Blog Tubo de Ensaio

O debate sobre determinismo e indeterminismo como ponte entre cientistas, filósofos e teólogos

foto de Claudia Vanney e Juan Francisco Franck na Universidade de Oxford.
Claudia Vanney e Juan Francisco Franck são os diretores do projeto Determinismo e Indeterminismo: da Ciência à Filosofia. (Foto: Marcio Antonio Campos/Gazeta do Povo)

Para comemorar o 500.º post do Tubo de Ensaio, trago para vocês uma entrevista que fiz em Oxford, na semana passada. Como havia comentado, no primeiro dia do workshop pudemos conhecer um pouco do que está sendo feito na América Latina no campo da relação entre ciência e fé. E me impressionou bastante o projeto Determinismo e Indeterminismo: da Ciência à Filosofia, que tem duração de três anos e está sendo organizado pela Universidade Austral, de Buenos Aires. O primeiro evento ocorreu entre 5 e 9 de agosto. Por isso, conversei com os diretores do projeto, Claudia Vanney e Juan Francisco Franck, sobre a importância do tema e a ênfase que foi dada à transmissão do conteúdo também para o público geral, de modo que os especialistas não fiquem apenas conversando entre si. Claudia é doutora em Física (pela Universidade de Buenos Aires) e em Filosofia (pela Universidade de Navarra, na Espanha), e diretora do Instituto de Filosofia da Universidade Austral. Franck é doutor em Filosofia pela Internationale Akademie für Philosophie (Liechtenstein), autor de From the Nature of the Mind to Personal Dignity e também leciona na Universidade de Montevidéu, no Uruguai.

Claudia Vanney e Juan Francisco Franck são os diretores do projeto Determinismo e Indeterminismo: da Ciência à Filosofia. (Foto: Marcio Antonio Campos/Gazeta do Povo)

Claudia Vanney e Juan Francisco Franck são os diretores do projeto Determinismo e Indeterminismo: da Ciência à Filosofia. (Foto: Marcio Antonio Campos/Gazeta do Povo)

Vocês poderiam fazer um resumo sobre o tema do determinismo e do indeterminismo, e explicar por que ele é tão importante?

Claudia Vanney: Em fins do século 19, a cosmovisão que havia do universo era de que a ciência poderia explicar todas as coisas como se houvesse um funcionamento quase mecânico. Então, se é possível conhecer o universo como está agora, praticamente se poderia saber perfeitamente como estaria em alguns anos e como esteve no passado. Isso porque a visão que se tinha era a de que o universo era determinista, no sentido de que, de alguma forma, o futuro e o passado estão totalmente determinados de acordo com a situação presente. As mudanças da ciência no início do século 20, por exemplo com o nascimento da Física Quântica, colocaram essa cosmovisão em xeque, e fizeram a ciência voltar a pensar. E hoje já se vê que a ciência reconhece que o universo não está totalmente determinado como se fosse um relógio, mas que também há uma margem de indeterminação. E, posteriormente, no século passado outros ramos da ciência avançaram; todas as pesquisas em neurociência levantaram questões sobre o papel da liberdade humana, sobre como ela age em um corpo que provavelmente não está completamente determinado.

Juan Francisco Franck: A pergunta é: se tudo o que há no universo está mecanicamente determinado, existe a possibilidade de uma liberdade real? A resposta de um século atrás era a de que sim, o universo estava absolutamente determinado, portanto isso que parece liberdade, que chamamos de liberdade, na verdade era uma ilusão. No entanto, de lá para cá a mesma ciência passou a reconhecer esses âmbitos de indeterminação, então já não pode dar aquela resposta determinista. Também as ciências biológicas perceberam que há instâncias de enorme complexidade que não permitem falar de um mundo determinista. As neurociências avançaram muito e também não têm respostas – pelo contrário, trazem cada vez mais perguntas novas e se deparam com a dificuldade de estabelecer leis mecânicas para o funcionamento do cérebro e do que se chama de consciência. Então, existe uma grande margem de surpresa e de indeterminação que agora a própria ciência está reconhecendo. Isso abre a possibilidade de se colocar perguntas de essencial importância para a vida humana.

Não são questões que dizem respeito apenas ao universo, mas questões com implicações muito pessoais…

Juan Francisco Franck: De fato. Hoje a posição determinista já não pode ser vista como científica, propriamente falando, ao contrário do que ocorria no século 19 – e mesmo então ela respondia a uma visão filosófica, uma decisão de ver as coisas daquela maneira. Nem mesmo a ciência tinha a possibilidade de demonstrar esse determinismo naquela época, mas era uma posição que parecia coerente com o que até aquele momento era considerado ciência. Hoje nem sequer se pode permitir isso. Mas a questão do determinismo sempre teve grandes consequências para a vida pessoal. O que agora ocorre é que a visão determinista do mundo – que sempre foi filosófica, ainda que a ciência a tenha encampado um dia – está em crise. Então, as questões sobre o sentido da existência humana, da possibilidade de uma liberdade real, perguntas como “quem sou eu?”, “para onde vou?”, sobre até que ponto sou livre, a ciência não pode se opor a esse tipo de questionamento.

