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Um dos focos da sexta fase da Operação Compliance Zero, deflagrada nesta quinta-feira (14) pela Polícia Federal, está nas ações do grupo que foi criado pelo banqueiro Daniel Vorcaro, do liquidado Banco Master, para ameaçar e coagir desafetos e invadir sistemas sensíveis para obter informações sigilosas de investigações.
Mais cedo, a Polícia Federal prendeu o pai de Vorcaro, Henrique Moura Vorcaro, por suspeita de participação no esquema e por ocultação de patrimônio através de fundos de investimentos geridos pela corretora Reag. A empresa foi liquidada no começo do ano pelo Banco Central e estaria envolvida, ainda, com a facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC).
Na decisão que autorizou a terceira fase da Operação Compliance Zero, deflagrada em março e que revelou a existência do grupo, o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), o classificou como uma “milícia privada”.
Vorcaro ordenava ações contra desafetos em um grupo de WhatsApp chamado de “A Turma”, e que era comandado por Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, conhecido como “Sicário” – ele tentou se matar na prisão horas após de ser detido e morreu dias depois.
Segundo as investigações, o grupo e atuava para obter informações, monitorar pessoas e levantar dados “considerados relevantes para os interesses do grupo”, como a execução de atividades e mobilização de equipes para a extração de informações de testemunhas, ex-funcionários e jornalistas.
A manutenção da “milícia privada” custava R$ 1 milhão ao mês e era realizada pelo cunhado de Vorcaro, o pastor e empresário Fabiano Zettel.
“Identificou-se a emissão de ordens diretas de Daniel Vorcaro para que fossem praticados atos de intimidação de pessoas (dentre as quais, concorrentes empresariais, ex-empregados e jornalistas) que seriam vistas como prejudiciais aos interesses da organização, e com vistas à obstrução da Justiça”, escreveu Mendonça ressaltando que o banqueiro teria tido acesso prévio a informações sensíveis.
A investigação apontou, ainda, que Mourão utilizou credenciais reservadas de terceiros para acessar bases de dados de instituições de segurança pública e de investigação policial. “O investigado teria obtido acesso indevido aos sistemas da própria Polícia Federal, do Ministério Público Federal, e até mesmo de organismos internacionais, tais como FBI e Interpol”, afirmou.
Ainda segundo a apuração, Mourão invadiu sistemas da Justiça Federal ainda em primeira instância e repassou as informações ao banqueiro quatro meses antes de ele ser preso pela primeira vez, no final do ano passado. Os dados incluem prints, fotos e documentos em PDR encontrados no aparelho celular do banqueiro apreendido durante a operação.
Há a suspeita de que os acessos clandestinos podem ter começado antes mesmo de julho, mas se intensificaram a partir do momento em que as investigações avançaram e ganharam corpo. Sicário teria ampliado as invasões utilizando senhas oficiais de integrantes da Procuradoria-Geral da República (PGR) e burlado sistemas de segurança.
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“Quebrar todos os dentes” de jornalista
Em uma das trocas de mensagens entre Vorcaro e Mourão, o banqueiro manda realizar um ato de violência contra um jornalista – que não teve o nome divulgado, mas que se apurou ser Lauro Jardim, do jornal O Globo, confirmado pela própria publicação e repudiada em nota (veja mais abaixo):
MOURÃO: Esse [...] bate cartão todo domingo? hrs hein Lanço uma nova sua? Positiva
DV: Sim
MOURÃO: Cara escroto.
DV: Tinha que colocar gente seguindo esse cara. Pra pegar tudo dele.
MOURÃO: Vou fazer isto.
DANIEL VORCARO (DV): “Esse [...] quero mandar dar um pau nele. Quebrar todos os dentes. Num assalto”.
Mourão consente com o pedido e pede para confirmar: “Pode? Vou olhar isso...”, ao que Vorcaro responde: “Sim”.
"A partir de todos esses diálogos, verifica-se a presença de fortes indícios de que Vorcaro determinou a Mourão que forjasse um assalto, ou simulasse cenário semelhante, para prejudicar violentamente o jornalista em questão e, a partir do episódio, calar a voz da imprensa que ousasse emitir opinião contrária aos seus interesses privados,", escreveu Mendonça.
O documento também registra ameaças de Vorcaro a um chef de cozinha e a uma empregada, entre seus funcionários.
Um terceiro integrante do grupo, o policial federal aposentado Marilson Roseno atuava como um dos principais operadores deste núcleo de coerção, segundo Mendonça. Ele utilizaria sua experiência e contatos decorrentes da carreira policial para auxiliar na obtenção de dados sensíveis e na realização das atividades determinadas por Vorcaro.
"Sua participação era voltada à coleta e compartilhamento de informações que pudessem antecipar ou neutralizar riscos decorrentes de investigações oficiais ou da atuação de jornalistas, ex-funcionários e outros indivíduos considerados críticos às atividades do grupo", completou o ministro.












