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Fazenda Futuro
Primeira foodtech brasileira de alimentos plant based, a Fazenda Futuro produz cerca de 600 toneladas de carne vegetal.| Foto: Bruno Machado/divulgação Fazenda Futuro

Com apenas dois anos de funcionamento e mais de R$ 150 milhões em investimentos privados, a foodtech brasileira Fazenda Futuro foi a primeira a se especializar em alimentos baseados em proteína vegetal com a aparência e sabor semelhantes à bovina, e hoje já alcança uma produção na casa das 600 toneladas anuais.

Dessas, pelo menos a metade fica no mercado doméstico e o restante é exportado para 24 países, principalmente os do continente europeu que respondem por quase a totalidade das vendas. A marca agora se prepara para entrar nos Estados Unidos, considerado o mais importante e mais lucrativo.

Em paralelo a este ambicioso plano de expansão, a Fazenda Futuro pretende incrementar a presença nas gôndolas dos supermercados brasileiros apostando no crescente hábito de se substituir a proteína animal pela vegetal, mas ainda com a questão “preço” como a principal barreira a ser superada.

Marcos Leta, sócio-fundador da Fazenda Futuro, explica que essa mudança de hábito e a criação de uma cultura de consumo de alimentos plant based leva tempo, e que no Brasil ainda é muito recente.

“Os brasileiros ainda estão em um processo de amadurecimento, experimentando essas novas carnes. É uma questão de tempo, não tem muita ciência. Os Estados Unidos trabalham com plant based há dez anos, a Europa iniciou antes ainda, em 1970”, diz.

Atualmente, a Fazenda Futuro oferece seis produtos com aparência e sabor semelhantes aos de origem animal, mas feitos totalmente com proteínas vegetais. Cada um deles têm características próprias de produção e de adaptação para os mercados importadores.

Nesta entrevista ao Bom Gourmet Negócios, Marcos Leta conta como tem sido o desenvolvimento da Fazenda Futuro nestes últimos dois anos, o salto que a companhia deu na aceitação dos produtos pelo mercado, a concorrência e o que é possível fazer para diminuir os preços cobrados ao consumidor final. Trechos da conversa foram condensados para melhor entendimento do leitor.

Bom Gourmet Negócios: A Fazenda Futuro foi uma das primeiras da América Latina a desenvolver produtos plant based com este diferencial de ser realmente um substituto à proteína animal, mas com aparência e sabor semelhantes aos originais. Foram apenas dois anos de crescimento para chegar onde chegaram. Como foi isso?

Marcos Leta: A Fazenda Futurou nasceu em maio de 2019 com investimentos próprios tanto meu quanto do meu sócio, e logo nos dois meses seguintes, vimos que tanto a marca como o produto tinham elasticidade pra crescer mais rápido tanto aqui no Brasil quanto para antecipar o nosso plano de exportação. Começamos então as nossas séries de captação com US$ 8,5 milhões em julho e agosto, e em setembro de 2020 algo em torno de US$ 21 a 22 milhões, totalizando US$ 30 milhões (mais de R$ 150 milhões) para anteciparmos os nossos planos comerciais e de marketing para mantermos a liderança de plant based no Brasil e expandindo a marca para fora do país. Então depois desses dois anos chegamos a 24 países, concentrado a maior parte do volume no Brasil e na Europa e entrando nos Estados Unidos daqui a no máximo dois meses.

Quando a Fazenda Futuro surgiu, com os primeiros investimentos próprios, a capacidade de produção era de 90 toneladas de alimentos. Depois, com os aportes das rodadas de investimento, passou a 150 toneladas. E hoje, de quanto é a produção destes seis produtos da marca?

Hoje a nossa produção está em 600 toneladas, sendo que, até o final do ano, 50% disso serão específicos para o mercado doméstico. Desde o começo da Fazenda Futuro nós tínhamos uma tese: o Brasil é uma potência no agronegócio, representa mais de 30% da produção mundial de alimentos, só que infelizmente vendemos muita commodity quando você olha os nossos vegetais. Então pensamos que, se conseguíssemos agregar tecnologia a esses vegetais, desenvolver fórmulas para vender em todos os países sem usar aromatizantes ou corantes artificiais, conseguiríamos desenvolver uma empresa global onde o vegetal vem do Brasil. Desde o início, todo o nosso planejamento de ingredientes passa pelo nosso departamento jurídico para entender a legislação dos países onde estamos. Hoje eu consigo vender para o mundo todo, estamos de acordo com todas as legislações. Claro que tem um ou outro país em que temos que adicionar vitaminas, como no Canadá, por exemplo, só que a base do produto consegue ser vendida no mundo inteiro. O mercado árabe mesmo nós temos até certificado Halal, embora não precisássemos dele para vender lá. É um mercado que tem crescido bastante, somos líderes de plant based na rede Carrefour de lá.

Do porcentual que vocês exportam, de cerca de 300 toneladas, 80% vai para a Europa e o restante para outros continentes. Como é o mercado europeu para os produtos da Fazenda Futuro?