Claudia Vanney: É importante que, embora essa questão sobre determinismo ou indeterminismo soe muito técnica, ou específica, ou acadêmica, ela implica uma cosmovisão da natureza que, no fundo, também implica uma visão sobre o ser humano, e inclusive de Deus. E, por isso, as perguntas que esse tema provoca abrem uma margem para diálogo. Dadas as perspectivas que a ciência traz hoje, ela pode conversar com a Filosofia e a Teologia. O mais importante é que estamos diante de uma questão científica que vem na esteira de uma enorme tradição filosófica; já os antigos gregos se perguntavam, filosoficamente, sobre o determinismo e o indeterminismo. Essa reflexão que perpassou toda a história da Filosofia foi reaberta, no século 20, pela ciência. Por isso, me parece que esse é um tema que permite o diálogo entre ciência, Filosofia e Teologia.

O projeto tem três etapas, relacionando a Filosofia à Física, à Biologia e às neurociências. Como se decidiu por esse esquema?

Claudia Vanney: Chegamos a essas três etapas porque o projeto surgiu de uma comunidade de pesquisadores que tinha justamente físicos, biólogos e neurocientistas, além dos filósofos e teólogos. No momento de pensar as pontes que podíamos estabelecer entre uma disciplina e outra, surgiram essas perguntas que estão no limite, sobre as quais podemos questionar “essa é uma pergunta filosófica ou uma pergunta científica?”, e na verdade elas podem ser abordadas de várias formas. Assim, na hora de organizar o projeto do ponto de vista metodológico, resolvemos tratar, no primeiro ano, do diálogo entre Física e Filosofia; no segundo ano, entre Biologia e Filosofia; e, no terceiro ano, entre as neurociências e a Filosofia, o que de alguma forma também indica um nível crescente de complexidade.

Juan Francisco Franck: Também podemos ver essa estrutura de temas como tratando das grandes questões da humanidade, e que envolvem ciência, Filosofia e Teologia, dentro de uma ordem: primeiro, a origem do cosmos, ou do universo; depois, a origem da vida; e, por fim, a origem do que muitos chamam “alma”, “espírito”, “consciência”. Então, são três grandes questões da Filosofia e da Teologia, analisadas em diálogo com a ciência.

Claudia Vanney: Aliás, não se trata apenas de pensar sobre as origens, mas também sobre como Deus intervém no decorrer da vida, da história do universo, da história humana e de cada um.

Juan Francisco Franck: Existe aí um questionamento sobre a criação, a origem do mundo, se Deus criou o mundo, se ele se move por si só, se Deus poderia ou não intervir nele depois de criado, se Ele estaria de alguma forma “desfazendo” sua criação caso interviesse. O mesmo vale para as questões sobre a vida: se a evolução é ou não um processo espontâneo e livre, se a criação (ou Deus) “usa” a evolução para criar. E, também, para o tema da liberdade: se somos donos de alguma decisão, ou se são todas criações de Deus.

Claudia Vanney durante a I Semana de Pesquisa Interdisciplinar: tema foi a relação entre Física e Filosofia.

Claudia Vanney durante a I Semana de Pesquisa Interdisciplinar: tema foi a relação entre Física e Filosofia. (Foto: Divulgação/Universidade Austral)

Qual a sua avaliação do primeiro evento do projeto, ocorrido em agosto?

Claudia Vanney: Chamamos essa primeira fase de I Semana de Pesquisa Interdisciplinar porque foi um evento dirigido a públicos diversos, incluindo o público geral. Tivemos duas frentes de ação: queríamos que todos pudessem entender que temas estávamos trabalhando, mas também tivemos reuniões de pesquisa muito específicas. Para atender a essas duas preocupações, organizamos atividades variadas, como conferências gerais, com um caráter mais de divulgação, e quero destacar uma delas em especial, que foi a de Olimpia Lombardi; ela foi muito didática a respeito de um tema que parecia superdifícil: “que indeterminismo propõe a mecânica quântica?” Posso dizer que foi uma das melhores palestras a que já assisti em termos de divulgação científica, explicando a mecânica quântica para pessoas que não a conhecem. Alguns alunos de Engenharia, por exemplo, que foram a essa conferência ficaram muito entusiasmados. Também tivemos um seminário específico dirigido especialmente a professores universitários, e ainda, o que para mim foi o mais importante, um workshop de pesquisa interdisciplinar no qual escolhemos seis grandes questões ligadas a temas relacionados ao determinismo ou indeterminismo do ponto de vista da Física. Cada sessão do workshop se debruçou sobre uma dessas perguntas, analisadas por um cientista e um filósofo ou teólogo, e depois havia uma discussão com o público, que neste caso era bem reduzido e seleto, formado por 30 pessoas que havíamos convidado justamente por já conhecerem o tema. Foi muito interessante ver como uma mesma questão era tratada por duas óticas diferentes e como havia margem para diálogo. Tivemos um clima muito bom de debate, com especialistas de vários países e várias universidades, da Argentina e do exterior. Isso ajudou a criar uma rede regional de pesquisa interdisciplinar.

