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Os cursos oferecidos pelos chefs custam a partir de R$ 50.| Foto: Bigstock

Todos juntos, mesmo que à distância. A frase que se tornou clichê desde o começo da pandemia do coronavírus, em março do ano passado, também virou sinônimo de negócio para quem se viu trancado em casa com os filhos sem poder socializar com outras pessoas.

De lá para cá, a quantidade de transmissões ao vivo, reuniões e festas pelas redes sociais deu um salto jamais imaginado, e muita gente viu nelas boas oportunidades para ganhar um dinheiro a mais ou mesmo compensar a renda de um emprego impactado pelos decretos restritivos.

A cozinha, que geralmente é o ponto de encontro de reuniões entre amigos e familiares, se tornou o centro de muitas dessas transmissões, com chefs e apreciadores conectados como se estivessem em um único ambiente. E nela surgiu um negócio que os “comandantes” dessas transmissões veem como um caminho sem volta.

É um fenômeno que o Rafael Carvalho, fundador e diretor de operações da HeroSpark, classifica como um desejo de empreender junto de uma necessidade. Só a plataforma dele, que abriga muitos dos cursos e palestras feitos pelas redes sociais, teve mais de 60 mil novas inscrições ao longo da pandemia.

“A pandemia foi o grande catalisador para o empreendedorismo digital, para as pessoas criarem seus negócios na internet. Acreditávamos que isso aconteceria em cinco a dez anos, mas ela acelerou essa tomada de decisões”, conta.

O chef Lamonnyel Vieira de Moraes é um deles, que viu os eventos e o atendimento no restaurante do Açougue 154, em Cuiabá, serem interrompidos de uma hora para a outra por causa dos decretos de isolamento social para conter o avanço da Covid-19 no Mato Grosso.

Com a experiência de fazer workshops presenciais sobre o preparo de carnes e assados, Lamonnyel resolveu levar o conhecimento para a internet e hoje já tem alunos até mesmo no exterior. Ele soma quase duas centenas de inscritos que participam do curso para o preparo de churrasco.

“Vi que tinha muita gente em casa buscando esse tipo de informação e resolvi fazer [desenvolver o curso], mas sem investimento nenhum em tráfego ou mídia. Foi na raça essa experiência, conseguimos faturar mais de R$ 25 mil em pouco tempo”, explica.

O “churrasqueiro profissional” confessa que entrou atrasado nesse mercado, apenas em meados de janeiro desse ano, quando viu que a pandemia não daria trégua tão cedo. No entanto, a primeira edição do curso deu tão certo que ele já planeja uma nova rodada de capacitação para o próximo mês.

É um faturamento que, segundo Lamonnyel, não cobre todas as perdas que o restaurante e a equipe de eventos tiveram, mas já pagam algumas contas e diminuem os números vermelhos nas planilhas.

Entre amigos

Enquanto o churrasqueiro de Cuiabá procurou monetizar o conhecimento à maior quantidade possível de pessoas trancadas em casa, o chef e empresário curitibano Beto Madalosso começou a cozinhar pelo Zoom bem despretensiosamente, para amigos e seguidores.

Conhecido na cidade pelo ativismo da valorização do alimento e da cena gastronômica, Beto passou a vender kits com ingredientes porcionados para as pessoas prepararem em casa junto com ele, durante as transmissões. Os encontros duram, em média, duas horas como se fosse um encontro presencial de amigos na noite de sábado.

“Eu mesmo preparo todos os kits para mandar para as pessoas, e no dia do encontro abro um na minha própria cozinha com a minha esposa e cozinho com as pessoas acompanhando. Já que não podemos sair de casa, vamos ficar juntos conectados”, conta.

Embora não haja uma periodicidade das transmissões, Beto Madalosso já comandou cinco encontros que chegaram a ter picos de 170 kits vendidos para duas pessoas. Cada aula, já que ele mostra como preparar o prato da vez, exige um preparo prévio que precisa levar em conta uma estrutura comum à qualquer cozinha, sem os apetrechos que normalmente apenas um chef tem à disposição.

Há um encontro por mês, já que o empresário precisa se dividir entre os três restaurantes que tem em Curitiba. Cada kit que ele vende para a aula custa entre R$ 200 e R$ 250, dependendo dos insumos usados, ou R$ 50 para quem deseja apenas acompanhar os preparos.

Com vocês, o chef

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A empresária curitibana Renata Jansen criou um curso diferente onde ela apenas apresenta os chefs convidados.| divulgação/Home&Fun.41

Foi com uma atuação semelhante à de Beto Madalosso, mas muito antes dele, que a empresária Renata Jansen começou a tocar o Home&Fun.41, onde também apresenta aulas culinárias pelo Zoom. A diferença é que ela apenas apresenta e participa dos jantares, mas são chefs e especialistas convidados que ensinam o preparo dos pratos.

A cada encontro, geralmente duas vezes por semana, Renata chega a conectar em torno de 50 pessoas para cozinhar com o chef ou apenas assistirem as palestras sobre harmonizações e demais assuntos correlatos. Já foram mais de 40 encontros em um ano de negócio.