Estamos nas principais redes de varejo do país, como o Sainsbury’s, do Reino Unido (segunda maior do país); no Metro, da Itália, que é o maior varejista de lá; no Jumbo, que é o maior da Holanda, entre outros. Estamos conquistando os paladares dos jovens e dos que estão querendo diminuir o consumo de carne.

Fazenda Futuro
Marca é comercializada no exterior como Future Farm e Hacienda Futuro.| Bruno Machado/divulgação Fazenda Futuro

Fazendo um retrocesso de como era o mercado de carne vegetal antes de 2019, em que existiam basicamente hambúrguer de cogumelos, de soja e outros vegetais, hoje vemos um domínio considerável da Fazenda Futuro e a entrada de outras foodtechs no mercado e, até mesmo, de gigantes alimentícias de olho nesse crescente consumo. Como você vê essa aceitação dos brasileiros com a evolução dos produtos de origem vegetal?

Acho que o Brasil e os brasileiros ainda estão em um processo de amadurecimento, experimentando essas novas carnes, descartando e preferindo aquelas que o agradem mais em termos de sabor e textura – e buscando mais informações sobre como diminuir o consumo de proteína de origem animal. Quando você pega o próprio consumo per capita de carne do Brasil, ele vem diminuindo [queda de 14% segundo a Companhia Nacional de Abastecimento, seja pelo preço cada vez mais alto como pela mudança de hábitos] embora as exportações de carne do Brasil tenham explodido [37% em 2020 segundo a Conab]. Existem ondas de consumo de plant based, como a que tivemos dos hambúrgueres de cogumelo, de grão-de-bico, de feijão [na primeira década deste século], depois veio uma segunda onda que começou em torno de 2009 e 2010, de usar novas tecnologias para se extrair e chegar numa textura muito próxima da carne. E, por fim, essa onda em que estamos trabalhando hoje, de saudabilidade, que é entregar um produto cada vez mais saudável com baixo teor de sódio e de gordura comparado à de origem animal.

A questão preço ainda é um impeditivo? Porque vemos uma diferença grande entre o preço cobrado pelos produtos da Fazenda Futuro e dos concorrentes diretos no varejo, como uma caixinha de hambúrguer de 230g custando R$ 11 a R$ 13 enquanto que a de proteína animal de 670g custa R$ 14.

O preço ainda é um desafio no Brasil, infelizmente não temos os mesmos incentivos [fiscais] de produção de carne, e tem também a questão de escala e eficiência produtiva. Agora, quando você pega a Europa, por exemplo, estamos no máximo 15% mais caros que a proteína animal, porque a carne lá já é cara de qualquer forma. Mas, sim, o preço é um desafio no Brasil que vamos conseguir reduzir com volume, com os consumidores comprando mais, e aí se consegue diminuir o preço ao longo do tempo. A categoria tem crescido, os varejistas a adotaram tanto que, em uma grande rede, temos 25% de todo o share de hambúrguer bovino, não é uma categoria desprezável. Mas, obviamente, pra ela dar esse pulo de consumo é uma questão de tempo, não tem muita ciência. Os Estados Unidos, por exemplo, trabalham com plant based há 10 anos, a Europa iniciou lá atrás em 1970, com aquela leva de produtos com gosto de vegetal. Mas hoje, o paladar para produtos vegetais já está muito maduro, ela está nessa transição há seis a sete anos. O Brasil tem efetivamente dois anos apenas. Pode colocar o dinheiro que for, não se muda a cultura de um povo em dois anos. Geralmente a partir do quinto ano, do sétimo ano.

No ano passado conversamos com os chilenos da NotCo (foodtech também especializada em produtos plant based), em que eles afirmaram estar pleiteando uma mudança fiscal para os alimentos plant based através de possíveis incentivos concedidos pela reforma tributária. Isso é possível?

Acho que é um pouco utópico isso. Não adianta entrar e perceber que a tributação brasileira é alta e complexa, nós já sabemos disso. Eu adoraria que tivéssemos incentivos, há conversas para isso até mais longas do que a criação da categoria de carne plant based, mas até agora não saiu absolutamente nada. Sabemos que no Brasil não existe incentivo para o plant based, então temos que jogar com outras estratégias como aumentar volume, executar no supermercado, expandir a nossa malha de distribuição pra se conseguir produzir mais, tentar ser cada vez mais eficientes na produção para diminuir custo e não aumentar a margem e repassar custos para o consumidor... Se você pegar o nosso produto, o Futuro Burger 1.0, 2,0 e o 2030, sempre mantivemos o mesmo preço porque aumentamos a tecnologia. As vezes melhoramos um ingrediente que é mais caro, mas tentamos manter ou diminuir o nosso custo a medida em que vamos aumentando o volume e melhorando a nossa tecnologia.

Para finalizar, o que a Fazenda Futuro planeja para os próximos dois anos?

Vamos continuar com os investimentos e a expansão de fabrica [no Rio de Janeiro] para mantermos a liderança no Brasil e suportar o crescimento no exterior. Também aumentar os departamentos comercial e de marketing na Europa, e focar bastante no crescimento e desenvolvimento nos Estados Unidos, que é o maior mercado. Dos seis produtos que exportamos para o mundo todo, vamos para lá primeiro com o hambúrguer, a almôndega e a carne moída, e depois vão entrando os outros.

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