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Elétricos e híbridos

Onda chinesa reduz preços de carros a combustão e muda estratégia das montadoras

Carros chineses Brasil
Estande da Geely na Exposição Internacional da Cadeia de Suprimentos da China (CISCE) em Pequim, na China (Foto: EFE/EPA/JESSICA LEE)

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O Brasil se tornou, pela primeira vez, o maior comprador de carros chineses do mundo, superando mercados como Rússia e Bélgica. O avanço das montadoras do país asiático, impulsionado principalmente pelos veículos elétricos e híbridos, já provoca uma transformação profunda no mercado automotivo nacional.

Se, por um lado, a concorrência ampliou a oferta de veículos mais equipados e pressionou fabricantes tradicionais a rever preços, equipamentos e estratégias comerciais, por outro, começa a produzir um efeito menos perceptível para o consumidor: a desvalorização dos veículos seminovos, especialmente daqueles acima de R$ 100 mil.

"Durante a pandemia, o seminovo ficou muito caro, e o consumidor passou a pagar caro por um carro nacional que entregava pouca tecnologia. As marcas chinesas chegaram oferecendo mais equipamentos por um preço menor", afirma Claudenir Pires, proprietário de três lojas de veículos em Santa Catarina.

Segundo o empresário, a mudança já alterou o perfil de quem compra automóveis no Brasil. Os números ajudam a explicar esse movimento: as fabricantes chinesas já alcançaram 23% de participação no mercado brasileiro de veículos leves na primeira quinzena de julho, segundo levantamento da Bright Consulting, consolidando uma trajetória de crescimento iniciada há poucos anos.

O avanço também aparece nas importações. Levantamento da Fecomércio Paraná, elaborado a pedido da Gazeta do Povo com base em dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), mostra que o valor das importações brasileiras de veículos elétricos e híbridos chineses quadruplicou em apenas um ano. O volume saltou de US$ 637,8 milhões no primeiro semestre de 2025 para US$ 2,56 bilhões no mesmo período de 2026 – um crescimento de 301,5%.

E um dos efeitos da chegada de modelos como BYD Dolphin Mini, BYD Yuan Pro e GWM Ora 03 – veículos mais equipados e a preços agressivos – foi levar as montadoras tradicionais a ampliar descontos, oferecer bônus de fábrica e condições especiais de financiamento para preservar participação de mercado.

A Renault, por exemplo, tem oferecido bônus de trade-in entre R$ 25 mil e R$ 30 mil na compra do Duster. Já a Volkswagen reduziu o preço do Nivus Highline em até R$ 30 mil, além de oferecer taxa zero de fábrica e ampliar os incentivos para valorização do veículo usado na troca.

Guerra de preços deve continuar, diz economista

Para o economista Jackson Bittencourt, professor da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), o consumidor está diante de uma transformação que vai além das campanhas promocionais lançadas para atrair compradores.

Segundo ele, existe, de fato, uma estratégia agressiva de entrada no mercado brasileiro. Algumas fabricantes chinesas trabalham com margens menores, oferecem descontos, bônus de troca, taxas subsidiadas e veículos mais completos para conquistar rapidamente consumidores. No entanto, essa é apenas parte da explicação.

"No primeiro semestre de 2026, aproximadamente metade dos 280,6 mil veículos importados emplacados no país veio da China, e o volume praticamente dobrou em relação ao mesmo período do ano anterior. Mesmo que algumas promoções sejam retiradas, dificilmente o mercado retornará ao padrão anterior de precificação."

Na avaliação do economista, a vantagem competitiva dos carros chineses resulta da combinação entre escala de produção, integração da cadeia industrial, domínio tecnológico e velocidade de inovação.

"A principal mudança não é simplesmente a chegada de carros mais baratos, mas a redefinição do que o consumidor considera aceitável receber em tecnologia, desempenho, segurança e equipamentos por determinada faixa de preço."

Competitividade construída ao longo de décadas

Para o especialista em mercado automotivo Milad Kalume Neto, o avanço dos carros chineses pelo mundo não é resultado apenas de uma política de preços agressiva, mas de um planejamento industrial iniciado há décadas.

A competitividade chinesa, explica ele, resulta de décadas de investimentos em infraestrutura, tecnologia, eletrificação e desenvolvimento industrial. "A China está simplesmente colhendo os frutos do que planta há mais de 40 anos", conta.

