Bebidas

O que são e como funcionam as cervejarias ciganas

Para abater custos e viabilizar a produção, cervejeiros se associam a pequenas fábricas para fazer sua própria bebida; investimento inicial é de cerca de R$ 100 mil

por Andrea Torrente Publicado em 06/05/2016 às 15h
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sócios da cervejaria cigana dum em curitiba

Murilo Henrique Marecki Foltran, Julio Amorim Moutinho e Luiz Felipe Camargo Araujo, sócios da DUM, cervejaria associada da GaudenBier, em Curitiba. Foto: Ivonaldo Alexandre.

Produzir cerveja sem ter uma fábrica é possível. O modelo é o das chamadas “cervejarias ciganas”, também conhecidas como “colaborativas” ou “associadas”. Funciona assim: cervejeiros, que não têm recursos para montar uma fábrica, pegam “emprestados” os tanques de uma outra cervejaria para produzir e comercializar os rótulos no mercado. Daí nasce o termo “cigano”, inventado por um cervejeiro dinamarquês. Por não ter lar fixo, esse tipo de cervejeiro pode pular de uma fábrica para outra.

Das 25 microcervejarias que existem em Curitiba e região, nove utilizam o modelo cigano. O modelo de negócio tem sido importante para alavancar a produção de cervejas artesanais, não só em Curitiba e região metropolitana, mas no mundo inteiro. Ele é muito utilizado pelos “cervejeiros de panela”, os que fazem pequenos lotes em casa para o consumo próprio, mas que querem se profissionalizar. Após elaborarem a própria receita, abrir uma empresa e registrar uma marca, os pequenos cervejeiros buscam fábricas para iniciar a produção.

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“Hoje temos dois tipos de cervejeiros: o proprietário de microcervejarias e o cigano que produz de forma terceirizada”, explica Luciano Wengrzinski, proprietário da Wensky Bier e presidente da Procerva, associação que reúne 39 microcervejarias do Paraná. Esses dois modelos muitas vezes se complementam. “Abrir uma cervejaria cigana é mais fácil e mais barato que montar uma fábrica, mas os ciganos podem ajudar as pequenas também as fábricas que não utilizam toda sua capacidade e assim manter a produção em andamento”, explica Samuel Cavalcanti, proprietário da Bodebrown, fábrica que produz, além dos seus próprios rótulos, cervejas da marca cigana De Bora Bier.

Parceria

Murilo Foltran, dono da DUM, que utiliza a fábrica GaudenBier para produzir seus rótulos, explica que existem dois tipos de parcerias mais comuns: o primeiro prevê que o cigano compre um lote da fábrica e no final paga pelo serviço; o cigano ainda fica encarregado para fazer a distribuição. O segundo tipo prevê que o dono da fábrica se encarrega de toda a produção (a receita é da cigana), do estoque e da distribuição e o cigano ganha royalties sobre cada garrafa vendida. O valor dos royalties depende do acordo entre as duas partes e varia conforme a cidade. Em Curitiba a média oscila entre R$ 0,5 e R$ 1 por garrafa.

A GaudenBier, localizada em Santa Felicidade, em Curitiba, é um dos maiores produtores de marcas ciganas da região. Além dos rótulos próprios, GaudenBier e Pagan, ela produz as terceirizadas Madalosso, Dum, Fucking Beer, Tormenta e Morada Cia. Etílica. “Dessa forma conseguimos aproveitar os canais de venda da cervejaria. Temos um espirito colaborativo, estamos unindo as forças para que a coisa funcione”, explica Foltran.

Investimento

Comparado com os milhões de reais necessários para montar uma fábrica, o investimento para começar uma cervejaria cigana é bem mais baixo, em torno de R$ 100 mil. As despesas iniciais envolvem o desenvolvimento da marca, o design do rótulo, os barris para maturar a cerveja, o custo de produção e o marketing.

“Para fechar a conta no final do mês, tem que ter um volume de vendas muito grande”, diz Foltran, que consegue produzir até 5 mil litros por mês. Estabelecer-se no mercado é complicado, tanto que para muitos cervejeiros artesanais, essa atividade é uma segunda ocupação. Foltran até promove cursos para quem quer se tornar cervejeiro cigano em que explica como funciona o mercado, a logística para produzir, a legislação e o sistema tributário.

Termo

Embora tenha se popularizado desta forma, empresários do setor não gostam do termo cigano. Eles preferem definir essas cervejarias como “colaborativas” ou “associadas”.

“Na Bélgica surgiu um movimento que questiona o modelo de negócio cigano: quem é contra alega que esses cervejeiros não têm afinidade com o território, não desenvolvem uma responsabilidade social com a comunidade e com o pequeno fabricante. Simplesmente produzem e vão embora”, conta Cavalcanti, que pelo contrário defende a simbiose que se cria entre os dois modelos.

Foltra reconhece que o perigo existe, mas que, em muitas cervejarias de Curitiba, fabricantes e ciganos estabeleceram relações e parcerias estreitas. “O dono da fábrica tem que escolher muito bem seu parceiro e, em seguida, os dois têm que se ajudar e unir as forças, porque se deixados sozinhos, os pequenos vão morrer. Nos Estados Unidos, as pequenas cervejarias são unidas e têm associações fortes”, avalia Foltran.

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Aumento de impostos

Os pequenos produtores reclamam do aumento de imposto que passou a valer em 1.º de janeiro deste ano, quando o governo do Paraná eliminou um crédito de 17% a ser abatido do ICMS (Imposto Sobre Circulação de Mercadorias e Serviços). Hoje, as microcervejarias do Paraná pagam 29% de ICMS.

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