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A descoberta de centenas de novas estruturas arqueológicas escondidas sob a floresta reacendeu o debate sobre o passado da Amazônia.
Um estudo publicado na revista científica Nature, em 29 de julho, identificou centenas de novos geoglifos na Amazônia por meio da tecnologia LiDAR, ampliando significativamente a área conhecida de ocupação da antiga civilização Aquiry e sugerindo que ela pode ter reunido entre 1,25 milhão e 3 milhões de habitantes em seu auge, há cerca de dois mil anos.
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O que o estudo descobriu sobre a civilização Aquiry?
Os pesquisadores utilizaram levantamentos aéreos com sensores a laser capazes de "enxergar" através da copa das árvores para mapear 4.497 quilômetros quadrados de floresta nos estados do Acre e do Amazonas.
O trabalho revelou 432 estruturas de terra, das quais apenas 36 já eram conhecidas, permitindo redefinir a extensão geográfica da civilização e estimar que a região possa abrigar entre 24 mil e 30 mil obras arqueológicas desse tipo.
A pesquisa foi liderada pelo arqueólogo Martti Pärssinen, da Universidade de Helsinque, que há mais de duas décadas estuda essas formações no Acre.
Em reportagem publicada pela Live Science, o pesquisador explicou que os povos da Aquiry compartilhavam uma mesma visão de mundo e construíram centros cerimoniais em diferentes formas geométricas monumentais, caracterizados por fossos profundos e altos aterros externos, conhecidos como geoglifos amazônicos.
O que são os geoglifos da Amazônia?
Os geoglifos são grandes estruturas escavadas no solo em formatos geométricos, como círculos, quadrados e octógonos. Muitos deles possuem fossos com até cinco metros de profundidade e aterros elevados ao redor.

As construções começaram a surgir por volta de 600 a.C. e continuaram sendo erguidas até aproximadamente 850 d.C., segundo a pesquisa.
Como viviam os povos da civilização Aquiry?
As evidências indicam que esses espaços não eram cidades muradas nem fortificações. Em vez disso, funcionavam como centros públicos, cerimoniais e políticos.
As comunidades viviam em grandes casas comunais multifamiliares ao redor dessas estruturas e cultivavam alimentos como milho, abóbora, mandioca, batata-doce, feijão e amendoim.
Pärssinen afirmou à Live Science que, "de acordo com as tradições orais indígenas, os centros da Aquiry foram construídos para fortalecer as relações entre as comunidades" e também com importantes entidades espirituais. O arqueólogo acrescentou que esses locais serviam para reuniões, tomada de decisões políticas e demonstrações de generosidade por parte das lideranças.
Como a tecnologia LiDAR revelou estruturas escondidas na floresta?
Grande parte dessas construções permaneceu invisível por séculos devido à densa cobertura vegetal da Amazônia. Para superar essa barreira, os pesquisadores utilizaram a tecnologia LiDAR (sigla em inglês para "detecção e medição por luz"), que dispara milhares de pulsos de laser a partir de uma aeronave.
Parte desses feixes atravessa pequenos espaços entre as copas das árvores e alcança o solo, permitindo criar modelos digitais detalhados do relevo e revelar estruturas arqueológicas ocultas pela floresta.
Até agora, cerca de 1.700 geoglifos já haviam sido catalogados na região. No entanto, a combinação entre os novos dados obtidos por LiDAR e levantamentos anteriores levou os pesquisadores a concluir que esse número representa apenas uma pequena fração das construções existentes.
A estimativa é de que mais de 20 mil estruturas ainda permaneçam escondidas em áreas nunca pesquisadas.
O desaparecimento da civilização Aquiry ainda é um mistério
Além de ampliar o número conhecido de geoglifos, o estudo reforça a ideia de que partes da Amazônia abrigaram sociedades complexas, numerosas e capazes de transformar profundamente a paisagem muito antes da chegada dos europeus.
Segundo os autores, se descobertas semelhantes forem confirmadas em outras regiões amazônicas, será necessário reavaliar estimativas sobre a população pré-colonial da floresta e sua influência na formação dos solos, da biodiversidade e até em modelos climáticos globais.
Por que os arqueólogos acreditam que a civilização entrou em colapso?
Ainda assim, uma questão permanece sem resposta: por que essa civilização desapareceu.
Para a Live Science, Pärssinen afirmou que os geoglifos parecem ter sido abandonados entre 850 e 950 d.C. "As evidências disponíveis apontam para um colapso relativamente rápido", disse o pesquisador, sugerindo que o processo pode ter ocorrido no mesmo período em que outras grandes civilizações pré-coloniais, como os maias clássicos, os tiwanakus e os waris, também entraram em declínio.



