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Atores usam instrumentos que servem como cabanas, escudos e velas ao mar: cenografia simples e direta | João Caldas/Divulgação
Atores usam instrumentos que servem como cabanas, escudos e velas ao mar: cenografia simples e direta| Foto: João Caldas/Divulgação

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Ifigênia

Teatro José Maria Santos (R. Treze de Maio, 655), (41) 3322-7150. Hoje, às 20h30. R$ 20 e R$ 10 (meia-entrada). Classificação indicativa: 14 anos.

Com o termômetro marcando 7 graus na noite de quinta-feira, os atores da Cia. Elevador de Teatro Panorâmico vestiram seus figurinos de torso nu e aqueceram o palco do José Maria Santos, transposto para um ponto de beira-mar na Grécia onde o vento parou de soprar. A entrega na interpretação dos seis homens e três mulheres injeta vida no mito empoeirado, humanizando os personagens Ifigênia (que dá nome à peça, baseada em Eurípedes), Agamemnon e Clitemnestra, entre outros. O espetáculo faz sua última sessão hoje, às 20h30.

O rei de Argos, Agamemnon, promete ajudar o irmão Menelau a recuperar a esposa, Helena, raptada por Páris e levada a Tróia. Nesse estágio da trama surge a primeira cena, com o coro homogêneo de atores encarnando o espírito de união da missão comum.

Porém, depois que os gregos irritam a deusa Ártemis, os ventos cessam e as barcas não podem partir, deixando os soldados e a honra da Grécia em suspenso. A intervenção divina na meteorologia é representada de forma brilhante (não vamos dar um spoiler para quem for assistir). Delimitando o palco, pequenos tapetes persas fazem as vezes de praia e lembram o distante e temido Oriente.

O mundo só poderá voltar ao eixo, prevê um adivinho, se a filha mais velha de Agamemnon, Ifigênia, for sacrificada num altar do bosque.

Enquanto isso, os figurinos mantêm a plateia em algum lugar do passado. Formados por roupas de combate, nas mulheres eles lembram saias por onde escorre o sangue do parto.

A dramaticidade do texto se intensifica a partir do momento em que o rei passa pela crise de consciência e decide ir adiante com a morte. Quando ele atrai a mulher e a filha com a promessa de um casamento arranjado, os atores passam a funcionar ora como personagens ora como narradores, o que causa no espectador um efeito semelhante a ondas: ele é arrastado para dentro da cena, em que se destaca a atuação de Ana Carolina Fabri, que faz Clitemnestra. Em seguida, vem o corte da ilusão e o mecanismo teatral é explicitado.

Nesse ápice, a escolha de Ifigênia de morrer pela pátria surge um tanto abrupta, instantes depois do pranto revoltado. Enquanto ela é conduzida à espada, dois músicos fora da cena executam a trilha sonora ao vivo, usando diversos instrumentos e estando atentos às possibilidades de improviso dos atores – o que afeta também a luz, feita de acordo com o fluxo da peça.

A partir de seu salvamento pela deusa, que a leva consigo, sabemos que o ódio inspirado no coração da mãe terá sequência na mitologia, com sua própria morte, a do marido e a loucura do filho. "Agamemnon escondeu a verdade de Clitemnestra, ela esconde a verdade do marido", avisa o narrador.

Influenciada pelo melodrama ou não, a abnegação de uma garota serve nesse frio como um raio de Sol, quente sobre a face, fazendo esquecer as mazelas do individualismo. A tragédia grega também é a nossa: "o meu coração e o seu coração (não) são um só coração".

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