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Miles Davis

Do Cool ao Blue

Em 1949, o trompetista fazia as primeiras gravações da série Birth of the Cool. Em 1959, ele inaugurava sua fase “modal” com o LP Kind of Blue

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Tudo começou na segunda metade dos anos 1940, na Rua 55 Oeste, em Nova Iorque, perto da Quinta Avenida. O pianista e arranjador canadense Gil Evans morava ali, num porão, atrás de uma lavanderia chinesa. O apartamento era pequeno, forrado pelo encanamento do prédio, com uma pia, uma cama, um piano, uma chapa elétrica e nenhum aquecimento. Mas o brilho dos frequentadores o transformou num templo.

"Todo mundo parecia gravitar no apartamento de Gil," lembrava Gerry Mulligan. "Nós todos influenciávamos uns aos outros e Charlie [Bird] Parker influenciava a todos." Mas o errante Parker logo saiu de cena e o grande guru daquela plêiade de jazzistas ficou sendo o dono do apartamento, Gil Evans. Foi lá que o trompetista Miles e Gil começaram uma das colaborações mais profícuas e felizes para a história do jazz. O próprio Miles descreveu o encontro: "Conheci Gil quando eu tocava com Bird e ele me pediu que publicasse Donna Lee, um tema meu... Falei que ele podia ficar com a música e pedi que me ensinasse alguns acordes e me deixasse estudar algumas partituras que ele estava fazendo para Claude Thornhill."

Por volta de 1948, Gil havia deixado a orquestra de Thornhill e Miles não tocava mais com Parker. Os músicos que se reuniam no apartamento de Gil buscavam uma nova linguagem musical. O bebop havia criado o jazz moderno mas, em menos de cinco anos, foi congelado num formato rígido. Surgiu a ideia de um noneto que incluía instrumentos fora da convenção jazzística: trompa e tuba, ao lado de trompete e trombone, dois saxofones (alto e barítono), piano, baixo e bateria.

Miles afirmou: "Eu via o grupo como um coral, queria que os instrumentos soassem como vozes humanas." Já em setembro de 1948, o noneto – então conhecido como The Tuba Band – teve seu batismo de fogo numa temporada de duas semanas no Royal Roost de Nova Iorque, dividindo o programa com a banda de Count Basie. Felizmente, restaram registros que, embora de qualidade precária, antecipam o som que seria gravado em estúdio quatro meses depois. Estas primeiras gravações só seriam feitas graças à persistência de Walter Rivers, que dirigia os escritórios da Capitol em Nova Iorque.

Gravação

Em 21 de janeiro de 1949, o noneto gravou quatro faixas, que faziam parte do repertório da Tuba Band, com a participação de seis músicos da temporada no Royal Roost: Miles (trompete), Bill Barber (tuba), Junior Collins (trompa), Gerry Mulligan (sax barítono), Lee Konitz (sax alto) e Max Roach (bateria). Miles queria Sonny Stitt para sax alto, mas Mulligan o convenceu a contratar Konitz, porque tinha um som leve e não um som de bebop. Na sessão de 22 de abril, outros quatro temas foram gravados, com mudanças no elenco: J.J. Johnson no lugar de Kai Winding (trombone), John Lewis de Al Haig (piano), Nelson Boyd no de Joe Schulman (baixo); Sandy Siegelstein (trompa) e Kenny Clarke (bateria). Na terceira e última sessão, em 9 de março de 1950, Gunther Schuller assumiu a trompa, Al McKibbon, o baixo, Max Roach volta à bateria, e Kenny Hagood foi o vocalista na única faixa cantada das 12 ("Darn That Dream"), todas gravadas em Nova Iorque.

Apesar de ser a inspiração maior destas sessões, Gil Evans fez apenas dois dos 12 arranjos: o standard "Moon Dreams" e "Boplicity", composição que Miles achava a melhor coisa de todas as sessões e colocou no nome de sua mãe, Cleo Henry, porque a queria publicada numa outra editora. Gerry Mulligan fez os arranjos de "Godchild" (tema do pianista George Wallington), de seus originais "Venus de Milo" e "Rocker", e do standard "Darn That Dream". O pianista John Lewis arranjou "Budo" (do pianista Bud Powell) e seu tema original "Rouge". John Carisi orquestrou seu próprio tema, "Israel", e Miles fez o arranjou do seu próprio, "Deception".

As faixas chegaram ao mercado espaçadamente, na forma de discos em 78 rotações. Nunca se chegou a mencionar a palavra cool até o ano de 1957, quando a Capitol – que havia comercializado oito das gravações num LP de dez polegadas – lançou todas as gravações (menos a faixa vocal) num LP de 12 polegadas intitulado Birth of the Cool. O título muito provavelmente foi criado por Pete Rugolo, arranjador da Califórnia que trabalhava na Capitol e foi o responsável pela edição do álbum.

Marca

A essa altura, aquelas gravações de 1949-50 já haviam dado frutos e deixado a sua marca no jazz da década de 1950. De Birth of the Cool surgiram:

• Os pequenos grupos de Miles Davis e suas colaborações orquestrais com Gil Evans, que vão de Miles Ahead (1957) a Quiet Nights (1962).

• O quinteto de dois trombones JJ&K, de J.J. Johnson e Kai Winding.

• O quarteto sem piano de Gerry Mulligan e Chet Baker.

• O Modern Jazz Quartet, iniciado por John Lewis e Kenny Clarke.

• O quinteto de Max Roach com o trompetista Clifford Brown.

• Os pequenos grupos e os nonetos de Lee Konitz.

• Os nonetos e similares da West Cost liderados por Shorty Rogers e Gerry Mulligan e as gravações de Chet Baker e de Art Pepper com big band.

• O movimento de fusão do jazz com o erudito, batizado de Third Stream Music, liderado por John Lewis e Gunther Schuller.

Em julho de 1991, três meses antes de morrer, Miles fez uma apresentação triunfal no Festival de Jazz de Montreux com as orquestras de Gil Evans e de George Grunz, sob a regência de Quincy Jones, revisitando o repertório de Birth of the Cool e das gravações com a orquestra de Gil Evans.

Em 1992, Gerry Mulligan regravou as 12 faixas originais num CD sob o nome de Re-Birth of the Cool, com a participação de três veteranos: ele mesmo, o pianista John Lewis e a tuba de Bill Barber. E levou a banda em excursão internacional, apresentando-se até no Free Jazz brasileiro.

Nas notas de capa, o crítico Leonard Feather destaca apropriadamente: "O conceito de Birth of Cool (que, na verdade, não era tão frio como o nome implicava) continua vivo, 40 anos depois que Miles, Gil, Gerry e seus companheiros de sonhos colocaram em disco suas ideias inovadoras. Deveríamos acrescentar que o cool não renasceu, uma vez que, para todo aquele que se lembra de sua glória imaculada, ele nunca realmente foi embora!".

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