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Literatura

A arte de produzir estados mentais alterados

O ex-quadrinista e escritor Lourenço Mutarelli faz palestra e autografa o seu mais recente romance em Curitiba

Fragmento de O Dobro de Cinco, HQ que lançou o personagem Diomedes, um grande ilusionista, também no detalhe ao lado |
Fragmento de O Dobro de Cinco, HQ que lançou o personagem Diomedes, um grande ilusionista, também no detalhe ao lado (Foto: )
Mutarelli analisa que há relação mais do que direta entre arte e

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Mutarelli analisa que há relação mais do que direta entre arte e

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Estado mental perturbado. Isso é o que acontece no imaginário, e se reflete nas ações, de Júnior, o protagonista do romance A Arte de Produzir Efeito sem Causa, de Lourenço Mutarelli. É a respeito desse assunto, e muito mais, que o escritor deve falar hoje, a partir das 19h30, na revistaria Itiban, em Curitiba. "Já faz parte da minha tradição", diz Mutarelli, sobre o fato de conversar com o público curitibano na loja especializada em HQs. "Lanço, autografo e converso na Itiban há pelo menos uma década", completa. E estado mental perturbado, relacionado com arte, é tema recorrente no imaginário de Mutarelli.

De 1988 a 1990, o desenhista, hoje principalmente escritor, sofreu de depressão profunda. "Fiquei três meses prostrado. Naquele tempo, quase perdi a minha identidade." A temporada no "inferno", desde então, vem alimentando a produção mutarelliana. "É ali (naquela temporada ruim) que bebo e de onde tiro subsídios para elaborar as minhas obras." No entanto, Mutarelli tem refletido a respeito dessa experiência negativa e sobre o "uso" que ele faz dela. "Será que faz bem eu retornar a esse 'inferno' para exorcizar o mal? Será mesmo que preciso compartilhar isso com os leitores?", questiona-se Mutarelli, em meio à entrevista que concedeu à Gazeta do Povo.

A exemplo do que o autor comenta, a sua ficção – no caso, o enredo de A Arte de Produzir Efeito sem Causa – compartilha um estado mental perturbado, o do protagonista, com os leitores. Júnior é traído pela mulher, pede demissão do emprego e vai morar no apartamento de seu pai. Lá, praticamente desiste de viver – e toda uma desarticulação do que se pode ser chamado "normalidade" acontece com ele. Certas correspondências, sem emissário definido, mudarão não apenas a trajetória do personagem-centro, como a de seu pai e de uma jovem mulher que aluga um dos quartos do imóvel. A trama, forte, tende a perturbar eventuais leitores. O limite entre o que seria real e o inacreditável é tênue, se é que existe.

Rota-vida

A Arte de Produzir Efeito sem Causa, entre outras problematizações, discute o que é ou pode ser arte e o próprio artista. Mutarelli, por sua vez, também questiona isso. Debutou nos quadrinhos em 1991 com Transubstanciação. Produziu 11 álbuns de HQs. Até que, em 2002, trilhou veredas literárias com o romance O Cheiro do Ralo. Posteriormente, escreveu três outras longas narrativas: O Natimorto, Jesus Kid – ambas de 2004 –, e este Arte de Produzir Efeito sem Causa. Agora, acaba de atuar – como protagonista – na adaptação cinematográfica de seu segundo romance, O Natimorto (já adaptado para o teatro). "Quero dizer que sou autodidata em tudo: no quadrinho, na literatura e como ator. Então, será que sou artista?", interroga-se.

Mutarelli diz que desde muito jovem sonhou sobreviver dos quadrinhos. "Por um tempo, consegui. Fui bem-recebido pela crítica e pelos leitores, mas não pelos quadrinistas." Hoje é contratado pela R T Features, empresa que paga salário mensal para que ele produza um livro por ano. "Em geral, os livros tendem a ser adaptados para o cinema." O Cheiro do Ralo, com imensa repercussão nas telas, é um exemplo dessa viabilidade. "E esse livro, que virou filme, tem relação com Curitiba. O escritor e cineasta Valêncio Xavier leu os originais de O Cheiro do Ralo e pediu para fazer o prefácio. Foi o meu batismo na literatura, via Valêncio, o que me honra muito."

Mutarelli conta que foi melhor acolhido no meio literário do que no dos quadrinhos. Tanto que após a passagem por Curitiba, segue rumo ao norte paranaense, onde, no sábado, participa do Festival Literário de Londrina, o Londrix. "Gosto de participar de palestras, bate-papos e de autografar."

Serviço

Lourenço Mutarelli autografa A Arte de Produzir Efeito sem Causa, entre outras obras. Itiban (Av. Silva Jardim, 845). Às 19h30. Entrada franca. Mais informações (41) 3232-5367.

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