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Blog Educação e Mídia

Professores(as) trabalhando juntos(as) pela equidade racial nas escolas: sonho distante, utopia ou realidade difundida?

Ainda hoje lá na escola, a grade de disciplinas não era aquele sonho de duas aulas de Artes, antes do intervalo, e outras duas aulas seguidas de Educação Física, nos últimos horários. Tinha História, Química, Sociologia e Matemática. 50 minutos de cada uma dessas aulas, exigindo total concentração para um bom aprendizado da turma. Na hora do intervalo, que era pra ser um momento de respiro e socialização com o pessoal de outras salas, cai aquela chuva grossa e a temperatura vai a baixo: frio, muito frio! O quê um(a) estudante de Ensino Médio poderia esperar de um dia que começa assim, não é mesmo? Depende. Depende da personalidade do(a) estudante, das suas condições socioeconômicas, emocionais, dos(as) professores(as) que vão dar essas aulas, da infraestrutura da escola, da relação histórica desse(a) estudante com práticas de educação e dos espaços de convivência que ela tem… Depende de tudo isso e de muito mais!

 

Mas o quê tudo que foi dito até aqui tem a ver com o tema deste artigo? Calma, leitor(a)?! Eu explico. Acontece que, na manhã de hoje, tudo aconteceu de um jeito extraordinário! Não quer dizer que apareceram passarinhos cantando nas janelas ou que as salas de aula ganharam novos equipamentos de última geração, nem que a merenda tenha sido de cookies com gotas de chocolate, morangos in natura e suco de laranja. Foi extraordinário, pois os(as) professores(as) tornaram o dia extraordinário, dando as aulas de um jeito que eu nunca tinha visto antes!

 

Pra começar, na aula de História, o professor pulou um monte de páginas da sequência do livro e foi logo para o capítulo que falava sobre História do Brasil. Antes de começar a ‘dar aula’, ele quis primeiro saber sobre o que a gente lembra a respeito da História do nosso país. Várias pessoas deram respostas do tipo ‘foram os portugueses que descobriram o Brasil’, ‘os escravos foram trazidos da África para trabalhar aqui’, ‘os índios trocavam pele de animal e madeira por coisas como pentes, facas e espelhos’ e assim por diante.

 

Daí ele veio com o papo da necessidade de ‘descolonizar o pensamento’ e nos questionou sobre outras formas de ver essa História. Papo vai, papo vem, pudemos concluir coisas até então inimagináveis! Percebemos que o Brasil foi, na verdade, invadido e saqueado por estrangeiros e que ‘Descobrimento do Brasil’ não era o melhor título para aquele capítulo. Os(as) escravos(as) não foram ‘trazidos’ da África, foram sequestrados(as), separados(as) de suas famílias e explorados de forma violenta e indigna para servir a todas as vontades daqueles que se diziam seu donos. Descobrimos também que nem é ‘escravo(a)’ que devemos falar, mas sim ‘escravizados(as)’, pois ninguém nasce escravo de ninguém; na verdade, o que acontece, é a escravização de um ser humano por uma pessoa com atitudes desumanas. E os indígenas – termo mais correto do que índios – também não tiveram uma relação harmoniosa e encantada com os europeus. Teve muito assombro, batalha e até escravização indígena para que trabalhassem na lavoura para os(as) invasores(as). Ou seja, a aula foi toda destinada para o que o professor chamou de ‘aprender a desaprender’ ou a ‘desconstruir’.

 

Na aula de Química, a professora trouxe vários frascos de shampoo e chamou alguns alunos lá na frente pra tentar ler a lista de ‘ingredientes’ do produto. Um nome mais complicado do que o outro: Paraffinum Liquidum, Alcohol, Olus Oil, Oleic Acid, Sodium Laureth Sulfate e um monte de outras coisas desse tipo. Acabamos falando um tempão sobre nossos os cuidados pessoais com cabelos até que caímos no assunto do alisamento de cabelos das meninas negras da sala e do alisamento com uso do formol. Ela contou pra gente em quais tipos de coisas essa substância era usada e quais os efeitos do seu uso nos cabelos a curto e a médio prazo. Ela já aproveitou e explicou, com a tabela periódica, quais os elementos que compunham o formol: oxigênio, carbono e hidrogênio, além de mostrar a fórmula (CH2O), desenhar sua estrutura molecular no quadro e contar um monte de outras curiosidades. A propósito, você sabia que essa substância é um tipo de álcool muito tóxico à saúde humana? E que seu nome oficial é Methanal, mas que também dá pra chamá-lo de formol ou formalina? E que serve para matar microrganismos em diversos produtos, sendo usado, por exemplo, para conservar animais mortos nos potes de vidro do laboratório de ciências? Foi só então que a turma conseguiu perceber a violência para os cabelos e para a saúde humana que é estar em contato com o tal do formol. Fim das contas: como muita gente se interessou sobre o assunto e a professora passou uma tarefa de casa pra gente. Era para pesquisar no Youtube algum vídeo de mulheres que falassem sobre ‘transição capilar’. A gente não sabe exatamente o que é isso, mas ela contou que vai servir para fazer uma conversa sobre a relação ente química, saúde e auto-estima, na próxima aula.

