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Adaptação

Palavra filmada

Através de sua história, o cinema brasileiro sempre buscou na literatura nacional a matéria-prima para suas produções

Lilian Lemmertz estrelou Lição de Amor, filme de Eduardo Escorel baseado em Amar, Verbo Intransitivo, de Mário de Andrade |
Lilian Lemmertz estrelou Lição de Amor, filme de Eduardo Escorel baseado em Amar, Verbo Intransitivo, de Mário de Andrade (Foto: )
Nome Próprio, de Murilo Salles, é baseado em obras da gaúcha Clarah Averbuck |

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Nome Próprio, de Murilo Salles, é baseado em obras da gaúcha Clarah Averbuck

Grande Otelo no papel de Macunaíma, na adaptação do clássico brasileiro dirigida por Joaquim Pedro de Andrade |

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Grande Otelo no papel de Macunaíma, na adaptação do clássico brasileiro dirigida por Joaquim Pedro de Andrade

Memórias do Cárcere é adaptação do livro homônimo e autobiográfico de Graciliano Ramos |

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Memórias do Cárcere é adaptação do livro homônimo e autobiográfico de Graciliano Ramos

Cineastas estão sempre ávidos por uma boa história para contar. E nada melhor do que a literatura para provê-los de farta matéria-prima para transformar em imagens, seja sob a forma de romances, contos ou poemas.

A discussão sobre a adaptação de obras literárias pelo cinema, embora recorrente, é uma "falsa questão", na opinião de Eduardo Escorel, cujo primeiro longa-metragem foi justamente uma adaptação literária: Lição de Amor (1976), inspirada na obra Amar, Verbo Intransitivo (1927), de Mario de Andrade. Afinal, cineastas estão atrás de um tema. "Pouco importa se a inspiração vier de um livro, de uma notícia lida no jornal ou da própria imaginação de um cineasta", diz.

Escorel apropriou-se da história de uma governanta alemã (Lilian Lemmetrz, no filme) contratada por uma rica família paulista, na década de 1920, para dar aulas aos filhos e, em especial, educar sexualmente o mais velho. Mas deixou de lado questões relacionadas à estrutura narrativa. "Esta é uma obra modernista. Deixei de lado aspectos significativos da construção do romance, interessando-me mais pelo enredo", explica.

"Uso o trabalho de um autor na medida em que ele me serve", diz o cineasta Murilo Salles, diretor de três adaptações: Nunca Fomos Tão Felizes (1984), baseado em contos de João Gilberto Noll; Faca de Dois Gumes (1986), transposição da obra de Fernando Sabino; e a mais recente, Nome Próprio, a partir da obra da gaúcha Clarah Averbuck.

Quando o livro de estréia de Clarah, Máquina de Pinball (2001), caiu nas mãos do diretor, ele já tinha um tema na cabeça. Desejava tratar do universo da internet como mote para lançar um olhar sobre a classe média urbana, pouco retratada nas telas do país. "Quis fazer algo oposto ao cinema da barbárie e do folclore, que predomina hoje no Brasil".

O cineasta considera a livre adaptação que fez da obra de Clarah uma coincidência. "Se tivesse entrado numa livraria em outra época e lido seus livros, provavelmente não me interessaria em adaptá-los", conta o diretor, que inclui no filme cenas adaptadas de Máquina de Pinball; Das Coisas Esquecidas atrás da Estante (2003), com textos postados no blog brazileira!preta; e Vida de Gato, do ano seguinte.

Salles conta que não tem o menor apego com os livros que o interessam. "Para o cineasta, o que vale é focar o tema encontrado naquela obra e transformá-lo em imagens, em algo cinematográfico", explica. Tanto que não teve pudores em modificar a estrutura de Faca de Dois Gumes, de Fernando Sabino, consagrado autor nacional. "E ele gostou do resultado", diz. Ao contrário de Clarah, que se incomodou com a adaptação pouco fiel à sua obra. "Se o autor quer se realizar em mim, é problema dele. Por que concedeu os direitos, então?", diz Salles, lembrando a decisão acertada de Sabino em nunca ceder os direitos de Encontro Marcado a nenhum cineasta.

