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Degustação de vinhos on-line da Total Vinhos.
Degustação de vinhos on-line da Total Vinhos.| Foto: Gisele Rech

É possível degustar vinhos e trocar impressões sobre os rótulos em boa companhia sem dividir uma mesa, com a mediação de uma tela de computador ou celular? Ou a experiência, tão sensorial, fica comprometida? Há duas semanas, o Bom Gourmet recebeu um convite da Total Vinhos, que comercializa rótulos de vários países pelo e-commerce, para uma degustação super exclusiva, que seria feita on-line.

Primeiro foram enviados à minha residência os três vinhos a serem degustados: o GO UP Sauvignon Blanc, produzido no Chile, o Anko Malbec de Salta, no norte da Argentina, e o português Pedra Cancela Seleção do Enólogo, tinto feito a partir das uvas Touriga Nacional, Alforcheiro e Tinta-Roriz, na região do Dão.

Sem adega em casa, tive que recorrer ao improviso para tentar, na medida do possível, deixar cada uma das garrafas na temperatura ideal: muito cuidadoso, o pessoal da comunicação da Total Vinhos enviou as indicações de temperatura ideal para o consumo. Estrategicamente, coloquei os tintos, que pediam uma média de 16 graus na parte mais baixa da geladeira e o branco, no compartimento mais fresco do refrigerador. Com a tática, cheguei perto do ideal, acredito.

Pouco antes das 17h do dia combinado para o grande encontro, acessamos o link do aplicativo Zoom para entrar na sala e encontrar os enólogos que conduziram a degustação. Como no caso de muitas pessoas neste período pandêmico, a familiaridade com as ferramentas que permitem encontros virtuais facilitou o acesso, mas ao longo do processo, uma conexão deficitária me impediu de utilizar o microfone - talvez providência divina para conter minha empolgação com a experiência totalmente nova. Tive que recorrer ao chat para me comunicar com o grupo.

Ao entrar na sala, encontrei nossos queridos colunistas Jussara Voss (Vosso blog de comida) e Guilherme Rodrigues (Notas Báquicas), um enófilo da mais alta categoria, que já entregou o prenúncio de uma aula à parte, com base em seu repertório excepcional. Também estavam presentes as mulheres do grupo Amigas do Vinho, de Curitiba, e colegas da imprensa de Santa Catarina e do Rio Grande do Sul. Na soma, 19 pessoas estavam reunidas. Nesta hora, as garrafas estavam devidamente abertas, prontas para serem exploradas.

GO UP Sauvignon Blanc 2019

Quem abriu os trabalhos na degustação foi o enólogo Tiago Dal Pizzol, apresentando o Sauvignon Blanc GO UP (R$ 59,42 no site da Total Vinhos), que em inglês significa algo como subir, ir para o alto, dar um up mesmo, para ser mais direta. "É um vinho que encomendamos para ser produzido em Curicó, uma região de menor produção vinícola, mas que vem se desenvolvendo", explicou. Eu, como boa curiosa que sou, já dei aquela pesquisada para saber que tal região fica a 220 km ao Sul de Santiago, capital do Chile. Enquanto Tiago explicava as características do vinho "claro, limpo e de pouca acidez, o que garante o frescor", os convidados experimentavam uma bebida superagradável e fácil de tomar, que rendeu muitos comentários positivos.

Aqui, vale um registro importante: toda a concepção deste branco foi construída com foco em um público mais jovem, que está se iniciando no apreço pelos vinhos. Não à toa, o rótulo foi feito em homenagem às jovens mulheres e com altas doses de tropicalidade, como reflexo da intenção de marcar que, apesar de produzido no terroir de Curicó, o vinho tem alma brasileira. Com essa pegada que é a cara do verão, o rótulo harmoniza em cheio com ostras e peixes, ou pratos que tenham mais leveza, como os que costumam ser servidos à beira da praia ou da piscina.

