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Homem segura pedra enquanto corre da polícia | REUTERS/Siphiwe Sibeko
Homem segura pedra enquanto corre da polícia| Foto: REUTERS/Siphiwe Sibeko
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Novela

Poeira Fria

Carlos Machado. Arte & Letra, 98 págs., R$ 28.

A música e a literatura nunca caminham muito longe uma da outra na obra do escritor, compositor e professor curitibano Carlos Machado. Em seu quarto livro, a pequena novela Poeira Fria, o escritor trata de temas sombrios num balanço de meia-idade, em que passa em revista a derrocada de sua própria família e a aniquilação de seus sonhos juvenis. Temas e tons muito próximos de seu último disco solo, Longe, lançado também neste ano. "Escrevi Poeira Fria ao mesmo tempo em que compunha as músicas desse disco", conta, explicando a proximidade.

O escritor, que compara os contos de seus livros A Voz do Outro e Nós da Província: Diálogos com o Carbono às faixas de um disco, diz que, assim como muitos outros, tem uma necessidade de que essas artes andem em paralelo. "Tenho muitos parceiros na música aqui que também escrevem, como o [Luiz Felipe] Leprevost, o Fernando Koproski... desde Paulo Leminski, Curitiba tem essa tradição de escritores e compositores."

E de fato, referências musicais se espalham por Poeira Fria na três vias narrativas de um mesmo narrador, que fala para si sentado em uma poltrona (retratada na capa), recria sua infância para seu analista e pesa as dores de sua vida em um fluxo de consciência, narrado em itálico. A banda da adolescência que prometia e não deu certo, discos e músicas que figuram em retratos do cotidiano do protagonista, marcado pelo alcoolismo na família, o medo de morrer de câncer e a culpa por nunca ter comprado um carro para levar a avó ao supermercado.

A marca da cidade também é importante na literatura de Carlos Machado. Curitiba está presente em toda a obra do escritor e, por essa razão, ele conta que queria que este livro fosse publicado por uma editora curitibana, a Arte & Letra. "O cenário sempre é Curitiba, os eventos acontecem na Praça Osório, e em outros lugares característicos da cidade. Talvez os personagens sejam os mesmos. Minha literatura sempre é uma busca pelo entendimento da cidade."

Mais do que o entendimento da cidade, porém, Poeira Fria dialoga com seus outros livros pelo entendimento da finalidade de todas as coisas. "Terminar sempre foi muito difícil pra mim. Não sei terminar. Eu sobreponho. Eu continuo", diz o protagonista a seu analista, após flertar com o suicídio diversas vezes. "O fim de tudo, não só de um relacionamento, mas da história, da morte de parentes, é tudo isso que o protagonista pretende entender", completa Machado.

E por que, afinal, o título Poeira Fria? O escritor associa a imagem à inércia. "Ao mesmo tempo em que ele busca tudo isso, não sai do mesmo ponto. É como uma poeira fria, largada em um canto."

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