Clássicos

"Em geral, o filme perde quando o original é uma grande obra. Há um certo peso em adaptar um clássico da literatura", diz Eduardo Escorel. A máxima "livro ruim, filme bom/ livro bom, filme ruim", no entanto, não é regra. O cinema brasileiro tem inúmeras exceções. Como S. Bernardo (1971), de Leon Hirzsman, adaptação da obra de Graciliano Ramos, que teve cópia restaurada exibida na última terça-feira (18) na abertura do 41° Festival de Brasília do Cinema Nacional, do qual Escorel participou como montador.

Carlos Augusto Calil, curador do projeto de restauração da obra completa de Hirszman, faz uma afirmação ousada em relação ao filme. "Ele praticamente supera a obra de Graciliano em relação a alguns aspectos, o que não é pouca coisa."

O cineasta Vladimir Carvalho explica que S. Bernardo atualiza a discussão proposta por Graciliano. "Nele, a linguagem está atrelada ao conteúdo. O livro é um tratado contra a economia capitalista. Hoje, acho que veríamos Hirszman correndo atrás de Celso Furtado, Caio Prado Jr.", diz.

Pode-se dizer que Hirszmann foi fiel ao livro "no que lhe convinha", como afirma Calil, mas com o respeito que o peso de adaptar um clássico da literatura nacional lhe impunha.

O ator Othon Bastos lembra que o roteiro era o próprio livro de Graciliano. "Ele reunia o elenco depois do jantar e discutia a seqüência do dia seguinte". Escorel explica que, apesar disso, Hirszman tinha plena consciência a respeito do que exatamente queria extrair da obra. "Algum tipo de roteiro sempre se faz."

Em um encontro casual, Hirszman perguntou ao ator: "Você conhece São Bernardo?". "Sim", disse. "Então releia, e eu volto a falar com você". Tempos depois, o diretor convidou-o a interpretar o personagem. "Achei uma loucura. É muito diferente fazer um personagem literário: um milhão de pessoas leram o livro e têm uma idéia própria sobre a figura de Paulo Honório", conta. Tentou recusar a proposta: "O Paulo Honório tem lábios grossos, mãos enormes, cabelo sarará... eu não sou isso". Leon me disse: ‘O que eu quero é o que está dentro de você’. Aí aceitei porque vi que ele sabia o que queria", diz o ator.

Hirszmann enfrentou, ainda, segundo conta Escorel, o fato de que uma obra ainda mais destacada da bibliografia de Graciliano já havia sido adaptada com genialidade por Nelson Pereira dos Santos: Vidas Secas (1963). O homenageado de ontem no Festival de Brasília tem sua trajetória pontuada por adaptações de clássicos literários brasileiros. Em parte por causa disso, foi o primeiro diretor de cinema eleito pela Academia Brasileira de Letras, em 2006.

De Nelson Rodrigues, transpôs para as telas Boca de Ouro (1962), com Jece Valadão e Odete Lara. Em Azyllo Muito Louco (1969), adaptou o conto "O Alienista", de Machado de Assis. De Jorge Amado, emprestou Tenda dos Milagres, vencedor do Festival de Brasília de 1977, e Jubiabá, de 1986. De Graciliano, filmou ainda Memórias do Cárcere (1984). Escorel também foi montador de adaptações memoráveis do cineasta Joaquim Pedro de Andrade, como Macunaíma (1969), escrito por Mario de Andrade; Os Inconfidentes (1971), baseado no livro Autos da Devassa, de Tomás Antonio Gonzaga, Cláudio Manuel da Costa e Alvarenga Peixoto e em O Romanceiro da Inconfidência, de Cecília Meireles; e Guerra Conjugal (1979), a partir de contos de Dalton Trevisan.

Escorel admite que, na década de 1960, havia uma identificação ideológica entre o que se fazia no Cinema Novo e o que se produzia na literatura e, talvez, por isso, tenham sido feitas tantas adaptações. "Ainda se fazem muitas, como é o caso dos filmes de Murilo Salles, com a diferença de que hoje os autores não são tão conhecidos. Talvez as obras nacionais consagradas tenham se esgotado", opina.

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