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Adaptação

A regra no palco

A passagem das páginas literárias para o tablado é responsável por alguns dos melhores momentos recentes nos palcos do país

Aqueles Dois, da Luna Lunera: Conto de Caio Abreu se desdobra em quatro personagens, com trechos narrativos e cenas improvisadas | Diego Pisante
Aqueles Dois, da Luna Lunera: Conto de Caio Abreu se desdobra em quatro personagens, com trechos narrativos e cenas improvisadas (Foto: Diego Pisante)

Pensar nas primeiras obras teatrais originadas de adaptações nos leva a um recuo no tempo até o período clássico, quando os mitos propagados pela cultura oral começaram a ganhar novos significados pela ação da pena dos tragediógrafos gregos. Ao escrever o seu Édipo Rei, Sófocles já bebia dessa tradição, aplicando sua marca: modificou o nome da rainha-mãe, acrescentou a esfinge, a peste e o exílio.

No Brasil, é preciso retroceder menos, até o século 19, data das primeiras (e ainda raras) adaptações de que se tem notícias, tomando como base obras como A Moreninha, de Joaquim Manoel de Macedo, ou Guarani, de José de Alencar. Continuaram incomuns no teatro moderno de grupos como o TBC, Oficina, Opinião e Arena – este ainda investiu em alguns clássicos como A Mandrágora, de Maquiavel, e O Inspetor Geral, de Gógol, em adaptações "nacionalizadas", entre 1963 e 65.

Essa escassez é passado. A adaptação se transformou na regra sobre os palco atuais, em vez de exceção. A observação é da doutora Anna Camati, professora do mestrado em Teoria Literária da Uniandrade, que a empresta da teórica de referência no assunto, a canadense Linda Hutcheon. A passagem das páginas literárias para o tablado é responsável, inclusive, por alguns dos melhores momentos nos palcos do país, como Macunaíma (1978) e A Hora e a Vez de Augusto Matraga (1978), sob a direção de Antunes Filho, a trilogia bíblica encenada pelo Teatro da Vertigem (1992-1995), ou a Trilogia Kafka (1988), nas mãos de Gerald Thomas.

"Hoje, é válido usar qualquer texto, seja literário, cênico, fílmico ou pictural, como matéria-prima para a criação de um novo texto, cujo processo de adaptação inclui (re)negociações ideológicas e culturais", diz Camati.

A fidelidade ao original é indesejada. A adaptação se trata, antes de tudo, de uma recriação, com liberdades dramatúrgica e cênica, que atualmente se realiza durante os ensaios, com improvisações a partir do que foi lido, cortes, acréscimos e todas as demais alterações necessárias a moldar a obra ao gosto e ao pensamento dos atores e do diretor.

De um clássico como Hamlet, pode-se limar linhas e linhas, deixando apenas os diálogos principais, reembaralhados e deslocados das ações sobre as quais pairavam no original, como fez, em Amleto, a Compagnia Laboratorio di Pontedera, da Itália. Insistindo no exemplo shakespeariano, sobressaem também as montagens Ham-let (1993), de José Celso, ou Hamlet.com, da Cia. dos Atores.

A companhia Luna Lunera, de Belo Horizonte, viajou pelos festivais do país e conquistou a crítica nacional com Aqueles Dois, adaptação do conto homônimo de Caio Fernando Abreu. "O espetáculo mantém a narrativa do Caio, mas, por meio de improvisações, criamos cenas dramáticas a partir de objetos citados no conto, improvisamos como seria a locomoção dos atores e, como o Caio sempre fala de cartas, fomos atrás das cartas dele para inserir no texto", conta o ator Cláudio Dias.

Aqueles Dois cumpre temporada até 14 de dezembro no Sesc Avenida Paulista, em São Paulo. Enquanto isso, a Luna Lunera já estreou outro espetáculo também originado de uma obra literária, Cortiços (de O Cortiço, de Aluísio Azevedo), que pleiteia uma vaga na próxima edição do Festival de Curitiba.

"Tentamos tirar das obras a essência, para que não tenhamos que fazer todos os cenários, todas as histórias", diz Dias. O ator revela que o efeito de instigar a imaginação,– provocado pelo livro – é principal cuidado da companhia diante de uma adaptação. "Queremos que o público saia do teatro com a sensação de que faz parte daquilo e crie suas próprias imagens e conclusões".

Em Curitiba, bons exemplos são as montagens Capitu – Memória Editada e Metamorfose, ambas feitas por Edson Bueno, assim como a transposição de contos de Chékhov para Daqui a Duzentos Anos, de Márcio Abreu.

O filme Morgue Story é um caso de obra realizada primeiramente no teatro e, então, transposta para o cinema, com pré-estréia marcada para 12 de dezembro, na Cinemateca. A transposição de meios, no entanto, não é vista pelo diretor Paulo Biscaia – cujo início profissional se deu com a montagem de contos de Edgar Allan Poe – como uma adaptação. Pelo menos, não usual. "Morgue Story foi pensada como cinema no teatro e, agora, de certa forma, removi o teatro da peça. Muda a intensidade do trabalho dos atores e a questão do espaço, com a flexibidade da câmera", explica o diretor.

"Qualquer adaptação encontra como obstáculo a resistência do novo meio, que possui signos, códigos e convenções específicas", assinala a professora Anna Camati. "No teatro, além das palavras, existem outras linguagens através das quais se estabelece a comunicação com o público, a linguagem corporal, do som, da luz, do ritmo, da indumentária, da cor, do cenário, que irão interferir e modificar a experiência teatral". E fazer da adaptação uma obra invariavelmente nova.

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