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Fenômeno em ascensão

Comando Vermelho e PCC transformam Bolívia em principal base das facções criminosas fora do Brasil 

A facilidade de subornar autoridades e viver com documentos falsos é apontada pelo promotor Lincoln Gakiya, do Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado de São Paulo (Gaeco), como fato-chave que leva integrantes das facções PCC e Comando Vermelho a se esconder na Bolívia. 
A facilidade de subornar autoridades e viver com documentos falsos é apontada pelo promotor Lincoln Gakiya, do Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado de São Paulo (Gaeco), como fato-chave que leva integrantes de PCC e Comando Vermelho a se esconder na Bolívia. (Foto: Wikimedia Commons)

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Na última semana, uma operação internacional das forças de segurança do Brasil e da Bolívia prendeu um casal em Santa Cruz de La Sierra, no país vizinho, foragido daqui e acusados de serem lideranças da facção criminosa Comando Vermelho (CV) na Bahia. Não é um fato isolado.

Esta notícia junta-se a uma série de prisões de integrantes do Comando Vermelho e do Primeiro Comando da Capital (PCC) no país vizinho, o que evidencia um fenômeno em ascensão: fugidos do país, membros e líderes de facções criminosas nacionais estabelecem-se na Bolívia, de onde seguem comandando os negócios ilegais dos grupos criminosos por aqui e por lá.

Além do casal baiano, outra grande captura de criminosos do PCC foragidos do Brasil na Bolívia chamou a atenção na última semana. Felipe Anderson Pinho de Sousa, conhecido como “Felipe Pacote”, de 32 anos, e Gleison Gomes de Oliveira, o “Zé Caboclo”, de 30 anos, foram localizados em uma chácara na cidade de Santa Cruz de La Sierra — eles são apontados pela polícia como lideranças do PCC no Ceará.

No local, os agentes apreenderam 21 armas, sendo 15 fuzis, carabinas e 3 pistolas. Além disso, foram localizados no imóvel fardamentos da polícia boliviana, drogas, 150 mil dólares, veículos e celulares. Dois bolivianos também foram presos durante a ação.

"Felipe Pacote" possui antecedentes por homicídio, associação criminosa, tráfico de drogas e porte ilegal de arma de fogo. Ele estava com um mandado de prisão em aberto expedido pela Justiça do Ceará por integrar organização criminosa. “Zé Caboclo” também possui passagens pela polícia por fazer parte do mesmo grupo criminoso.

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Membros do PCC faziam a segurança de um dos fugitivos internacionais mais procurados pela polícia

De acordo com a Polícia Federal, a dupla de criminosos do PCC fazia a segurança pessoal do narcotraficante uruguaio Sebastian Marset — um dos fugitivos mais procurados pela Agência Antidrogas dos Estados Unidos, capturado em março deste ano também em Santa Cruz, e extraditado para o país norte-americano.

Em maio do ano passado, Marcos Roberto de Almeida, conhecido como "Tuta" e apontado como um dos principais líderes da cúpula do PCC até então fora da cadeia, foi preso na Bolívia e transferido para o Brasil, onde cumpre pena no presídio federal de segurança máxima de Brasília. O brasileiro foi identificado como um dos principais articuladores de um esquema internacional de lavagem de dinheiro da facção criminosa, e constava na Lista de Difusão Vermelha da Interpol.

A amplitude de fronteiras mal guardadas com Brasil, Paraguai e Peru — junto com a Colômbia, os principais produtores ou rotas de tráfico internacional de drogas ilícitas como a cocaína — favorece o trânsito terrestre e aéreo dos criminosos, em helicópteros ou aviões de pequeno porte. A facilidade de subornar autoridades e viver com documentos falsos é apontada pelo promotor Lincoln Gakiya, do Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado de São Paulo (Gaeco), como motivo que leva integrantes de PCC e Comando Vermelho a se esconder na Bolívia.

O esconderijo prioritário para as facções: antes Paraguai, agora Bolívia

Em entrevista ao G1 em maio de 2025, logo após a prisão de "Tuta", Gakiya afirmou que os faccionados têm "grande facilidade para ir e vir" no país, sem serem incomodados. "O PCC domina a Bolívia. Nos anos 1990 e 2000, eles se escondiam no Paraguai, depois migraram para a Bolívia por essa facilidade de viver com documento falso, contando com a corrupção de policiais e autoridades locais", disse o promotor na entrevista.

Em uma pesquisa na internet, é possível encontrar dezenas de casos deste tipo: de bandidos de grandes facções criminosas foragidos do Norte ao Sul do país e que foram presos na Bolívia do ano passado para cá. Apenas a Secretaria de Segurança Pública da Bahia (SSP-BA) informa que seis líderes de facções criminosas com atuação no estado nordestino foram capturados na Bolívia só em 2026 (incluindo o casal da última semana), durante operações integradas de combate ao crime organizado transnacional.

De acordo com reportagem do site Metrópoles do final de fevereiro, o Comando Vermelho possui uma hierarquia estruturada e bem definida no país vizinho. De acordo com um comunicado atribuído a lideranças da facção, do dia 10 de fevereiro deste ano e obtido pela reportagem, integrantes identificados como “Bronix” e “Zeus” passam a assumir a condução das ações do grupo criminosos nas cidades bolivianas de Santa Cruz de La Sierra e Trinidad. 

“Zeus” refere-se a Luiz Carlos Bandeira Rodrigues, criminoso natural de Rondônia, chefe do tráfico de drogas na comunidade da Muzema, na zona oeste do Rio de Janeiro (RJ), segundo a polícia. O nome dele integra a última lista do Ministério da Justiça e Segurança Pública com os criminosos mais procurados do Brasil.

De acordo com o informativo, “Zeus” recebeu aval do chamado “Conselho Final Bolívia” para tomar decisões nas regiões de Guayara, Trinidad e Santa Cruz, podendo atuar em conjunto com “Bronix” ou outro integrante citado como “Lamborghini”.

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Polícia brasileira fortalece cooperação com forças de segurança da região

Por trás do crescimento exponencial das prisões de brasileiros no país vizinho também podem estar esforços no aumento da cooperação entre as forças de segurança latino-americanas. O Brasil foi escolhido pela Interpol para chefiar uma força-tarefa inédita contra o crime organizado na América do Sul.

Com sede em Buenos Aires e coordenação da Polícia Federal brasileira, a iniciativa lançada em março de 2026 foca na aliança entre facções e cartéis de drogas regionais. Policiais de todos os países sul-americanos trabalham lado a lado no escritório regional da Interpol em Buenos Aires.

Eles têm acesso direto ao banco de dados mundial da entidade, o que permite cruzar informações de biometria (como digitais), registros de apreensões e dados financeiros em tempo real. Os resultados da maior cooperação internacional começam a aparecer.

Gazeta do Povo não localizou os advogados dos presos citados nesta reportagem, e o espaço segue aberto para manifestação. 

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