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Steven Tyler em três momentos: com seu “gêmeo tóxico” Joe Perry na revista Life; esbanjando sensualidade no palco, no auge da forma; e no show mais recente no Brasil, no fim de outubro, na Arenha Anhembi, em São Paulo | Arquivo Time-Life; divulgação  e Adriano Vizoni/ Folhapress
Steven Tyler em três momentos: com seu “gêmeo tóxico” Joe Perry na revista Life; esbanjando sensualidade no palco, no auge da forma; e no show mais recente no Brasil, no fim de outubro, na Arenha Anhembi, em São Paulo| Foto: Arquivo Time-Life; divulgação e Adriano Vizoni/ Folhapress

Quem disse que é fácil ser o frontman do Aerosmith? Criar músicas incríveis, cantar como se não houvesse amanhã, vender 100 milhões de discos, encher estádios ao redor do mundo, ficar nos melhores hotéis, ter as melhores mulheres, passar férias no Havaí, ser pai de uma estrela do cinema, virar personagem de videogame, ser um "garotão" super bem-conservado aos 63 anos, jurado de reality show famoso – tudo isso equilibrando-se (apesar das inúmeras quedas) durante 40 anos entre o amor e o ódio à sua "alma gêmea" musical – no caso, o guitarrista Joe Perry.

Depois de ler Steven Tyler – O Barulho na Minha Cabeça Te Incomoda?: Uma Memória Feita de Rock n’ Roll, um irresistível calhamaço de 512 páginas, você vai chegar à conclusão de que não é nada fácil ser Steven Victor Tallarico, o cantor, letrista, compositor e faísca original do Aerosmith. No livro, escrito em conjunto com David Dalton – editor fundador da revista Rolling Stone americana –, Steven Tyler revisita toda a sua trajetória, desde a infância campestre em Sunapee, no estado de New Hampshire, nordeste dos Estados Unidos, até a retomada da banda, a turnê de 2010 e a presença no American Idol.

E conta tudo sem "dourar a pílula", meias palavras ou se deixar cair na tentação da autocomiseração. Com seu jeito empolgado – cuja percepção o leitor brasileiro deve à ótima tradução assinada por Eric R. R. Heneaut, Francisco José M. Couto, Marcelo Barbão e Olga Cafalcchio –, Steven relata o início como baterista, a devoção aos Yardbirds e a Mick Jagger, as primeiras bandas, a química instantânea com Joe Perry, a eclosão dos primeiros sucessos, os discos, turnês, fama, riqueza... e também os excessos, brigas, acidentes de percurso, quedas vertiginosas e reabilitações impressionantes nesse meio tempo.

Mas o melhor é que o vocalista do Aerosmith – um dos grandes "sobreviventes do rock", ao lado de ídolos indestrutíveis como Keith Richards e Ozzy Osbourne – em nenhum momento assume uma postura maniqueísta: não derrapa no discurso fácil contra as drogas, nem renega o passado de sexo desenfreado e farras homéricas – ao mesmo tempo em que expõe todas as cicatrizes desse estilo de vida, os momentos de prostração e fragilidade, a solidão e o arrependimento sincero por ter ficado tanto tempo longe dos filhos.

O livro também ajuda a compreender melhor – do ponto de vista de Tyler, obviamente – a tempestuosa relação com seu "gêmeo tóxico", Joe Perry. O vocalista descreve em detalhes as divergências artísticas, as disputas de ego, a influência venenosa das mulheres, as traições, rompimentos e reaproximações. E deixa claro que, aparentemente, esse duelo vai continuar até o fim – da banda, ou de um dos desafiantes.

Há porém uma grande e inexplicável lacuna na autobiografia de Steven Tyler: ele nem sequer menciona a notória ressurreição do Aerosmith, proporcionada pela regravação de "Walk This Way" por parte do grupo de rap Run-DMC, em 1986. Um pecado gravíssimo, se considerarmos a importância dessa versão tanto para a banda quanto para a história do rock-and-roll: a dobradinha Aerosmith/Run-DMC foi a primeira manifestação conhecida do rap-metal, subgênero que daria origem a grupos como Faith No More, Korn, Linkin Park e Limp Bizkit, entre outros. De qualquer maneira, não deixa de ser um passatempo delicioso conhecer as entranhas de um monumento do rock como o Aerosmith. GGG1/2

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"A vida é curta. Quebre as regras, perdoe rápido, beije lentamente, ame verdadeiramente, ria descontroladamente e nunca se arrependa de nada que o fizer sorrir. Não estamos quantificados; não existe um mapa do desejo. Quando as chamas crepitantes de seu coração tiverem queimado as brasas, talvez você descubra que se casou com sua melhor amiga. Palpites, conjeturas, instintos... seguir cegamente qualquer coisa pode matá-lo, e lembre-se sempre... cante como se ninguém pudesse ouvi-lo; viva como se o Paraíso fosse aqui na Terra. Queria dizer algo profundo e sem sentido, tipo: ‘Sê fiel a ti mesmo’, mas, na verdade, a primeira coisa que precisamos fazer é MATAR TODOS OS ADVOGADOS."

Trecho da biografia Steven Tyler – O Barulho na Minha Cabeça Te Incomoda?: Uma Memória Feita de Rock n’ Roll, de Steven Tyler, vocalista do Aerosmith.

Serviço:

Steven Tyler – O Barulho na Minha Cabeça Te Incomoda?: Uma Memória Feita de Rock n’ Roll. Benvirá. 478 páginas. Preço médio: R$ 42,30. Biografia.

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