
O drama de época A Duquesa, que estréia hoje em Curitiba, pode ser vítima de uma avaliação apressada e ser julgado pela aparência. Mas não se deixe enganar pelos espartilhos, perucas, crinolinas e vestidos farfalhantes que transbordam na tela.
Apesar de contar uma história do século 18, o competente filme do cineasta londrino Saul Dibb aborda uma temática ainda bastante contemporânea e relevante: a condição feminina e seus espinhos.
A trama gira em torno de Georgiana Spencer (Keira Knightley), jovem dama da aristocracia britânica no século 18, que se casa por conveniência com o duque de Devonshire (Ralph Fiennes), uma das figuras mais poderosas da Inglaterra à época. Mesmo com pedigree, o fidalgo é rude e incapaz de expressar suas emoções. Tudo o que espera da esposa é que ela cumpra seu papel e lhe gere um filho varão. Mas "G", como a duquesa passa ser chamada, só dá à luz meninas. E o tênue elo de cordialidade que os une cede lugar à indiferença. De ambas as partes.
Em um claro paralelo com a lady Diana Spencer do século 20, que teria se casado com o príncipe Charles, herdeiro da coroa britânica, quando ele já vivia um caso amoroso com a madurona Camila Parker Bowles, A Duquesa narra a triste saga de uma mulher presa numa armadilha.
Ao mesmo tempo que se torna uma referência de beleza, elegância e perspicácia na corte londrina, imitada e admirada por muitos, a imobilidade a que está condenada por uma união sem amor a sufoca.
Graças à sutileza da interpretação de Fiennes, o duque, cujo primeiro nome jamais é mencionado, não fica reduzido a simples algoz de Georgiana. Quando ele toma como amante a melhor amiga da mulher, Bess (Hayley Atwell) uma plebéia recém-separada e, portanto, disponível ao desfrute , ele apenas segue a lógica de seu tempo. Reafirma o patriarcado, sem se dar conta que destrói, dia após dia, sua esposa.
Keira Knightley, elevada à posição de principal estrela do cinema britânico atual depois do sucesso de Orgulho e Preconceito e Desejo e Reparação, brilha. Talvez mais do que em nenhum outro filme. Sua Georgiana é complexa, multifacetada. Porque transita entre a futilidade e o autoconhecimento, a paixão e o desespero, com a desenvoltura de uma atriz madura. E ela tem apenas 23 anos.
Não se pode dizer que a heroína de A Duquesa seja uma conformista. Ele se rebela, se insurge. Tenta quebrar paradigmas, desafiar regras seculares. Mas uma engrenagem maior, superior a seus desejos, a sua indignação, insiste em dizer-lhe não. Tudo isso faz do filme um espetáculo aparentemente melodramático como um folhetim (ou uma telenovela). Não é.
A via-crúcis de Georgiana, por mais suntuosa que seja, não é menos triste ou verdadeira. Continua a ter relevância dois séculos depois da sua morte. Alguém duvida? GGG1/2



