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Descoberta

Evidência mais antiga de vinho é encontrada em jarro de 8 mil anos

Novo estudo aponta que vinho pode ter surgido na Geórgia há muito mais tempo do que acreditávamos

por The Washington Post Publicado em 16/11/2017 às 18h
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No próximo jantar em família, quando a discussão se voltar para política e você pegar sua segunda taça de vinho Merlot, reflita sobre isso: as raízes do seu lubrificante social surgiram há 8 mil anos. Pessoas já fermentavam uvas e armazenavam vinho em vasos maciços em períodos tão antigos como 6 mil anos a.C., de acordo com estudo publicado na última segunda-feira (13) na revista científica Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS). A nova pesquisa revela evidências de químicas utilizadas para a fabricação de vinho que datam de 600 anos a um milênio antes do que era anteriormente estimado.

jarro de vinho da georgia

Jarro para vinho da época neolítica encontrado na Geórgia. Foto: Museu Nacional da Geórgia.

“Isso é um grande salto de tempo”, diz Patrick McGovern, especialista em vinhos antigos do Museu da Universidade da Pensilvânia e autor do novo estudo. McGovern e seus colegas analisaram vasos de cerâmica encontrados na Geórgia, país euro-asiático, que datam do início do período neolítico. Os antigos georgianos poderiam ter armazenado até 300 litros de vinho nos recipientes, que têm pouco menos de um metro de altura. Pequenas protuberâncias de argila estão agrupadas em torno da borda. Essas decorações, de acordo com a hipótese dos pesquisadores, representam uvas.

McGovern está confiante sobre a antiguidade da cerâmica. “A datação por radiocarbono é muito precisa”, disse ele. “Nós descobrimos a datação com uma margem de erro de 200 anos”. As peças foram produzidas entre 6 mil e 5,8 mil anos a.C. As novas informações são fruto de uma ruptura na tradição. É uma prática comum para arqueólogos limpar cerâmicas antigas com um banho suave com um ácido ou base brando. Os corrosivos revelam detalhes na cerâmica, muitas vezes escondidos sob uma crosta de minerais acumulados. Porém, esses banhos apagam também qualquer vestígio de compostos orgânicos presos ao material.

Na última escavação, os arqueólogos pularam a etapa da limpeza química. Isso permitiu a extração de quatro componentes orgânicos presentes no vaso: os ácidos cítrico, málico, succínico e tartárico. Em conjunto, as concentrações relativamente altas desses ácidos apontam para o vinho. “O ácido tartárico estabelece as uvas”, explica Andrew Waterhouse, que estuda a química do vinho na Universidade da Califórnia em Davis e não participou desta pesquisa.

A uva é a única fruta na região montanhosa da Geórgia que produz ácido tártico, elucida McGovern. Embora alguns micróbios possam gerar ácidos orgânicos, amostras de solo não apresentaram sinais de produtos químicos em altas concentrações. A fermentação deixou sua assinatura sob forma de ácido succínico. A combinação dos ácidos succínico e tartárico faz com que seja “completamente convincente de que isso é vinho de uva”, diz Waterhouse. Algumas outras pistas apontam para uvas fermentadas, também. Os pesquisadores encontraram evidências botânicas de pólen antigo de uva, amido e pedaços de casca de uva.

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Não podemos provar a existência do álcool”, afirma McGovern. Isso evaporou há muitos anos. Mas ele duvida que os georgianos fossem fãs de suco não alcoólico. Desde o último período glacial, as condições de vinificação nesta região do Cáucaso foram ideais. Em um clima quente e ameno, o suco de uva cru começa a fermentar em um ou dois dias. E era improvável, de acordo com ele, que os georgianos permitissem que o vinho se fermentasse em vinagre.

O vinho atravessou a antiga cultura dos georgianos. Eles beberam vinho para celebrar nascimentos e deixaram copos e jarras da bebidas em túmulos. No antigo Egito, faraós e reis beberam vinho; na antiga Geórgia, todos bebiam. “Tornou-se economicamente importante, assim como a cultura do vinho na Califórnia e no Oregon”, conta McGovern. “Uma vez que essas bebidas fermentadas tomam conta da sociedade, elas tendem a se tornar o coração da sociedade”.

Waterhouse, que considera McGovern a “autoridade mundial” em vinhos da antiguidade, diz que este estudo amplia os limites do que pode ser aprendido com a cerâmica dos jarros de vinho. A cerâmica em si tem cerca de 12 mil a 20 mil anos de idade; antes disso, os humanos usaram pele de animais e outros materiais para armazenar líquidos. “Usar couro para depositar o vinho está bem documentado na Bíblia e em outros lugares”, afirma Waterhouse. Mas os recipientes feitos de pele não garantiam a preservação como os de cerâmica.

McGovern conta que não ficaria surpreso se os humanos consumissem frutas fermentadas antes mesmo do surgimento da cerâmica. Ele apontou para os primatas, que não descobriram a cerâmica, mas sabem das bebidas alcoólicas. Os macacos vervet roubam coquetéis dos turistas na Ilha de São Cristóvão, no Caribe, enquanto os chimpanzés na Guiné usam folhas para absorver a seiva da palmeira fermentada.

Cultivares de uva na Geórgia estão intimamente relacionadas com vinhos como os de uvas das castas Syrah e Pinot Noir, notaram os pesquisadores. Os estudiosos não sabem definir o sabor do vinho da antiguidade, mas supõem que era aromático ou frutado. “Vinhos muito recém-fermentados têm uma frutificação muito distinta. Na verdade, ela não vem da fruta, mas do processo de fermentação”, diz Waterhouse. Segundo ele, um análogo moderno seria um Beaujolais nouveau, engarrafado e vendido cerca de seis semanas após a colheita.

*Tradução de Stephanie D’Ornelas

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