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A fantasia masculina transformada em crueldade

Modelos de perfeição estética vigentes condenam mulheres à frustração e ao sofrimento

Numa época em que a força de expressão mais forte é a imagem, só existe uma imagem do corpo feminino: ele é lindo, rigorosamente perfeito, artificialmente tentador. Ele só existe na mídia e na publicidade. Não são exibidas ao natural nem mesmo aquelas mulheres que compõem a porcentagem estatisticamente insignificante das que se enquadram no padrão de perfeição atual. Costas exageradamente curvadas (para salientar o bumbum e esticar a pele das pernas), boca entreaberta de modo a parecer maior, todos os fios de cabelo no lugar. Na mídia, elas são mais perfeitas do que elas mesmas. De tão artificiais, essas imagens não deveriam servir de referência para ninguém.

Mas são a única referência e vêm sendo exibidas há tanto tempo que, para algumas gerações, tornou-se inquestionável que se pode fazer qualquer coisa para entrar para esse grupo. Para provar, estão aí as clínicas com muitas adolescentes se submetendo a cirurgias que modificam seus corpos. Para que o sacrifício? Para não se sentir excluída, para se sentir desejada, para ser reconhecida como mulher.

A crueldade é assimilada e se torna invisível se ela é imposta por um longo tempo pela maioria que manda. Pior ainda se a minoria que sofre a crueldade não reagir. Por isso o aspecto cruel que existe na forma como a imagem do corpo feminino vem sendo tratada não é nem notado. A imagem pública deste corpo é a de um objeto que está no mundo para servir o sexo oposto e cuja vida útil é curta. Em sociedades desiguais como a brasileira, em que o machismo – como o racismo – não é assumido (assim evita-se falar dele e enfrentá-lo e tudo continua do jeito que está), a reação da mulher à manipulação da imagem de seu corpo é patética.

Assimila-se os modismos com uma ansiedade sôfrega por se chegar lá, cria-se novos sacrifícios que funcionarão como senhas para o mundo de exclusividade: cabelos lisos e preferencialmente louros, peitos enormes, nenhum pelo no corpo, coxas torneadas que revelam a musculatura, rosto sem manchas nem rugas. Como uma boneca de plástico. Perfeita. Mereceu chegar lá. Alguma vantagem terá. Não é a toa que a contribuição brasileira para o Maravilhoso Mundo das Barbies se caracteriza pela dor que causa para as usuárias: a depilação de 98,99% do corpo. Até batizamos a novidade: Brazilian waxing! Não precisava ser assim. Em países europeus em que tendências comerciais e modismos que interferem na liberdade das pessoas são mais fiscalizados, há uma contra-ofensiva. Modesta, mas ela existe. Questiona-se a artificialidade da publicidade, cobra-se que pessoas maduras substituam as adolescentes como modelos de produtos que serão usados por... consumidoras maduras.

O homem brasileiro, que em teoria seria o beneficiário dessa cultura da coisificação do corpo da mulher, sai perdendo, sem se dar conta. Ele convive com uma gigantesca oferta de corpos femininos em exibição em qualquer banca de revista ou canal de tevê, corpos que estão lá para atraí-lo e excitá-lo. É com essa imagem na órbita que se lança ao mundo real, com pessoas de verdade. E ele dará bolas fora, será cruel sem pretender, falará besteiras que magoam suas companheiras e amigas, irmãs e filhas. Ele também persegue o modelo falso do corpo feminino de vida curta, cada vez mais parecido com o de uma menina na puberdade. É um modelo que nasce do que já existe na mente masculina, um modelo que captura tendências de comportamento ancestrais do homem, mas amplifica e distorce todas elas.

Porque o corpo humano é vivo e pulsante. Como tudo o mais que faz parte da natureza, não será igual ano após ano, vai ganhar cicatrizes e marcas, vai ser o que a genética determinou que seja. E é por vê-lo e senti-lo e saber que outros nos veem e nos sentem que nos certificamos de que estamos vivos.

É o corpo que expressa total e continuamente o amor e o interesse pelo outro. Por isso é cruel que haja tão pouca generosidade com o corpo de 50% da população do planeta. Que sua possibilidade de expressão seja tão tolhida pela falta de interesse em saber como ele realmente é. Que a imagem dele que se propaga seja uma mentira. Ninguém está calculando o mal que se faz ao ser cúmplice dessa piada.

Marleth Silva é Jornalista da Gazeta do Povo.

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