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Música

A engenharia da canção

Francis Hime fala dos 45 anos de sua primeira parceria com Vinicius de Morais, revela projetos e anuncia relançamento de sua discografia completa.

Francis Hime acaba de lançar o disco Álbum Musical 2, segundo volume de seu songbook, interpretado por grandes vozes nacionais | Leo Aversa
Francis Hime acaba de lançar o disco Álbum Musical 2, segundo volume de seu songbook, interpretado por grandes vozes nacionais (Foto: Leo Aversa)
Francis Hime (à esquerda de Nelson Motta, de gravata), cercado pelo primeiro time da MPB na década de 1960 |

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Francis Hime (à esquerda de Nelson Motta, de gravata), cercado pelo primeiro time da MPB na década de 1960

Paulinho da Viola foi um dos parceiros de Francis Hime |

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Paulinho da Viola foi um dos parceiros de Francis Hime

Francis Hime era um rapazola da zona sul carioca que gostava de tocar piano nas festas promovidas por sua mãe, a pintora Dália Antonina. Num desses concorridos saraus domésticos, enquanto dedilhava uma de suas composições favoritas, "Valsa para Eurídice", do musical Orfeu do Carnaval, foi interpelado por ninguém menos do que o autor da peça teatral, Vinicius de Moraes.

Amigo da mãe de Francis, o compositor ficou impressionado diante do talento de pianista do adolescente, na época com 17 anos, e vaticinou: "Esse garoto tem que ser músico". Francis começara a estudar música aos 6 anos de idade, com a professora Carmem Manhães, ingressando depois no Conservatório Brasileiro de Música, onde permaneceu durante sete anos. Tinha, portanto, uma formação à altura do comentário de Vinicius.

Mas o rapaz, desafiando a profecia do diplomata poeta, tinha outros planos de vida e partiu para Lausanne, na Suiça, onde estudou Engenharia Civil entre 1955 e 59. Enquanto isso, no Rio de Janeiro, a bossa nova entrava em ebulição. Ao retornar ao Brasil, na virada da década de 60, Francis acabou sendo "intoxicado" pelos vapores inebriantes do movimento.

Petrópolis

Não foi à beira do mar de Ipanema, contudo, que o jovem engenheiro rendeu-se ao canto de sereia da bossa nova, mas na Serra Fluminense, região onde sua família tinha uma residência de campo. Em entrevista exclusiva à Gazeta do Povo, Francis Hime conta que, em 1962, começou a freqüentar as animadas reuniões musicais realizadas na casa de Petrópolis de Vinicius de Moraes. Foi nesses encontros, regados a muito uísque, banquinho e violão, que o também promissor pianista, então com 20 e poucos anos, conheceu Carlos Lyra, Baden Powell, Edu Lobo, Dori Caymmi, Wanda Sá, Marcos Valle, entre outros. "Não havia como resistir a tal chamado." É dessa época sua primeira parceria com Vinicius, a canção "Sem Mais Adeus", gravada pela primeira vez por Wanda Sá, em 1963. Ou seja, há 45 anos.

No ano em que a bossa nova completa meio século, Francis diz que não seria o mesmo sem o movimento mais importante da história da MPB. Sente-se lisonjeado por ser considerado integrante de uma espécie de segunda geração dessa "onda que se ergueu no mar". Mas diz que, mesmo sem ela, a música nacional teria dado um jeito de se renovar, surpreender e se impor ao mundo.

Canção de Natal

Em comemoração aos 45 anos de sua primeira parceria com Vinicius, que rendeu duas dezenas de canções, Francis anuncia que está para nascer mais uma dessas crias. "Musiquei um poema dele para um disco de temática nataliana que a Biscoito Fino [gravadora carioca dirigida pela mulher de Francis, a cantora Olívia Hime] lança no fim do ano. Gravei a canção com a Leila Pinheiro."

Como não escreve letras, Francis Hime tem enorme carinho por seus parceiros. Além de Vinicius, a lista é extensa. Talvez o mais mais significativo seja Chico Buarque, ao lado de quem escreveu clássicos como "Meu Caro Amigo", "Trocando em Miúdos", "Pivete", "Atrás da Porta" e "Amor Barato", que acaba de ser regravado por Zeca Pagodinho para o Álbum Musical 2, que deu seqüência ao projeto iniciado em 1997, dentro do qual grandes intérpretes brasileiros cantam composições de Francis, "Desta vez escolhi músicas menos conhecidas, mais ‘lado B’, escritas entre os anos 60 e 80", diz o músico. No CD, recém-lançado pela Biscoito Fino, estão intérpretes como Adriana Calcanhotto, Mart’Nália, Ivete Sangalo, Moska, Lenine, Luís Melodia, Renato Braz.

Flerte

O parceiro mais recente – e constante – de Francis é o poeta Geraldo Carneiro, com quem criou boa parte das faixas de A Arquitetura da Flor (2006), seu mais recente CD de canções inéditas. Dessa união, já brotaram muitos outros frutos, que serão reunidos em um álbum a ser gravado em 2009, ano em que Francis completa 70 anos e quando sua discografia completa deverá ser relançada numa caixa comemorativa. Quando indagado sobre que outros letristas, além de Carneiro, gostaria de cortejar para o novo álbum, Francis – entre riscos e admitindo se trata mesmo de um tipo de flerte, de namoro – fala em Caetano Veloso, Guinga, Erasmo Carlos e Luiz Carlos da Vila. Haja coração!

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