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Ayres, Mônica Salmaso e Teco: trio alterna músicas densas e cômicas em CD | Divulgação
Ayres, Mônica Salmaso e Teco: trio alterna músicas densas e cômicas em CD| Foto: Divulgação

Mônica Salmaso chega ao seu sétimo disco com uma maturidade invejável a qualquer intérprete de música brasileira. Pode-se dizer que, desde seu primeiro disco, Afro Sambas (1995), a cantora já apresentava a habilidade técnica de um artista experiente para cantar os sambas de Vinícius de Moraes e Baden Powell, acompanhada apenas de um violão.

Dezesseis anos depois, Mônica apresenta a mesma qualidade da voz aveludada que a tornou sucesso de crítica em Alma Lírica Brasileira, lançado pelo selo Biscoito Fino, mas está mais solta. "Antes eu tinha um maior compromisso com essa responsabilidade de acertar, e agora eu estou me divertindo mais", conta em uma entrevista concedida à Gazeta do Povo por telefone.

Em seu novo disco, Mônica é acompanhada de dois músicos do conjunto instrumental Pau Brasil, com quem já havia tocado na gravação do álbum Noites de Gala, Sambas na Rua, com composições de Chico Buarque. O pianista Nelson Ayres e o flautista Teco Cardoso, marido da cantora, compuseram arranjos para músicas que se alternam entre dramáticas e cômicas e colocam a qualidade vocal da artista à prova. "70% do repertório foi testado antes em shows", comenta a cantora, que executou boa parte das faixas de Alma Lírica Brasileira em sua última passagem por Curitiba, no Teatro do Sesi-Cietep, no ano passado.

Como veio a ideia do disco e do nome?

Essa expressão há muito tempo me persegue, e eu nem lembro mais quem foi que disse que eu cantava essa tal alma lírica brasileira. Eu sou muito apaixonada pela cultura popular brasileira, acho que ela tem um nível muito grande de lirismo. São coisas muito rebuscadas, bordadas, tem toda uma poesia visual e musical.

Até que o Teco, o Nelson e eu resolvemos fazer um trio, e viemos ensaiar aqui em casa. O Nelson é um maestro, e o Teco tem uma formação pessoal que passa pela música erudita. Então, a gente começou a ter um namoro com o que seria uma canção popular próxima da canção lírica.

Com esse disco, você volta ao minimalismo instrumental que a consagrou no seu primeiro disco. Você prefere fazer um álbum com poucos instrumentos?

A minha história sempre passou por formações menores. Eu acho que os discos não são sobre os instrumentos, mas sobre os instrumentistas envolvidos. Existe uma participação criativa, a concepção é feita em conjunto com eles. Eu gosto de cantar em formações menores porque eu gosto do espaço vazio. Existe uma sensação de risco, mas a gente escuta melhor o que os outros estão fazendo. Eu acho divertido, arriscado e gostoso.

Em seu novo álbum, há uma canção da compositora chilena Violeta Parra, "Casamiento de Negros", que é a sua segunda interpretação de uma música de um artista estrangeiro. Como foi interpretar em espanhol?

Antes eu já tinha cantado uma do Simon Diaz, a "Tonada del Ca­­brestero", no Nem 1 Ai [seu disco anterior], que é mais conhecida na voz do Milton Nascimento. No ano passado, eu fui para o Chile e para a Argentina, e achei lindo. Nós temos os mesmos problemas, estamos tão próximos, mas pela língua nos isolamos do resto da América do Sul. Essa música veio me acompanhando, e eu me apaixonei por ela. Temos uma alma lírica parecida. Dessa vez, me senti mais segura de interpretar em espanhol. Antes eu tinha mais compromisso com essa responsabilidade de acertar, e agora eu estou me divertindo mais.

Você tem uma preocupação em distribuir o clima das músicas de seu disco, entre densas e leves?

Sim, há uma preocupação em não sobrecarregar as músicas. A gente vai sentindo esse gráfico, e aos poucos eu fui entendendo isso. Se eu cantar duas músicas lentas em seguida, por exemplo, eu vou tirando o tempo de concentração do ouvinte. É legal descansar de uma coisa para entrar em outra, assim se exige menos de quem escuta. Se você ouve algo muito sério, é legal ouvir uma coisa diferente. É como eu gosto de ouvir os discos.

Como é fazer arranjos com o seu marido?

É ótimo. A gente fazia isso muito antes de ser namorados. Trabalhamos juntos durante muitos anos. A primeira vez que o Teco gravou comigo foi em 1998, no Trampolim [segundo álbum da cantora]. A gente tinha muita afinidade. Então, quando a gente se percebeu vivendo outra coisa, isso só somou ao que a gente já tinha. Sou muito fã do trabalho dele. A gente já falava muito de música, agora a gente fala de tudo.

Alma Lírica Brasileira é um disco seu, entretanto, há uma música instrumental, "Veranico de Maio". Como veio a ideia de fazer essa inserção?

Eu não sou compositora, e nunca tive esse impulso de ser. Mas a minha ideia de composição, de autoria, não é só na hora em que eu estou cantando, é na escolha do gráfico, no convite desses músicos, na escolha do repertório. Tudo isso faz parte do meu trabalho. Eu quis fazer o "Veranico", do Nelson, porque é uma música linda. Essa música tem uma função, uma cor dentro do disco, que faria falta se não estivesse lá. Não vejo como se eles estivessem invadindo o disco ou coisa assim. Dou uma cantaroladinha para fazer uma ligação, mas não havia necessidade.

Além de Chico Buarque, quem são os compositores que você mais gosta de interpretar?

Gosto muito do Dorival Caymmi, do Adoniran, de algumas coisas do Chico César do primeiro disco. O Chico Buarque e o Dorival são compositores que eu escuto desde criança. Vai além de cantar, é emocional. Agora eu estou apaixonada pela música caipira, ela tem um humor muito parecido com o do samba, só que com outro tempero. É forno à lenha. Parece muito com a cultura do malandro, do duplo sentido, mas é caipira.

Serviço

Alma Lírica Brasileira, Mônica Salmaso. Biscoito Fino. Preço médio: R$34,90.

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