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Vindima invertida

Vinícola premiada colhe uvas no frio contrariando as regras de produção tradicional

No alto da Serra da Mantiqueira (SP), a Vinícola Guaspari utiliza uma técnica francesa que “força” a videira a uma dupla produção de uvas

por Guilherme Grandi Publicado em 13/05/2019 às 15h
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Contrariando a máxima de que a produção de um vinho começa com a colheita da uva no auge do verão, uma vinícola do interior de São Paulo criou um método que permite deixar o fruto mais tempo na parreira. É a chamada vindima invertida, quando a uva é colhida durante o outono e o inverno, gerando vinhos mais potentes e encorpados. O método foi desenvolvido pela Vinícola Guaspari, que abre as portas para a colheita nos fins de semana de maio a julho.

Vinícola Guaspari

Os vinhedos da vinícola estão a 1.300 metros de altitude, na Serra da Mantiqueira. Foto: divulgação.

A colheita fora de época foi criada em meados de 2006, quando as primeiras videiras foram plantadas na região de Espírito Santo do Pinhal, na divisa dos estados de São Paulo e Minas Gerais. A tecnologia, única no Brasil, foi trazida da França e adaptada para a região a mais de 1.300 metros de altitude. O terreno, que antes era ocupado por plantações de café, se mostrou perfeito para a produção de vinhos, com dias ensolarados e noites frias.

“A amplitude térmica aqui vai de 8 a 25 graus, provocando uma alta concentração de açúcar nas uvas e dando origem a vinhos mais encorpados e bem característicos dos produzidos em grandes altitudes. Outro motivo para transferirmos a safra do verão para o inverno foi por conta das condições climáticas, já que o verão é muito chuvoso”, explica Fabrizia Zucherato, diretora executiva da vinícola.

Desde que foi aberta, a Guaspari já recebeu diversos prêmios internacionais pelos vinhos produzidos, como a medalha de ouro no Decanter World Wine Awards de 2012 e 2014 com o Syrah Vista do Chá. Também foi premiada como o melhor branco do Brasil de 2019 com o Viognier Vista do Bosque 2016, e a medalha de ouro no Chardonnay du Monde, neste ano, para o Vista do Lago 2016.

Poda drástica

A vinícola utiliza a tecnologia da ‘dupla poda’, em que as primeiras uvas são completamente podadas entre janeiro e fevereiro – quando começam a se desenvolver. Ou seja, a planta volta à estaca zero de produção. Mas, isso a ajuda na frutificação mais intensa dos bagos, aumentando a concentração de açúcar nos frutos no auge do verão.

O método trazido ao Brasil pelo pesquisador Murilo Regina, da Empresa de Pesquisa Agropecuária de Minas Gerais (Epamig), é usado para produzir nove variedades de uvas na Vinícola Guaspari, entre elas a Syrah, a Cabernet Sauvignon e a Chardonnay. A mesma tecnologia também é utilizada em um vinhedo na região do Vale do Rio São Francisco (BA), onde a Miolo produz espumantes em larga escala dentro deste método e do tradicional de poda no verão.

“Isso faz com que a gente consiga produzir a uva praticamente na hora que quisermos, dependendo do uso que será dado a ela”, completa Fabrizia Zucherato. No caso da Vinícola Guaspari, a plantação começou a dar frutos em 2014, quando foram lançados os dois primeiros rótulos da marca.

>> Leia também: É na terra do vinho que está a maior produção nacional de cerveja artesanal

Passados cinco anos, os vinhedos já alcançam 50 hectares plantados na região da Serra da Mantiqueira e dão origem a sete rótulos de vinhos, com maturação de oito meses a até dois anos. São variedades de tintos, brancos e rosés que custam de R$ 88 a R$ 480.

Festa da vindima invertida

Vinícola Guaspari

As uvas passam por uma dupla poda, onde os primeiros frutos são erradicados assim que começam a se desenvolver. Foto: Tuca Reines/divulgação.

Para quem quiser participar, a festa da colheita invertida é realizada aos sábados, domingos e feriados até o dia 28 de julho, às 9h30, com café de boas vindas, tour pelo vinhedo com colheita simbólica, acesso à área de produção, degustação de quatro rótulos de vinhos e almoço com pratos típicos da região (costela fogo de chão e hambúrgueres artesanais). Os pacotes custam de R$ 480 a R$ 580 por pessoa. Há, ainda, pacotes de visitação sem o almoço harmonizado a partir de R$ 65 disponíveis no site da vinícola.

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