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Infraestrutura

Após décadas de promessas, qual o real estágio da ponte Salvador-Itaparica?

Projeto da Ponte Salvador–Ilha de Itaparica prevê estrutura de 12,4 quilômetros sobre a Baía de Todos-os-Santos, com trecho estaiado de 85 metros de altura e obras estimadas em 60 meses.
Projeto da Ponte Salvador–Ilha de Itaparica prevê estrutura de 12,4 quilômetros sobre a Baía de Todos-os-Santos, com trecho estaiado de 85 metros de altura. (Foto: Projeção/Concessionária Ponte Salvador-Itaparica)

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As obras da ponte Salvador–Ilha de Itaparica são prometidas para começar em junho de 2026, com conclusão estimada para o mesmo mês do ano de 2031. Ao menos, essa é a previsão do governo da Bahia, que aponta o projeto como aquele que será o maior empreendimento sobre lâmina d’água da América Latina.

Orçada em cerca de R$ 11 bilhões, a obra está a cargo de um consórcio chinês. A expectativa é reconfigurar a mobilidade, a logística e a dinâmica econômica de grande parte do estado baiano.

A ponte deve ligar a capital Salvador à Ilha de Itaparica e substituir, em grande escala, a travessia concentrada no ferry boat, cuja duração é de aproximadamente uma hora de navegação. A espera na fila para veículos pode variar entre 60 a 90 minutos em dias tranquilos, podendo superar o período de três horas em dias de grande movimento.

Em contrapartida, a estimativa é que a travessia pela ponte seja feita entre 10 a 15 minutos. "Estamos falando de fortalecimento do turismo, com novos fluxos e maior integração regional; de estímulo à construção civil e ao mercado imobiliário; de ganhos logísticos importantes, com redução de tempo e custos de transporte; e de expansão do setor de serviços e da atividade industrial", enalteceu Mateus Dias, representante da Secretaria Extraordinária do Sistema Viário Oeste Ponte Salvador-Itaparica (SVPonte).

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Iphan barrou licença para obra da Ponte Salvador-Itaparica

No final de janeiro, o Instituto Nacional do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) na Bahia se manifestou contra a licença da Ponte Salvador–Itaparica, em parecer técnico que analisou impactos sobre comunidades tradicionais. O órgão afirmou que o licenciamento só pode avançar com medidas objetivas de mitigação e compensação cultural.

Foi então recomendada análise ampliada para outros 12 municípios não contemplados até então. O parecer do órgão também criticou a fragilidade do trabalho de campo apresentado.

“No geral, todas as menções de idas a campo são genéricas e pouco detalhadas, com apenas alguns comentários de entrevistas realizadas pela equipe. Em todas essas passagens não há absolutamente nenhum indício de que os entrevistados tinham compreensão do estudo que estava se realizando”, registra o documento.

De acordo com a SVPonte, o parecer do Iphan é parte do fluxo regular do processo de obtenção da Licença de Instalação. Em nota à Gazeta do Povo a secretaria confirmou que "foram apontadas solicitações complementares" e acrescentou que a Concessionária Ponte Salvador–Itaparica protocolou "planos de ação para suprir as recomendações e exigências apresentadas".

A SVPonte afirmou ainda que o governo da Bahia acompanha todas as etapas do licenciamento e descartou mudança na data prevista para o início dos trabalhos.

Obra de engenharia acumula promessas de governos do PT

Desde 1960, administrações estaduais apresentam a Ponte Salvador–Itaparica como solução para integrar a Baía de Todos-os-Santos. O projeto, porém, permanece no papel.

Em 2009, o então governador Jaques Wagner (PT) lançou o projeto oficialmente, informando que o entregaria à ministra da Casa Civil na época, Dilma Rousseff. Uma década mais tarde, a obra ressurgiu como promessa de campanha para o segundo mandato do então governador Rui Costa (PT).

A licitação para construção da ponte e operação por 30 anos ocorreu no mesmo ano. O vencedor foi o consórcio formado pelas empresas China Communications Construction Company (CCCC) e China Civil Engineering Construction Corporation (CCECC).