GO UP é um vinho bom para ser degustado em temperaturas mais altas. Foto: Gisele Rech
GO UP é um vinho bom para ser degustado em temperaturas mais altas. Foto: Gisele Rech

Pedra Cancela Seleção do Enólogo 2016

Apesar de ficar com vontade de tomar ao menos mais uma tacinha, era a hora de adentrar no descobrimento da complexidade do Pedra Cancela Seleção do Enólogo, safra de 2016, da vinícola Lusovini (R$ 82,37 no site da Total Vinhos). Produzido na região do Dão, que fica mais ao norte de Portugal, cercada pela Bairrada, pela Beira-Interior e Távora-Varosa e pelo Minho, o vinho é obtido por meia do método mais tradicional, com a pisa das uvas. Vale destacar que o rótulo alcançou 96 pontos na Decantrs World Wine Awards. "É o nosso vinho mais vendido no mundo e a pontuação nos surpreendeu, porque mesmo com muita qualidade, tem um preço mais acessível", explica a enóloga Sônia Martins, da Lusovini.

Para Sônia, com 20 anos de estrada no universo do vinho, o rótulo tem características bem demarcadas. "É um vinho gastronômico, sedoso e frutado", apontou a enóloga. De fato, ao bebê-lo, é possível apreciar essa sensação de afago, que envolve a boca. E, não sei se porque tínhamos sido sugestionados, já imaginei aquela taça acompanhando uma bela picanha grelhada, com todo aquele suco escorrendo ao corte da faca. Aliás, além das carnes sem grandes elaborações, os especialistas indicam bacalhau e até mesmo cogumelos para a harmonização.

Nesta parte da degustação, aprendi com o Guilherme Rodrigues que, no geral, os vinhos do Dão costumam ser mais rústicos, o que acaba tornando o Pedra Cancela surpreendente, porque apenas de ter um bom corpo, denota toda sua complexidade a cada gole com uma certa suavidade.

O Pedra Cancela é da região do Dão, em Portugal. Foto: Gisele Rech
O Pedra Cancela é da região do Dão, em Portugal. Foto: Gisele Rech

Anko Malbec 2019

Por fim, e não menos importante, o proprietário da vínicola Los Cardones, Nicolás Saavedra, tomou a palavra para falar sobre o Anko, um vinho de uvas Malbec produzido no norte da Argentina, mais precisamente em Salta, que ganhou 90 pontos na classificação do jamessuckling.com. No site da Total Vinhos, a garrafa sai por R$ 109.

Ter um vinho saltenho à minha frente foi como viajar no tempo, lá para o ano de 2009, quando tive a oportunidade de ir a esta região, pertinho da Bolívia, para uma série de reportagens pela TV Paraná Educativa (hoje rebatizada de Paraná Turismo). Na ocasião, apesar de ter feito toda a pré-produção da série de reportagens, acabei ficando a cargo da cobertura da parte burocrática da missão. Mas mesmo que não tenha visitado as vinícolas, produtoras do chamado vinho de altura, pude degustar alguns rótulos de Salta e, confesso, achei a maioria que provei com um tom a mais do que aprecio.

Por isso, havia uma expectativa diferente em relação ao Anko, que logo se transformou em uma agradável sensação de aromas florais, com uma acidez moderada e um bom corpo, que deixa uma sensação aveludada na boca, características influenciadas pelo terreno pedregoso da região. Assim como o Pedra Cancela, a rótulo combina com carnes e cogumelos.

A linha de produção dos vinhos da Los Cardones é comandada pelo conceituado enólogo Alejandro Sejanovich. "A colheita das uvas é toda manual, mas o processo de fermentação e maturação é feito em tonéis de plástico, um método que ele escolheu para ter uma maior controle da temperatura", explicou Saavedra.

O Anko é da região de Salta, no norte da Argentina. Foto: Gisele Rech
O Anko é da região de Salta, no norte da Argentina. Foto: Gisele Rech

Depois da verdadeira aula sobre os três rótulos, o debate serviu para que todos pudessem não apenas dar suas impressões, mas também compartilhar informações, em um enriquecimento ímpar do meu repertório. No fim, o encontro foi tão agradável, que extrapolou em quase uma hora o tempo previsto e deixou aquela sensação de afago que uma boa taça de vinho bem escolhido e uma boa companhia podem trazer. Um brinde à reinvenção das degustações!

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