 

Pensa na hora do intervalo, todo mundo comentando sobre os assuntos da manhã!!! Muita descoberta para um dia só?! E mal sabíamos o que ainda estava por vir. Na terceira aula, que era de Sociologia, o professor falou abertamente sobre racismo e deu exemplos de várias vezes em que isso aconteceu na história da humanidade. E lançou algumas perguntas: O racismo existe ainda hoje? As pessoas de hoje manifestam o racismo como antigamente? O que mudou nas formas de

expressão dos(as) racistas? A estética, a roupa e os cabelos das pessoas estão ligadas ao racismo? De quê forma? Enfim, teve um debate bem amplo e todo mundo que quis, pôde dar a sua opinião sobre o assunto. Teve gente que mudou de ideia e aqueles que, mesmo depois da conversa saiu sem ter muita certeza sobre como se posicionar sobre essa questão… Mas todo mundo participou e foi incrível! O professor até mostrou pra gente as fotos de um monte de intelectuais, escritores(as), artistas, diretores(as) de filmes, poetas e até Youtubers negros(as) que fazem suas obras valorizando a luta contra o racismo e as diferentes formas de desigualdades sociais.

 

Na aula de Matemática, quando pensávamos que a discussão sobre negritude não seria mais tratada, a professora trouxe uma metodologia ativa bem legal. Levou metade da turma pro laboratório de informática e pediu para as duplas pesquisarem estatísticas sobre a porcentagem de pessoas negras ou pardas que estão fazendo faculdade no Brasil, o número de pessoas negras nas telenovelas brasileiras, as diferenças salariais entre pessoas negras e brancas etc

. A outra metade da turma, teve que entrar nas salas de primeiro ano do Ensino Médio e calcular a porcentagem do número de estudantes que se consideram negros(as) ou pardos(as). No final da aula, todo mundo voltou e apresentou esses dados, que serviram de assunto para uma discussão sobre a importância dos dados e das ciências exatas para subsidiar as discussões das ciências humanas, por exemplo.

 

Então, leitor(a): eu não estou mais no Ensino Médio! O personagem que vocês acompanharam no texto, até aqui, é só pra ilustrar um dia fictício em que os(as) professores da escola se articularam para integrar os conteúdos daquele dia e ainda contribuir para a efetivação da lei n° 10.639/2013, que prevê a garantia do ensino da História e da Cultura Africana e Afrobrasileira nas escolas. ‘Dias temáticos’ como esse poderiam se tornar mais rotineiros, envolver professores(as) de todas as disciplinas, envolver práticas de comunicação como (produção de vídeos, de fotografias, de entrevistas gravadas com celular etc.) e também abarcar outras temáticas como educação ambiental, direitos da criança e do adolescente, equidade de gênero, enfrentamento ao abuso e à exploração sexual de crianças e adolescentes, educação socioemocional e por aí vai! Que fantástico seria se isso começasse a integrar os planos político-pedagógicos da escola.

Sabemos que experiências como as descritas no texto já existem e estão espalhadas por aí. Mas como tornar essa cultura educativa integradora uma realidade sólida e difundia no Brasil? Isso é, de fato, necessário? Quais outras estratégias de inovação poderíamos adotar?

 

E você: já teve alguma ideia de aula, projeto, programa, evento ou qualquer outra ideia de como promover a inter, a multi e a transdisciplinaridade no cotidiano escolar? Acha que experiências dessas naturezas são possíveis no contexto educacional que vivemos? Conhece alguma boa prática de alguma escola e gostaria de compartilhar com a gente? Deixe a sua resposta a alguma dessas perguntas aqui no campo de comentários! Quem sabe a sua iniciativa não vira uma matéria, artigo ou reportagem e é publicada nos portais da Parafuso Educomunicação, Universo Educom ou aqui do blog Educação e Mídia?!

– As fotos que ilustram esse artigo foram produzidas durante a Conferência Estadual de Promoção da Igualdade Racial do Paraná, um espaço social de construção de políticas públicas étnico-racias. Fotos: Diego Henrique da Silva

*Artigo escrito por Diego Henrique da Silva [http://diegohcom.wordpress.com] Mestrando em Comunicação, Jornalista, Educomunicador no coletivo Parafuso Educomunicação [http://parafusoeducom.org] e idealizador do portal Universo Educom [http://diegohcom.wordpress.com]. Parafuso Educomunicação é colaborador voluntário do Instituto GRPCOM no Blog Educação e Mídia.

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