A assinatura do contrato foi no ano seguinte, ao custo de R$ 5,3 bilhões — valor questionado pelo consórcio depois da pandemia da Covid-19. A execução da obra também foi promessa de campanha do atual governador, Jerônimo Rodrigues (PT).

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Custo da ponte dobrou de valor

Em fevereiro de 2025, o Tribunal de Contas do Estado da Bahia (TCE-BA) homologou acordo que elevou o valor da obra para R$ 10,4 bilhões. O governo da Bahia assumiu aporte direto de R$ 5,047 bilhões e contraprestação anual de R$ 371 milhões nos dez primeiros anos de operação plena. Nos 19 anos seguintes, a contraprestação deve ser de R$ 170 milhões por ano.

Na parte logística, a concessionária concluiu no último mês de outubro a sondagem geotécnica na Baía de Todos-os-Santos após 12 meses de trabalho. No mesmo mês houve acordo para que um dos canteiros das obras fique no estaleiro São Roque do Paraguaçu, em Maragogipe, área de propriedade da Petrobras, que permanece sem uso.

E, em dezembro do ano passado, a ponte ganhou uma secretaria estadual exclusiva para tratar da obra, a SVPonte. No mês passado, o governo da Bahia anunciou a desapropriação de áreas para a construção da ponte no município de Vera Cruz, na Ilha de Itaparica.

O estado declarou de utilidade pública 478.337,49 m². O decreto estabeleceu a medida em caráter de urgência para viabilizar os acessos viários da ponte no território municipal. A concessionária assumiu a liquidação e o pagamento das indenizações aos proprietários, com recursos próprios.

Em fevereiro de 2025, acordo no TCE-BA elevou a obra a R$ 10,4 bilhões.Em fevereiro de 2025, acordo homologado pelo TCE-BA elevou a obra a R$ 10,4 bilhões. (Foto: Projeção/Concessionária Ponte Salvador-Itaparica)

O projeto prevê uma ponte de 12,4 quilômetros sobre a Baía de Todos-os-Santos, com acessos em Salvador e na Ilha de Itaparica e um trecho estaiado de 900 metros. O vão central deve alcançar 85 metros acima do nível do mar, altura equivalente a um prédio de 28 andares, planejado para propiciar a passagem de transatlânticos, petroleiros e plataformas.

A estrutura projetada é para pistas duplas nos dois sentidos, com duas faixas de rolamento por direção e uma faixa adicional, prevista inicialmente como acostamento. Em maio, o governo da Bahia pretende implantar uma plataforma provisória de apoio, cuja execução deve se estender por cerca de um ano. O prazo para a construção estimado pelo governo é de 60 meses.

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Sistema viário encurta distâncias e tem potencial para impulsionar a economia baiana

Além da ponte, o Sistema Rodoviário Salvador–Itaparica abrange o plano de novos acessos viários na capital, com viadutos e túneis conectados à Via Expressa e a avenidas estratégicas, e uma nova rodovia no município de Vera Cruz, com mais de 20 quilômetros, que desviará o tráfego de áreas urbanas da ilha.

O projeto inclui ainda a recuperação e duplicação de trechos da BA-001 até a Ponte do Funil, além da instalação de duas praças de pedágio em Vera Cruz. “Estamos focados para a concretização do maior projeto de infraestrutura em execução no país. A ponte Salvador-Itaparica vai significar muito mais que uma nova ligação entre duas cidades, será um caminho para a prosperidade", diz o diretor-executivo da Concessionária Ponte Salvador-Itaparica, Claudio Villas Boas.

Com cerca de 246 quilômetros quadrados, a Ilha de Itaparica está entre as maiores ilhas marítimas do Brasil e fica no centro da Baía de Todos os Santos. Um lado da ilha se volta para Salvador, enquanto o outro (contracosta) se conecta ao continente pela Ponte do Funil, que tem 665 metros.

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