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A vida mediada por câmeras

A realidade sob outros ângulos

Os documentários Primárias e Crise, do jornalista Robert Drew, são considerados obras fundamentais do cinema direto

Robert Drew: primeiro na História a levar câmeras de cinema para o Salão Oval da Casa Branca, que funciona como o gabinete do presidente | Fotos: Divulgação
Robert Drew: primeiro na História a levar câmeras de cinema para o Salão Oval da Casa Branca, que funciona como o gabinete do presidente (Foto: Fotos: Divulgação)
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Ao registrar as eleições primárias que escolheram o senador John Fitzgerald Kennedy como candidato do Partido Democrata à presidência dos Estados Unidos, o jornalista Robert Drew mudou os rumos do documentário. Ele utilizou, pela primeira vez, câmeras mais leves, operadas na mão e sobre o ombro, e captou o som simultaneamente. A intenção era buscar o chamado "cinema direto" (ou cinema-verdade), estilo que hoje pode parecer até trivial frente ao que vemos na televisão em um desses Big Brothers da vida. Naquele momento histórico, entretanto, era inovador fazer com que a câmera parecesse invisível, como uma mosca pousada sobre a parede, diante da realidade retratada. Simultaneamente, na França, estava sendo filmado um longa-metragem de não-ficção chamado Crônica de um Verão, de Edgar Morin e Jean Rouch.

Primárias (Primary) foi seguido por Crise (Crisis), rodado três anos mais tarde e cinco meses antes do assassinato de Kennedy em Dallas. Nesse segundo filme, já como presidente, JFK enfrenta uma grave crise política interna. Tanto um filme quanto outro foram lançados no Brasil em DVDs, recheados de extras valiosos, pela Videofilmes, produtora de João Moreira Salles. Representam dois momentos distintos na trajetória de John Kennedy.

Em 1960, o futuro presidente já gozava de prestígio como senador, mas sabia que, para alcançar seu intuito de chegar à Casa Branca, teria de derrotar o experiente Hubert Humphrey e ser escolhido como candidato do Partido Democrata. Drew, então repórter da revista Life, teve uma ideia que mudaria sua vida: acompanhar os dois candidatos durante suas respectivas campanhas no estado de Wisconsin. O ápice seria o dia da votação. O jornalista tinha em mente experimentar um novo equipamento.

Tanto Kennedy quanto Humphrey deram permissão para que uma equipe de filmagem os acompanhasse em tempo integral. Por conta da mobilidade permitida pela câmera e pelo maquinário de captação do som, Drew conseguiu o inimaginável: fazer com que o espectador acreditasse que os candidatos não sabiam da existência da equipe de filmagem, evitando, dessa forma, encenar seus gestos e movimentos.

Por conta dessa "ilusão", Primárias entrou para a história tanto do cinema documental quanto da vida política norte-americana, com um registro único dos bastidores de um processo eleitoral. Moreira Salles buscou nesse filme inspiração para o seu Entreatos, no qual retrata o intervalo entre o primeiro e o segundo turno da eleição que faria de Luiz Inácio Lula da Silva o presidente do Brasil.

É perceptível em Primárias as limitações técnicas (direção de fotografia, roteiro e montagem) dessa nova linguagem documental experimentada por Robert Drew. Por vezes, a filmagem parece tosca. Esses defeitos, contudo, são menores, insignificantes, frente à oportunidade única que teve de desfrutar da intimidade dos candidatos e dos que os rodeavam. Já são clássicas as tomadas como o close-up das mãos nervosas da futura primeira-dama Jacqueline, em sua tentativa de fazer um discurso.

Como Primárias, Crise se estrutura no antagonismo entre duas forças políticas. O documentário marca a primeira vez na História em que uma câmera de cinema teve acesso ao Salão Oval da Casa Branca, que funciona como o gabinete do presidente. Drew registrou um período de 30 horas – começando no dia 10 de junho de 1963 – em que o presidente John F. Kennedy e seu irmão, o promotor público Robert F. Kennedy, tiveram de lidar com o ultraconservador governador do estado do Alabama, George Wallace.

Contrário ao processo de integração racial, Wallace ameaçava impedir pessoalmente a entrada de estudantes negros na universidade local. A câmera acompanha o presidente até o momento decisivo, numa escalada de tensão que coloca o espectador no "olho do furacão".

Drew tinha em sua equipe os cinegrafistas Richard Leacock, D.A. Pennebaker e Albert Maysles, que também partiriam para carreiras no cinema documental. Pennebaker realizaria Don’t Look Back, outro marco do cinema direto. Rodado em 1965 na Inglaterra, du­­rante a turnê de lançamento do terceiro LP de Bob Dylan, The Times They Are A-Changin’ (1964), o filme apresenta ao mundo o cantor e compositor norte-americano no auge de sua faceta profeta, aos 24 anos. Eram tempos de Beatles, Rolling Stones e da contracultura. Dylan, de certa forma, surgiu como a resposta norte-americana à invasão britânica em curso no universo da música.

O que transformou Don’t Look Back em um dos documentários mais importantes já feitos, entretanto, não é o fato de ter encapsulado um momento único da cultura pop. Esse é somente um dos trunfos do filme, hoje estudado e reverenciado com um dos primeiros – e mais representativos – exemplares do gênero. Nas palavras do diretor, D. A. Pennebaker, a linguagem apontou novos caminhos para o gênero documental, permitiu "a aproximação de uma situação e simplesmente filmar o que lá acontecia". "Não há a necessidade da existência de uma narração que instrua o espectador e lhe diga como entender as imagens e o que deve ‘aprender’ com o filme", definiu o cineasta à época.

A opção de alguém como Bob Dylan, um jovem poeta engajado em plena ascensão e já visto por muitos como um gênio precoce, foi a grande sacada de Pennebaker. O artista, por trás da fachada aparentemente introspectiva, escondia uma impressionante verborragia que vem à tona no filme. E, talvez pela pouca idade e deslumbramento diante de um mundo que se ajoelhava para reverenciá-lo, vivia um momento de evidentes contradições. Tentava equilibrar elementos conflitantes de sua personalidade, como arrogância, egocentrismo e genuíno interesse por alguns temas palpitantes na década de 60: pacifismo, liberdade de expressão e direitos civis. É desse Dylan que Don’t Look Back trata de forma brilhante.

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