Encontre matérias e conteúdos da Gazeta do Povo
Miles Davis

A miragem modal

Obra-prima de Miles Davis, Kind of Blue é um dos discos mais vendidos da história do jazz

Miles Davis em estúdio, durante o processo de gravação de Kind of Blue | Don Hunstein/ Sony-BMG Music
Miles Davis em estúdio, durante o processo de gravação de Kind of Blue (Foto: Don Hunstein/ Sony-BMG Music)
Miles:

1 de 1

Miles:

Veja também

Quando Miles Davis juntou seu sexteto para gravar numa antiga igreja armênia convertida em estúdio, na Rua 30, no coração de Manhattan, ninguém poderia prever a importância histórica do momento. O LP feito em 2 de maio e 22 de abril de 1959, Kind of Blue, se tornaria não só uma obra-prima cultuada por jazzófilos ao longo de meio século, como um dos álbuns mais vendidos do jazz (cerca de 3 milhões de cópias só nos EUA, 5 milhões no mundo inteiro).

O baterista Jimmy Cobb, único sobrevivente da gravação, disse, aludindo à paixão do trompetista por carros-esporte: "Se Miles soubesse disso, ele teria exigido pelo menos duas Ferraris de adiantamento..."

Depois das sessões do cool, o trompetista saiu do frio e aderiu ao hard bop, o estilo oficial da década de 1950. Formou vários pequenos grupos, usando saxofonistas veteranos como Lucky Thompson e o próprio Charlie Parker (que tocou tenor num de seus LPs), e revelando novas estrelas como os altos Jackie McLean e Cannonball Adderley e os tenores Sonny Rollins e John Coltrane. Adderley e Coltrane eram os titulares nesta ocasião e Davis tinha contratado um pianista novo, Wynton Kelly, que acabou participando de uma só das cinco faixas longas. Ocorre que Miles já havia montado todo o trabalho em função do pianista Bill Evans.

Muito se teorizou sobre esta primeira incursão de Miles na música modal, com a qual ele já havia flertado em Milestones. Segundo o New Grove Dictionary of Jazz, no jazz modal "escalas modais (ou suas características gerais) ditam o conteúdo melódico e harmônico."

Miles diz que buscava "um outro tipo de som que se lembrava de ter ouvido em Arkansas, quando caminhávamos de volta para casa depois da igreja onde tocavam aqueles gospels incríveis." Nas notas da contracapa do álbum, o pianista Bill Evans descreve graficamente a atmosfera da música: "Existe uma arte visual japonesa em que o artista é forçado a ser espontâneo. Deve pintar sobre um pergaminho fino e esticado com um pincel especial e tinta de aquarela preta de tal maneira que, se a pincelada não for natural, ou se for interrompida, destruirá a linha e romperá o pergaminho. (...) Estes artistas devem se expressar em comunicação com suas mãos de um modo tão direto que a deliberação não possa interferir. (...) Esta convicção de que a ação direta é a reflexão mais significativa propiciou a evolução das disciplinas extremamente severas e únicas do músico de jazz ou do músico improvisador." Satori! O jazz é zen!

Miles explica em sua autobiografia: "Eu não compus a música de Kind of Blue, apenas trouxe uns esboços do que todo mundo deveria tocar, porque eu queria muita espontaneidade na interpretação." Esse tipo de esquema só poderia ter funcionado com músicos geniais como Evans, Adderley e Coltrane, totalmente sintonizados com a cabeça de Miles.

O entrosamento dos sopros na exposição dos temas, a perfeição dos solos individuais, como os de Miles, Evans e Coltrane em "Blue in Green"; de Cannonball e Coltrane em "All Blues"; de Miles e Evans em "Flamenco Sketches"; o apoio ao mesmo tempo sólido e suave de Paul Chambers ao baixo e Jimmy Cobb à bateria, imprimem a esta música uma qualidade etérea.

A ordem, ao mesmo tempo vaga e precisa, de Miles para Cobb, foi de que fizesse a bateria "flutuar". E a maior parte do tempo a música de Kind of Blue flutua, como a miragem de um oásis verdejante no meio de um deserto árido.

O álbum mexeu fundo com músicos de jazz, como Herbie Hancock ("Quem é tocado por esta música muda para sempre e se torna melhor do que é.") e Quincy Jones ("Ouço todo dia, é o meu suco de laranja do café da manhã.") E também com roqueiros como Duane Allman e Carlos Santana, que admitiam a influência do sopro de Miles em suas guitarras lancinantes; e o tecladista Rick Wright, que injetou frases de Kind of Blue na obra maior do Pink Floyd, The Dark Side of the Moon.

Comemorações, como as edições especiais de Kind of Blue para colecionadores (leia texto na página 3), e a turnê Kind of Blue @ 50, liderada pelo baterista Jimmy Cobb, 80 anos, com um sexteto que revisitará os temas do álbum (e tocará no Brasil em maio), dão apenas uma pálida medida da importância deste álbum.

Quem talvez resumiu melhor o poder magnético do disco foi o crítico Robert Palmer, nas notas da versão em CD: "Kind of Blue sempre parece ter mais para dar. Se continuamos a ouvi-lo, repetidamente, ao longo de toda uma vida – é talvez porque sentimos que ainda existe mais, algo ainda não ouvido. Ou talvez simplesmente gostemos de fazer visitas periódicas ao Céu."

Principais Manchetes

Receba nossas notícias NO CELULAR

WhatsappTelegram

WHATSAPP: As regras de privacidade dos grupos são definidas pelo WhatsApp. Ao entrar, seu número pode ser visto por outros integrantes do grupo.