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Enquanto trem-bala de Lula nunca saiu do papel, Espanha construiu 3 mil km de ferrovias em 20 anos

Com o AVE como símbolo de eficiência, a Espanha avança; no Brasil, a alta velocidade ainda não saiu do discurso.
Com o trem AVE (alta velocidade espanhola) como símbolo de eficiência nacional, a Espanha teve um salto de avanço no transporte por trilhos. (Foto: Álvaro Cabrera/EFE)

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Enquanto o Brasil acumula décadas de promessa renovada sobre a possibilidade de execução do trem de alta velocidade (TAV) entre São Paulo e Rio de Janeiro, a Espanha transformou a geografia e consolidou sua rede de ferrovias como uma das mais eficientes do continente europeu. Nos últimos 20 anos, o governo espanhol ignorou obstáculos naturais e burocráticos para entregar mais de 3 mil quilômetros de trilhos modernos.

A Espanha ostenta a maior rede de alta velocidade da Europa e a segunda maior do mundo, superada apenas pela China. Com trens que atingem 310 km/h, o país quadruplicou sua oferta de viagens nos últimos três anos. O sucesso espanhol reside no Corredor Mediterrâneo, um projeto de 50 bilhões de euros que conecta o Atlântico à fronteira francesa, integrando portos estratégicos como Algeciras, Valência e Barcelona. As informações são da Associação Corredor Sudoeste Ibérico.

"A Espanha figura entre as economias com sistemas de transporte e energia mais desenvolvidos: o país possui um sistema de ferrovias com 15 mil quilômetros de extensão de trens regulares e de alta-velocidade; no que tange à malha de alta velocidade, é o segundo em extensão, com 4 mil quilômetros, atrás da China, com seus 48 mil quilômetros", compara o economista Claudio Frischtak, diretor da Inter.B Consultoria Internacional de Negócios.

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Diferente do cenário brasileiro de impasses, os espanhóis venceram o relevo acidentado com engenharia de precisão:

  • perfuraram montanhas: centenas de túneis propiciam trajetos retos e velozes;
  • padronizaram a malha: substituíram a antiga bitola ibérica pelo padrão europeu, permitindo a livre circulação internacional sem trocas de eixos;
  • abriram o mercado: desde 2021, o país quebrou o monopólio estatal, permitindo que a concorrência reduza preços e melhore o serviço.

Frischtak enfatiza que a rede de ferrovias da Espanha detém a maior proporção de trilhos por habitante do mundo, superando potências como França e Alemanha. O trem Alta Velocidade Espanhola (AVE) tornou-se símbolo de eficiência nacional.

O desenvolvimento energético para a rede ferroviária foi parte do crescimento energético sustentável do país, focado em eletrificação de alta velocidade, uso de energia limpa e eficiência tecnológica. "O crescimento da matriz energética renovável foi impulsionado pela remoção de obstáculos regulatórios e concessão de subsídios a instalações de painéis solares e turbinas eólicas", explica Frischtak.

Espanha tornou-se referência global em ferrovias, com 15 mil km de trilhos e a segunda maior malha de alta velocidade do mundo.Espanha tornou-se referência global em ferrovias, com 15 mil km de trilhos e a segunda maior malha de alta velocidade do mundo. (Foto: Álvaro Cabrera/EFE)

E no Brasil?

Em novembro do ano passado, o governo brasileiro lançou o programa Política Nacional de Outorgas Ferroviárias, com a promessa de ser um marco para a infraestrutura de transportes e para a retomada do modal ferroviário no país. A iniciativa do Ministério dos Transportes estabelece diretrizes de planejamento, governança, sustentabilidade e novo modelo de financiamento, com integração entre recursos públicos e privados.

Segundo o Ministério dos Transportes, a carteira de projetos de 2026 possui estimativa de movimentar R$ 600 bilhões no setor ferroviário. O programa prevê oito leilões ferroviários, cobrindo mais de 9 mil quilômetros de extensão.

Projetos elencados pelo governo federal como prioritários

  • Malha Oeste - relicitação, 1.625 km, MS-SP
  • Ferrogrão - EF-170, 933 km, MT-PA
  • Corredor Leste-Oeste - Fico-Fiol, 1.647 km, BA-MT
  • Anel Ferroviário Sudeste - EF-118, ES-RJ
  • Corredor PR/SC - trecho da malha Sul
  • Corredor Rio Grande - trecho da malha Sul
  • Corredor Mercosul - trecho da malha Sul
  • Extensão Norte da Ferrovia Norte-Sul - Açailândia-Barcarena.

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Brasil tem mais da metade da malha ferroviária ociosa

O Brasil chegou a ter 37 mil quilômetros de trilhos na década de 1950. A falta de planejamento de longo prazo deteriorou o sistema. As ferrovias passaram a gerar prejuízos diários estimados em US$ 1 milhão.

Para conter as perdas, o governo federal extinguiu a Rede Ferroviária Federal em 1996 e privatizou o setor. A política priorizou o equilíbrio financeiro das concessões, mas abandonou a expansão da malha. O resultado foi a estagnação da infraestrutura ferroviária nacional.

Décadas depois, os efeitos desse modelo permanecem. O Tribunal de Contas da União (TCU) aponta que 56% da malha ferroviária brasileira está ociosa, com menos de dois trens por dia. Segundo o órgão, o quadro decorre da escassez crônica de investimentos e da ausência de manutenção básica.

A concentração do transporte ferroviário ajuda a explicar essa distorção. O sistema atende a poucos tipos de carga e a um número restrito de operadores, voltados majoritariamente à exportação.

“As ferrovias que mais transportam carga pertencem a empresas cuja vocação é a exportação de minério, atividade que depende diretamente da ferrovia e de uma logística estruturada. Cerca de 70% a 75% do transporte ferroviário brasileiro, em tonelada-quilômetro, corresponde ao minério de ferro”, explica Claudio Barbieri da Cunha, professor de transporte e logística da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP).

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