Segundo Kalume, esse conjunto de fatores permite que empresas como BYD, GWM, Omoda, Jaecoo, GAC, Geely e MG cheguem ao Brasil oferecendo veículos com elevado nível tecnológico e preços competitivos, colocando pressão inédita sobre as montadoras tradicionais.

"As fabricantes tradicionais estão em um momento de forte pressão porque não conseguirão atingir esse grau de desenvolvimento no curto prazo, mesmo com vultosos investimentos."

BYD isençãoMontadora chinesa BYD iniciou a produção de veículos eletrificados em Camaçari (BA) em 2025. (Foto: Eduardo Andrade / Ascom SDE-BA )

Veículos novos mais baratos pressiona mercado de seminovos

A concorrência provocada pelos carros chineses não ficou restrita às concessionárias de veículos zero-quilômetro. O movimento também começou a alterar a dinâmica do mercado de usados, especialmente entre modelos de maior valor.

Segundo Bittencourt, o preço do carro novo funciona como referência para toda a cadeia automotiva. "Quando uma montadora reduz significativamente o preço de um automóvel novo, o veículo usado equivalente também precisa cair. Caso contrário, o consumidor preferirá adquirir o modelo zero-quilômetro", explica.

Na avaliação dele, quem pretende comprar um carro tende a ser beneficiado pela maior concorrência e pela ampliação da oferta de veículos. Já quem comprou um automóvel há poucos anos pode enfrentar uma desvalorização maior do patrimônio.

"O principal beneficiado tende a ser o consumidor que está entrando agora no mercado. Ele passa a ter acesso a veículos mais equipados, maior variedade de tecnologias e maior pressão competitiva sobre os preços", destaca.

Para Claudenir, esse movimento já é percebido diariamente nas lojas. "O mercado de seminovos vai cair. Quem trabalha com carros acima de R$ 100 mil vai sofrer mais, com uma previsão de queda de pelo menos 20%", estima.

"Hoje o consumidor olha um carro chinês e vê tecnologia, autonomia e um preço competitivo. Muitas vezes ele prefere aumentar um pouco o orçamento e sair com um carro zero-quilômetro do que comprar um seminovo", diz o empresário.

Mercado só terá avaliação completa de elétricos daqui a dez anos

Apesar da rápida expansão dos veículos eletrificados, especialistas alertam que ainda existem incertezas sobre o comportamento desse mercado no longo prazo. Para Kalume, o consumidor deve olhar além do preço e considerar fatores como a estrutura de pós-venda, disponibilidade de peças e comprometimento das fabricantes com o mercado brasileiro.

"Os consumidores têm que prestar atenção na atuação das marcas no Brasil. Marcas comprometidas, com pós-venda de verdade, peças de reposição, atendimento de qualidade ao consumidor e respeito às nossas leis serão fundamentais para construir confiança e reduzir a depreciação dos veículos."

Nos modelos 2026/2027 vendidos no Brasil, a BYD, por exemplo, oferece garantia de seis anos ou 200 mil quilômetros para o veículo e de oito anos ou 200 mil quilômetros para a bateria Blade, prevalecendo o que ocorrer primeiro.

Mesmo assim, o comportamento desses veículos após muitos anos de uso ainda desperta dúvidas. "O carro elétrico ainda é uma aposta. O consumidor terá uma avaliação melhor daqui a dez anos, quando esses carros começarem a envelhecer. Se a manutenção ficar muito cara depois desse período, eles podem perder espaço no mercado. Essa ainda é uma incógnita", afirma o jornalista especializado em automóveis Vinicius Fabrício Ludwig.

Buscas na internet revelam interesse sobre carros elétricos e a combustão

Dados do Google Trends, que ilustra o volume de buscas por determinados termos, confirmam o crescimento robusto no interesse em carros elétricos novos e usados.

Entre janeiro e julho, as buscas por carros elétricos novos aumentaram 500% na comparação com o mesmo período de 2025. O interesse no mercado de elétricos usados também segue aquecido, com acréscimo de 400% nas buscas pelo termo no Google.

Já o volume de buscas por veículos a combustão novos registrou 30% de crescimento nos primeiros sete meses de 2026 na comparação com 2025, enquanto o interesse por carros a combustão usados cresceu apenas 10%.

** Esta reportagem faz parte de uma parceria com o Google, que apoia projetos jornalísticos baseados em dados do Google Trends. A apuração é de responsabilidade exclusiva da Gazeta do Povo, sem qualquer interferência editorial do Google.

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