
Quanto vale uma boa história? Para qualquer jornalista, encontrar um personagem fantástico que renda uma narrativa igualmente extraordinária é motivo de sorriso no rosto e toques cuidadosos no teclado até arredondar o texto da maneira que seu entrevistado merece. Para um colunista do maior jornal de uma cidade de quatro milhões de habitantes, se deparar com uma grandiosa história é um feito. Mas também pode se tornar um fardo.
Esse é o mote de O Solista, livro do jornalista norte-americano Steve Lopez, colunista do jornal Los Angeles Times. A obra deu origem ao filme homônimo, dirigido por Joe Wright, atualmente em cartaz no país.
Já meio cheio de "preencher espaço na coluna", como diz no começo do livro, Lopez tira a sorte grande enquanto jornalista ao se deparar com um sujeito negro, corpulento e esquisito. Sentado em um banco de madeira no região de Skid Row, bairro degradado e tomado por prostitutas, traficantes e marginais, Nathaniel Ayers toca com fluência uma peça de Beethoven.
É em um túnel, em meio a buzinas e fumaça, que dedilha um violino de duas cordas. Seu talento é perceptível até mesmo para leigos em música erudita, caso do jornalista. A história de ouro, então, estava na sua frente: "Um Marginal Erudito" seria um título possível para sua primeira coluna.
Mas demora um pouco até Lopez perceber que seu alvo neste momento o negro que toca um violino manco é uma história a ser contada é esquizofrênico. Doente mental, Ayers fala palavras sem nexo, amarra fitas de isolamento na testa e carrega tudo que tem na vida em um carrinho de supermercado. Seus companheiros são dois bastões de basebol chamados Brahms e Beethoven. Ambos utilizados para espantar os ratos que escapolem dos bueiros na madrugada, enquanto o mendigo dorme tranquilo por sobre tiras de papelão.
A primeira coluna sai e o resultado é arrebatador. Pessoas encaminham cartas ao jornal, em solidariedade a Ayers. Outros doam instrumentos violinos e violoncelos surgem na mesa de Lopez, que nesse momento já não pensa mais em Nathaniel Ayers como personagem, mas como alguém conhecido que precisa de ajuda.
Lopez descobre que Ayers estudou violoncelo na Juilliard, em Nova York, uma das principais escolas de música e artes dos Estados Unidos. Que tocou ao lado de Yo-Yo Ma, um dos violoncelistas mais respeitados do mundo. E que era são até sofrer as consequências de um regime de estudo desumano em meio a uma maioria branca e racista. Sem o suporte da família, veio o colapso.
A partir desse momento, a discussão que o próprio autor propõe inclui a intersecção entre amizade e profissionalismo, entre jornalismo e caridade, entre ajuda e inconveniência. Pois Lopez, sua coluna e Nathaniel tornam-se cada vez mais conhecidos em Los Angeles e fazem eco por todo o país. "Será que ele é feliz do seu jeito e eu só estou me intrometendo?", pergunta Lopez. Essa indagação do autor, que propicia o debate sobre o tema, torna a obra ainda mais interessante.
Lopez chega ao ponto de gastar mais de US$ 600 em uma tarde para comprar partituras para seu protegido, que insiste em continuar tocando nas ruas agora com violinos e violoncelos a escolher , ao invés de se recolher em um apartamento coletivo arranjado pelo jornalista. O dom de Nathaniel é reverenciado por músicos famosos da cidade, o que torna o interesse de Lopez ainda maior.
E, como um viciado, o jornalista passa mais tempo com seu "personagem" do que com a mulher e seus três filhos. O convida para passar a Páscoa em sua casa, com o carrinho de mercado e com Brahms e Beethoven os bastões. Lopez aguenta insultos quando a doença mental toma posse de Ayers, de uma hora para outra; contata psicólogos e psiquiatras para tentar ajudá-lo, sem sucesso. Mas novamente se questiona: "Ele quer isso?" O que fica, no desfecho da obra em que a música vence, é a pergunta inicial e polêmica. Quanto vale e até que ponto pode ir uma boa história? GGGG
Serviço
O Solista, de Steve Lopez. Globo, 270 págs., R$ 34,90.