“A minha ideia sempre foi ter as pessoas por perto, com interação, até porque eu gosto de estar com elas. Poderia ter feito as aulas gravadas como vários outros serviços, mas é importante ter essa interação e eu mesma participo, faço uma introdução e cozinho junto”, diz.

As aulas e palestras do Home&Fun.41 são anunciadas com pelo menos uma semana de antecedência no site e no perfil no Instagram, com toda a descrição de como será a sessão, objetivos, e se haverá algum preparo culinário antes da aula. Ao fazer a inscrição, também a R$ 50, o participante recebe uma lista de ingredientes para comprar antes da aula.

Entre os encontros que já foram realizados, Renata e chefs convidados ensinaram a fazer pratos das culinárias árabe, oriental, italiana, mexicana, low carb, entre outros. Também já foram ministradas palestras e degustações de vinhos, cervejas, coquetelaria, comida de boteco, harmonizações, etc.

E depois?

Com o avanço da vacinação contra a Covid-19, mesmo que a passos lentos, a expectativa é de que as restrições sociais sejam suspensas aos poucos, como já vem acontecendo em países da Europa e nos Estados Unidos. No entanto, para o diretor de operações da HeroSpark, isso não significa que as pessoas vão deixar de lado as aulas virtuais.

“Antes da pandemia, o consumo de conteúdo online já estava acelerado. Depois, ela obrigou todo o mundo a consumir apenas pela internet, e mostrou que isso é viável e possível”, afirma Rafael Carvalho.

É semelhante ao que acredita Beto Madalosso. Para ele, as aulas e os encontros virtuais não vão deixar de acontecer com a volta das pessoas ao convívio social. Pelo contrário.

“Por mais que o mundo nos permita sair de casa, não quer dizer que tenha que sair de casa o tempo todo. Esse é o tipo de evento para você desfrutar da sua cozinha, com ou sem pandemia, um momento para estar com a família ou amigos”, afirma.

Ele acredita tanto no potencial deste negócio que vê inclusive como um produto para o mercado corporativo, para empresas presentearem clientes e amigos com aulas e encontros com chefs e especialistas que normalmente não aconteceriam no dia a dia.

“Assim a gente consegue até mesmo fazer aula com um chef de outra cidade, que vai trazer outra cultura, sem precisar ir até lá”, conclui Renata Jansen.

Criando o seu curso

Com base nas opiniões dos chefs e profissionais ouvidos pelo Bom Gourmet Negócios, veja o que é preciso para você criar o seu próprio curso ou evento pago para reunir as pessoas virtualmente:

1- Mostre quem você é:
Primeiro é preciso criar uma conta em alguma das principais redes sociais para mostrar às pessoas o que você se propõe a fazer. O Instagram é hoje a mais importante e de melhor engajamento, e com rápido crescimento dependendo de como você a utiliza, os conteúdos produzidos, as hashtags que adiciona aos posts e a interação que faz com seus seguidores. Manter o perfil sempre atualizado e com conteúdos relevantes é o primeiro passo para mostrar quem é você e o que tem a oferecer.

2- Monte o curso ou evento:
Na sequência, é preciso estruturar o curso ou evento que irá vender aos seus seguidores, com uma estrutura que explique a necessidade de cada tópico que será abordado. Por exemplo: você irá vender aulas culinárias?
Comece colocando no papel como você imagina que será a exibição, com uma introdução onde irá explicar o objetivo da transmissão, possíveis interações e bate-papo com os participantes, se irá preparar um ou mais pratos, qual o grau de dificuldade da receita para quem quer acompanhar e reproduzir em casa, e assim por diante. Verifique se os ingredientes da receita podem ser facilmente adquiridos pelos participantes ou se você irá porciona-los e entregar aos participantes (e como será essa logística).
Defina um roteiro com toda a sequência, do início ao final da transmissão, por tópicos. Estabeleça um tempo máximo de duração.

3- Plataforma:
Você terá de escolher uma plataforma de exibição, geralmente o aplicativo Zoom é o mais usado, já que você pode compartilhar um link com uma senha para os participantes pagantes entrarem.

4- Venda o seu curso:
Você pode anunciar o seu curso por imagens produzidas postadas no feed e no Stories do Instagram, e definir um meio de contato e de pagamento. Geralmente, os chefs utilizam o próprio WhatsApp ou as mensagens diretas do aplicativo, e fazem a cobrança através de PIX ou depósito bancário. Os mais estruturados criam seus próprios websites com pagamento por cartão de crédito (com um custo maior). Depois que o cliente faz o pagamento, você deve enviar a ele todas as instruções, como dia e horário da transmissão, a lista de ingredientes que irá utilizar e o link com a senha do Zoom.
Cumpra o compromisso no horário, não deixe o participante aguardando para entrar na transmissão. Quanto mais correto você seguir, mais credibilidade e boas avaliações terá – consequentemente, o boca a boca trará novos participantes.

Algumas plataformas ajudam em boa parte destes quesitos, como a própria HeroSpark que oferece todas as soluções para a hospedagem e venda de cursos. No entanto, ela cobra taxas que variam de 5% a 7,9% sobre cada transação.

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