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Xepa escapa do lixo e vira prato gourmet

Chefs aproveitam o Dia Mundial da Alimentação para elaborar cardápios com sobras que seriam descartadas

por Lucas Gabriel Marins, especial para a Gazeta do Povo Publicado em 17/10/2014 às 11h
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Mais de 20 pratos, como ceviche, ratatouille, guacamole e chips de casca de batata foram preparados por chefs. Foto: Jonathan Campos / Gazeta do Povo.

Mais de 20 pratos, como ceviche, ratatouille, guacamole e chips de casca de batata foram preparados por chefs. Foto: Jonathan Campos / Gazeta do Povo.

Ontem, no Dia Mundial da Alimentação, mais de mil toneladas de alimentos da Ceasa de Curitiba tiveram um destino diferente: as mãos de 11 renomados chefes de cozinha. No cardápio preparado por eles, mais de 20 pratos, como ceviche, ratatouille, guacamole e chips de casca de batata. Se os pimentões, limões e tomates não fossem para a cozinha, iriam para o lixo.

O evento, chamado Disco Xepa, foi organizado pelo Movimento Slow Food Paraná em parceria com diversas entidades e restaurantes da capital. “A ideia era mostrar que o alimento, apesar de feio, não precisa ser dispensado e pode ser aproveitado, evitando o desperdício”, diz o representando regional da organização, Rafael Bonilha.

A Ceasa de Curitiba movimenta 570 mil toneladas de hortifrutigranjeiros por mês. Desse total, 535 toneladas são descartadas no aterro sanitário. Mas a palavra desperdício estava fora do vocabulário dos chefes e dos mais de 50 profissionais envolvidos. Até a parte branca da melancia, geralmente jogada fora, virou sobremesa.

Délio Canabrava (ajoelhado), da Cantina do Délio, Claudinei Oliveira (de cinza), do Bar do Victor, Iracema Bertoco (lenço vermelho), do Centro Europeu, e Gabriela Carvalho (lenço verde), do Quintana, estavam entre os chefs que comandaram os preparos. Foto: Jonathan Campos / Gazeta do Povo.

Délio Canabrava (ajoelhado), da Cantina do Délio, Claudinei Oliveira (de cinza), do Bar do Victor, Iracema Bertoco (lenço vermelho), do Centro Europeu, e Gabriela Carvalho (lenço verde), do Quintana, estavam entre os chefs que comandaram os preparos. Foto: Jonathan Campos / Gazeta do Povo.

“Você pode aproveitar tudo dela. Da semente à parte branca. Esta última você pode usar, inclusive, para substituir o pepino da salada”, ensina a chefe Iracema Bertoco, do Centro Europeu.

O evento foi aberto ao público. A aposentada Maria das Dores de Souza, 68 anos, moradora da região, estava feliz da vida. “Já comi não sei quantas vezes isso aqui”, disse sorrindo. Nas mãos, segurava um copo de plástico com compota de maçã, feita com a fruta, especiarias, açúcar e gengibre.

Um DJ alegrava os presentes. A música Dança da Vassoura, do grupo Molejo, fez as cozinheiras largarem a panela para acompanhar a letra “diga onde você vai, que eu vou varrendo, vou varrendo, vou varrendo…”. Alguns participantes também distribuíram os pratos para os trabalhadores da Ceasa.

Preparação
A preparação do evento começou na sexta-feira. Mais de dez pessoas da organização ficaram nos lixões da Ceasa – galpões onde os alimentos “ruins” são descartados – à espera de verduras e legumes. “Quando víamos algo que prestava, corríamos para pegar”, brinca a chefe Gabriela Carvalho, proprietária do Quintana Café & Restaurante, do movimento Gastronomia Responsável, iniciativa da Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza que alia gastronomia e conservação.

Os alimentos, depois de resgatados, foram transportados para um aparelho de higienização e armazenados em uma câmera fria. Além da preparação e distribuição de pratos, o evento também contou com workshops. Gabriela, por exemplo, proferiu um sobre compostagem, separação de lixo e gastronomia responsável.

A ação foi criada pelo movimento Slow Food. Foto: Jonathan Campos / Gazeta do Povo.

A ação foi criada pelo movimento Slow Food. Foto: Jonathan Campos / Gazeta do Povo.

Ceasa cria estratégias e reduz o desperdício
As cinco unidades da Ceasa Paraná comercializam 1,2 milhão de hortigranjeiros por ano. Segundo estudo da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), 30% disso é desperdiçado – os principais fatores são transporte inadequado, colheita antes de hora e manipulação errada. Mas a Ceasa Curitiba conseguiu reverter o cenário. De acordo com Luiz Dâmaso Gusi, diretor-presidente da Ceasa Paraná, o porcentual na cidade caiu para 12%.
“A receita é que temos dado cursos de capacitação de boas práticas de produção, como no processo de caixarias e embalagens. Temos também uma parceria com o Sebrae, que ensina nossos profissionais a fazer uma embalagem melhor, transportar o produto com mais segurança.”
Outra iniciativa da Ceasa que reaproveita alimentos é o Banco de Alimentos, programa que estimula a redução do descarte diário. Por dia, cerca de 150 toneladas de frutas, verduras e legumes são reaproveitados. São doados para 160 entidades ­­assistenciais, como casas lares, creches, hospitais públicos, asilos e casas de recuperação.

Sem fome

O Brasil desperdiça 14,6 milhões de toneladas de alimentos por ano, o que daria para acabar com a fome de 19 milhões de pessoas, segundo a Embrapa. No mundo, conforme a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), 1,3 bilhão de alimentos (30% de toda a produção) vão para o lixo por ano. Diante desse quadro, o Disco Xepa é uma iniciativa do movimento Slow Food, associação internacional que promove o consumo responsável da comida. Iniciado em Paris e Berlim, o evento chegou ao Brasil em 2013.

Tags: almoço
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