
Sinuoso. Apto a gerar outros. Também a dedicar horas a fio a atividades artísticas, esportivas e intelectuais. Não se pode definir o corpo feminino em poucas linhas nem se pensaria em fazer o mesmo com o do homem. E, contudo, o imaginário sobre a mulher é limitado e não permite tanta diversidade. A associação com a sexualidade suplanta qualquer outra. Seu corpo é objeto erotizado. Tem de ser jovem, magro, sedutor, para a venda nas bancas de revistas, redes pornográficas, nas telas e em anúncios publicitários.
Se seguir os padrões das divas de Hollywood, que espantam espectadores com ossos cada vez mais aparentes, o corpo deve margear a anorexia. Ou ser inflado, como o das que competem pelo recorde de litros de silicone e não apenas nos seios. Modelos extremos, sim, mas que fixam no imaginário feminino e masculino um ideal de beleza inatingível.
Amanhã é comemorado o Dia Internacional da Mulher. Ironicamente, um dia depois (9 de março), se fosse possível retornar 50 anos no tempo, voltaríamos à fabricação da primeira boneca Barbie. Símbolo de uma geração, a moça de plástico de medidas irreais serviu a incontáveis garotas como a materialização, miniaturizada, de "o-que-eu-quero-ser-quando-crescer". Foi atacada, subvertida, envelheceu mal. Ganhou versões mais democráticas, cintura mais larga, seios menores, nada que altere o fato de que é uma cinquentona em crise. Nem a Barbie resiste ao tempo?
Foi substituída, talvez. Se suas formas regiam a fita métrica das garotas até uma década atrás, foi destronada por outro ditador: a possibilidade de manipulação de imagens. Já era difícil conviver com a projeção de beleza da boneca de plástico, como será enfrentar diariamente a perfeição sobrenatural de mulheres supostamente reais? Retoques, retoques e mais retoques. A pele perde linhas de expressão, marcas e poros. A barriga e as pernas diminuem de largura. Os peitos crescem. Nenhuma imperfeição sobrevive. E as naturalmente lindas atrizes e modelos se transformam em musas impossíveis, que perturbam a autoestima das comuns, que tentam, o quanto podem, aproximar-se delas recorrendo à tortura das dietas, bisturis e botox.
Dicotomia
Um dos problemas em manter essa associação da mulher ao corpo sexual é que essa aproximação traz, acoplada, a associação do sexo masculino com a mente, e reforça uma dicotomia que as feministas se esforçaram tanto em desfazer. A filosofia ocidental estabeleceu o desprestígio do corpo (terreno, pecaminoso) em relação à mente (elevada). A conclusão à qual esses pares mente/corpo e homem/mulher podem levar é clara: a desvalorização feminina.
O antropólogo Pierre Bourdieu, morto em 2002, deixou escrito em "A Dominação Masculina" que a violência simbólica sobre o corpo feminino faz com que as mulheres aceitem imposições sem questioná-las, como se fossem naturais. Mas um corpo não é só obra da biologia. É construído socialmente, um posicionamento no mundo. Em uma sociedade ainda machista, portanto, o poder masculino deixa marcas nos corpos do sexo oposto. Vergões do espartilho apertado.
No livro Que Corpo É Esse?, a pós-doutora em Psicologia Social Elódia Xavier discute as representações dos corpos femininos na literatura escrita por mulheres. Sua análise é classificatória. Chega a uma tipologia de corpos, entre os quais está o "refletido": aquele que quer espelhar o padrão estético dominante e acaba por se tornar escravo do mito da beleza. O mais positivo entre os tipos é o "liberado", que pertence a uma mulher livre de coerções, inventando sua própria história.
Assim como a literatura, o cinema é fonte rica para se pensar sobre o imaginário da mulher. A psicanalista Ana Lucília Rodrigues observou os filmes do principal cineasta espanhol e escreveu o livro Pedro Almodóvar e a Feminilidade. "Ele trabalha com mulheres reais. Suas personagens não primam por um padrão de beleza", comenta, lembrando da personagem Kika (vivida por Victoria Abril) e da atriz Rossy de Palma.
Na comparação entre as duas realidades, a brasileira e a espanhola, Lucília reconhece que as mulheres de lá são mais reprimidas, enquanto as daqui são mais erotizadas.
"A mulher está vestindo outro espartilho. No século retrasado, era um espartilho tirado à noite. A atual passa o dia e dorme com ele. É um espartilho metafórico, porque ela está amarrada a muitos ideais", critica, ressaltando que, com essa atitude, a mulher não pretende agradar apenas aos homens, mas também superar as outras. "Acaba sendo uma competição por qual cumpre melhor o ideal de feminilidade. Triste destino para o qual a mulher está caminhando. Ela não acha que possa ter lugar no mundo se não for igual a esse ideal".
Pensar que a revolução sexual as tornou donas do próprio desejo é, segundo a psicanalista, um engano. "A mulher acha que está sendo desejante, mas não está. Ela continua nesse lugar de objeto. Talvez a gente esteja precisando de uma nova revolução. Acho que estamos precisando pôr um pouco de sutiã agora", conclui a psicanalista.
Intelectual feminista de atuação intensa, Rose Marie Muraro lamenta a tendência à padronização das formas imposta pela mídia, mas insiste que a realidade é diferente. "As revistas femininas tentam, fazem um mal danado à mulher, mas a realidade é tão mais dura, que desmente isso. Não adianta a mídia querer reduzir o corpo da mulher a dimensões sexuais, se não são só essas. Talvez, quando se tem 19 anos, a garota ache ótimo, mas quero ver aos 50. A gente tem que criar um corpo com energia sexual e vital para chegar aos 60. Tenho visto muitas mulheres dessa idade que conseguiram", diz Rose Marie.



