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Pignatari: obra permeada por uma verve intersemiótica | Marcelo Elias/Gazeta do Povo
Pignatari: obra permeada por uma verve intersemiótica| Foto: Marcelo Elias/Gazeta do Povo

Em Haroldo, Irmão Siamesmo, depoimento concedido por ocasião do então recente falecimento (2003) de seu irmão Haroldo de Campos, Augusto de Campos afirma: "com Décio Pignatari, poeta-inventor, fanomelogopaico, atrevido e imprevisível, formaríamos o trio-base da poesia concreta e de outras aventuras literárias".

‘Poeta-inventor’; ‘fanomelogopaico’: tais denominações, extraídas do ideário poundiano – inventor seria o autor responsável pela criação de uma nova forma de composição, enquanto que a palavra-valise fanomelogopaico conjuga três modalidades de poesia, quais sejam, a fanopéia (projeção de imagens visuais sobre a mente), a melopéia (palavras impregnadas de som) e a logopéia ("dança do intelecto entre as palavras") – dão conta da verve intersemiótica/interdisciplinar que permeia a obra e o pensamento de Décio Pignatari. Obra e pensamento, aliás, que, em Décio, precisamente por força de suas naturezas intersemiótico-disciplinares – a logopéia a incrustar-se nos seus eminentemente fanomelopaicos poemas concretos, ou a fanopéia a irromper no logos de seu único romance (Panteros), ou nos "fototemas" de seu Errâncias – acham-se irremediavelmente interseccionadas.

Tal intersecção acha suporte em reflexão de punho próprio, extraída de Semiótica da Arte e da Arquitetura, sua tese de livre-docência, na qual o autor começa por atribuir à Revolução Industrial a gênese da modernidade e, por consequência, de duas linhagens teórico-artísticas nascidas de sua eclosão: "a Revolução Industrial abateu-se também sobre a arte e a arquitetura; do impacto, nasceram a arte e a arquitetura chamadas ‘modernas’, com seu chuveiro de ismos e movimentos diversos, uns propondo uma metaarte (neoplasticismo, desenho industrial), outras uma antiarte (Dada, Duchamp)".

A primeira destas vertentes adviria do fato que, "sempre sob a pressão crescente da Revolução Industrial, os artistas já não se satisfazem com as linguagens-objeto que criam e partem para a metalinguagem e a metassignagem – para a elaboração de princípios estéticos, a doutrinação artística, a polêmica, os manifestos, a teoria".

Nos anos de 1950, a poesia concreta seria o momento culminante desta linhagem metalinguística, ou, como quer Décio, ‘metasígnica’. No plano piloto do movimento, lê-se: "poesia concreta: produto de uma evolução crítica de formas". Dando "por encerrado o ciclo histórico do verso", a "tensão de palavras-coisas no espaço-tempo" que caracterizava sua sintaxe "verbovocovisual" operava, no corpus gráfico mesmo do poema, uma crítica às vanguardas do início do século (mormente Dada e Futurismo), as quais haviam operado precisamente na linhagem oposta, qual seja a da ‘antiarte’. Em carta a Haroldo de Campos, o mexicano Octavio Paz ilustra bem este caráter crítico da poesia concreta: "os senhores descobriram – ou inventaram – uma verdadeira topologia poética. À parte dessa função de exploração e invenção, a poesia concreta é por si mesma uma crítica do pensamento discursivo e, assim, uma crítica de nossa civilização."

E a obra de Décio, em sua totalidade – abrangendo, além de sua poesia, seus estudos sobre semiótica, comunicação, cultura, política e estética; sua prosa, sua dramaturgia e suas traduções, além do inclassificável "biobalanço" de Errâncias – é uma obra-pensamento elaborada, toda ela, sob a égide do signo novo, ou seja, aquele que, segundo o próprio Décio, em oposição à informação redundante, previsível, "tende a produzir isolamento, é ‘ininteligível’ à primeira abordagem – por sua raridade e inesperado e pelo fato de ser mais ‘dispendioso’ (para o sistema nervoso, por exemplo)".

No centro desta aventura que é a obra de Décio, uma ciência e seu mestre: a semiótica, de Charles Sanders Peirce. A semiótica é a ciência dos signos – signo aqui entendido como tudo aquilo que está para alguma coisa (o seu objeto) em determinados momentos e sob determinadas condições. Peirce estabelece uma tríade sígnica (ícone, índice, símbolo), baseada na mais conhecida das ligações signo-objeto, qual seja, a do grau de relação entre ambos. Mantendo uma relação de analogia com seu objeto, o ícone é o signo da arte. E da poesia. Décio estabelece uma percucientíssima analogia entre a iconização do símbolo – implicando esta em dizer que quando a palavra escrita ou falada (reino, por tradição, do símbolo) deixa de estabelecer links meramente institucionalizados com outras palavras, cria-se, entre elas, uma relação analógica (paronomásias, aliterações, etc) – e a função poética da linguagem (esta cunhada por Roman Jakobson): "em termos da semiótica de Peirce, podemos dizer que a função poética da linguagem se marca pela projeção do ícone sobre o símbolo – ou seja, pela projeção de códigos não-verbais (musicais, visuais, gestuais, etc.) sobre o código verbal. Fazer poesia é transformar o símbolo (palavra) em ícone(figura)."

E é esta obra-intersemiótica por excelência que está a merecer ser lida. Faz falta um corpo crítico consistente sobre a poética de Décio, a qual, diferentemente das de seus companheiros concretos – Augusto de Campos e Haroldo de Campos – acha-se ainda encoberta pelo limbo que insiste em lhe impor a crítica mais conservadora (notadamente a acadêmica).

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