"A arte é uma mentira que nos faz perceber a verdade." A frase de Pablo Picasso é uma das leituras possíveis para a exposição O Espelho e Seu Duplo, que o Grupo Sala realiza no Centro Cultural Solar do Barão.
O grupo é formado por artistas que se conheceram no ateliê de gravura do Solar do Barão e descobriram afinidades poéticas. Em 2006, Izabella Zanchi, que assina a curadoria da exposição, organizou a primeira reunião nos fundos do espaço municipal. "Por isso, o nome inicial do grupo era Salaprofunda. Com o passar do tempo, ficou apenas Sala, em referência ao local do encontro", explica Lahir Ramos.
Unidos pela gravura, nem todos os oito artistas são estritamente gravadores. Lahir, por exemplo, decidiu se aventurar pela fotografia na série "Entre Um e Outro", que apresenta na exposição, após verificar que há algum tempo vem buscando subsídios para seu trabalho no espaço urbano.
Ela fotografa muros velhos, escadarias, escombros, enfim, fragmentos da arquitetura urbana, e os alia aos seus próprios desenhos em meio digital. "Tudo somado, a artista se encarrega de traduzir em obra o encontro definitivo entre realidade e arte, ou melhor, entre cidade e gravura", escreve o crítico Artur Freitas no catálogo da exposição.
A realidade e a arte espelhadas, aliás, norteiam a mostra por sugestão de Izabella Zanchi. "As obras foram feitas a partir desse tema, mas os artistas continuam mostrando seus trabalhos de forma individual, particular", explica Julcimarley Totti. Ela espalhou em uma das salas serigrafias de delicadeza ímpar, aplicadas diretamente na parede, que exigem atenção do público para serem notadas.
São figuras infantis que a artista resgata de seu baú familiar. "Desenho tios e primos que nunca conheci, a partir de fotografia antigas, e transformo em gravura", conta. Numa das gravuras, feita em metal, as figuras apagadas pelo tempo vão se tornando visíveis pelos contornos pretos em algumas partes do relevo.
A fotografia, aliás, também aparece nas obras de Maria Lúcia de Julio e José Roberto da Silva. A primeira coloca, lado a lado, imagens técnicas pequenos galhos de árvores escaneados e manuais os mesmos galhos reproduzidos na litografia. "Nos vemos diante de um mundo dividido, mas conhecido: um mundo onde a impessoalidade da máquina precisa conviver com a identidade inviolável dos nossos corpos", diz Freitas.
José Roberto cria, seja pela gravura ou pela fotografia, imagens com falsa simetria como a de árvores refletidas na água ou um banco de praça cujas metades parecem (mas não são) perfeitamente iguais. Parece querer provar que, como escreve Freitas, "no mundo das imagens, espelhos são como fantasmas: não se deixam registrar".
Dalton Reynaud deu a uma pequena sala o clima de sua própria casa: aplicou uma faixa de flores coloridas na parede, ao longo da qual inseriu pequenas gravuras em caixas de acrílicos com fragmentos de objetos domésticos, como cadeiras, mesas, ferro e até um bule. O artista Valério Cicqueira foi buscar na cidade o material para a produção que apresenta: uma grande chave que usa como uma espécie de matriz criativa, em um conjunto de três obras que remetem à serialidade da gravura.
Fábio Follador apresenta a obra "(...) O Homem à Sua Imagem e Semelhança", um retrato dele mesmo plotado em adesivo perfurado aplicado a um espelho, permitindo ao espectador se ver refletido ali e criando, assim, uma espécie de identificação com o artista. Por fim, Izabella Zanchi apresenta um trabalho bem diverso, formado por uma chapa negra, duas alças funerárias e um texto que trata da morte. "Diante da realidade da morte, a arte afirma e reafirma sua presença e constância, em franca oposição à efemeridade da matéria", reflete o crítico. (AV)
Serviço: O Espelho e Seu Duplo, no Solar do Barão (R. Carlos Cavalcanti, 533), (41) 3321-3269. De segunda a sexta-feira, das 9 às 12 horas e das 13 às 18 horas; sábado e domingo, das 12 às 18 horas. Até 24 de outubro.