(Assista abaixo à palestra de Olimpia Lombardi)

Embora não seja o componente principal do projeto, há uma forte ênfase na opinião pública e na divulgação, para o público geral, do que está sendo produzido. Por quê?

Claudia Vanney: Para que o conhecimento não fique restrito. As perguntas levantadas pelo debate sobre o determinismo e o indeterminismo estão sendo debatidas na academia, de um ponto de vista técnico, mas é fundamental que a ciência não pareça algo secreto, hermético, para poucos. Ela precisa ir à rua, ser compreendida por todos. Foi por isso que incluímos no projeto algumas atividades que estão direcionadas ao público geral.

Juan Francisco Franck: Queremos que esses temas cheguem ao grande público por meio dos especialistas. E isso também serve para que os próprios pesquisadores se animem a tornar seu trabalho acessível ao público. Por isso criamos um concurso para jornalistas e para acadêmicos que escrevam a respeito desse assunto em veículos de comunicação de língua espanhola, como jornais diários, ou revistas de divulgação científica. O desafio é abordar o assunto de uma maneira técnica, que não seja superficial, mas respeitando a finalidade dos meios de comunicação, que é justamente fazer que o público entenda do que se está falando. O que queremos não é tanto transmitir uma mensagem, mas disparar a discussão, a reflexão e o diálogo. Nós sabemos algumas coisas, mas não sabemos fazer tudo, por isso buscamos das pessoas que são capazes em suas áreas. No caso da comunicação, alguns membros da nossa equipe sabem como fazer, mas queremos que outras pessoas se animem, e é isso que estamos fomentando com o concurso.

Claudia Vanney: Não podemos esquecer a produção de três livros de divulgação científica. O público que temos em mente é o de estudantes do último ano do ensino médio. São livros, por exemplo, que podem ser usados para um trabalho de conclusão, uma monografia, e que estarão em uma linguagem compatível com essa fase da educação dos jovens. Ou que podem servir para professores de Ciências na hora de tratar desses temas. Por isso, temos a intenção de editar esses livros e enviá-los a colégios de ensino médio na Argentina, para que eles fiquem disponíveis para consulta.

E qual é o segredo para comunicar a um público geral questões que parecem tão complexas e profundas?

Claudia Vanney: Isso é algo que só vocês podem nos dizer (risos). O que nós queremos é ser pontes para transmitir o conhecimento na linguagem mais acessível possível. O que acontece algumas vezes é que algum especialista pensa estar falando de maneira mais simples, mas não está; como ele já tem o vocabulário técnico tão incorporado, acaba usando-o como se todos os demais também o conhecessem. Queremos abrir portas de diálogo, para que as pessoas possam perguntar e ter as respostas.

Aviso: O blogueiro viajou a Oxford a convite da Fundação John Templeton e da Universidade de Oxford.

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Prêmio Top Blog, votação em curso!

selotopblog_300x250Começou no dia 9 a primeira rodada de votação da edição 2013 do prêmio Top Blog. Em 2010 e 2011, o Tubo venceu a categoria “Religião/blogs profissionais” pelo voto popular. Em 2012, não ficamos entre os finalistas, mas o Blog Animal, também da Gazeta, venceu sua categoria pelo júri acadêmico. Para votar no Tubo, basta você clicar aqui ou no banner ao lado. Cada conta de e-mail só pode votar uma vez no mesmo blog, mas nada impede que, com uma mesma conta de e-mail, você possa votar em vários blogs de sua preferência. Da mesma forma, você pode votar no Tubo mais de uma vez se tiver duas ou mais contas de e-mail. Basta preencher, no alto da página do prêmio, seu nome e e-mail. Você receberá uma mensagem com um link para confirmar seu voto. Também é possível votar pelo Facebook. Neste ano, teremos outros blogs da Gazeta do Povo concorrendo também; à medida que eles forem se inscrevendo, vocês saberão como votar em todos eles.

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