciado para veículos sustentáveis e redução do imposto de importação para autopeças sem similar nacional", explica Ingridhe.

Outro fator é a própria política tarifária, que, segundo a economista, funciona como uma espécie de incentivo à produção local. A elevação gradual do imposto de importação para veículos eletrificados até 35% aumenta o custo de quem depende exclusivamente de veículos importados e favorece as empresas que passam a produzir no país.

Montadoras chinesas concorrem entre si e precisam se adaptar ao Brasil

A produção local será um dos principais fatores para definir a permanência das montadoras chinesas no país. Com o imposto de importação de veículos eletrificados montados chegando a 35%, depender exclusivamente de carros importados tende a reduzir as margens e limitar a capacidade das empresas de competir por preço. A nacionalização, portanto, deixa de ser apenas uma estratégia de expansão e passa a ser fundamental para a sustentabilidade das operações no Brasil.

Nesse processo, a transição da montagem de veículos semidesmontados, conhecida como SKD, para uma produção mais completa, com etapas como estamparia, soldagem, pintura e fabricação de componentes no país, será um importante indicador do compromisso das fabricantes com o mercado brasileiro. A BYD, por exemplo, prevê concluir essa transição em 2027.

“Outro desafio é adaptar os produtos às características do consumidor brasileiro. Um dos principais diferenciais do país é a ampla utilização do etanol, o que cria espaço para tecnologias híbridas e flex. A GWM, por exemplo, já desenvolve versões flex e híbridas flex para o mercado nacional”, diz Ingridhe.

A economista destaca ainda que o rápido aumento do número de fabricantes chinesas tende a provocar uma disputa dentro do próprio grupo. Atualmente, 15 marcas chinesas operam no Brasil, enquanto as dez maiores concentram 84% das vendas do grupo.

“Não haverá espaço para todas as marcas crescerem simultaneamente. As empresas com maior capacidade financeira, redes de distribuição mais estruturadas, bom pós-venda e capacidade de construir reputação no país tendem a ganhar espaço, enquanto outras poderão deixar o mercado ou ser absorvidas”.

Para a especialista, a consolidação do mercado já começou. Em menos de dois anos, as fabricantes chinesas deixaram de ocupar uma posição marginal e passaram a representar quase um quarto das vendas de veículos leves, além de avançarem para segmentos de maior valor.

“A questão, portanto, já não é apenas se as montadoras chinesas permanecerão no Brasil, mas quais delas conseguirão se consolidar e em quais condições”.

Quais marcas chinesas despertam mais interesse?

De acordo com levantamento de dados de busca no Google Trends realizado nos últimos 12 meses (agosto de 2025 a agosto de 2026), a BYD concentra a maior fatia de interesse do consumidor brasileiro em relação às montadoras chinesas. Ao analisar o volume comparativo do segmento, a marca concentra 78% do total de buscas no país.

A GWM consolida-se na segunda posição com 15,6% das pesquisas, enquanto montadoras como JAECOO (2,6%), CAOA Chery (2,6%) e Leapmotor (1,3%) dividem o restante do interesse do público.

** Esta reportagem faz parte de uma parceria com o Google, que apoia projetos jornalísticos baseados em dados do Google Trends. A apuração é de responsabilidade exclusiva da Gazeta do Povo, sem qualquer interferência editorial do Google.

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