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Entrevista

As metáforas da psicanálise

Moacyr Scliar, autor de Enigmas da Culpa, fala sobre a relevância dos conceitos freudianos

Sting: sem dom para as rimas | Arquivo Gazeta do Povo
Sting: sem dom para as rimas (Foto: Arquivo Gazeta do Povo)

Moacyr Scliar, o médico, estudou psicanálise durante a faculdade e, de lá para cá, nunca perdeu o interesse na teoria desenvolvida por Sigmund Freud (1856 – 1939). Ainda faz terapia, acredita que ela é uma experiência valiosa – um atalho para o autoconhecimento – da qual nunca vai se arrepender.

Um dos escritores vivos mais importantes do Brasil, Scliar escreveu Enigmas da Culpa para a coleção filosófica, da editora Objetiva. Foi quando pesquisou muito sobre um tema caro à psicanálise.

Ontem pela manhã, em entrevista por telefone de sua casa, em Porto Alegre, o autor de A Mulher Que Escreveu a Bíblia afirmou que "psicanálise e texto têm muito em comum".

"Freud, que escrevia muito bem, chegou a receber o prêmio Goethe de Literatura (em 1930)", lembra Scliar, citando a láurea que reconhece, principalmente, escritores. Amós Oz e Thomas Mann entre eles.

Se a literatura, desde o início, foi interessante para a psicanálise, a recíproca também é verdadeira. Por se basear em metáforas, como as do ego, superego e id, ela acaba sendo interessante também para a ficção. Porém, Freud considera o impulso criativo impossível de ser analisado.

"É bom que se mantenha algum mistério – ele é essencial para a vida, não é?", brinca. Scliar lembra que, no começo da década de 90, a psicanálise sofreu o seu maior ataque, quando surgiu o Prozac, criando uma espécie de culto em torno das drogas que "dispensam" a terapia feita pela conversação. Antes das "pílulas mágicas", a idéia de que a psicanálise "já era" remete aos anos 50.

"Na verdade, a droga resolve o problema químico, mas o emocional depende da interação com o terapeuta", diz o escritor. Embora a psicanálise não seja mais a panacéia que foi nos anos 20 e 30 – quando se imaginava que era capaz de resolver todos os problemas –, hoje ela vive o que Scliar define como um momento de "reavaliação".

Ela teria perdido muito de seu prestígio por fatores como o surgimento de tratamentos alternativos – alguns inusitados como a "terapia do grito primal" – e, sobretudo, pela "quantidade de vigaristas que se intitularam psicanalistas".

Scliar cria uma comparação para mostrar como o analisando pode, de certa forma, se tornar refém do terapeuta. Um sujeito que se diz neurocirurgião consegue enganar seu paciente até o momento da primeira operação. Um que se diz psicanalista não tem como ser desmascarado, ou pode manter a farsa por muito mais tempo.

Uma das obras que o médico escritor, integrante da Academia Brasileira de Letras, considera fundamental para alguém que se interessa por psicanálise, leigo ou não, é a biografia Freud – Uma Vida para Nosso Tempo, de Peter Gay (Companhia das Letras). Não apenas por lançar um olhar sobre a vida do médico vienense, mas por contextualizar a gênese da psicanálise.

Outro fator que parece contribuir para o interesse das pessoas no divã é uma espécie de crise na fé religiosa, impulsionada pelo 11 de Setembro e representada no mercado editorial por autores como Richard Dawkins (Deus, um Delírio) e Christopher Hitches (Deus não É Grande).

"A psicanálise trata a religião como uma fantasia e a divindade está ligada à figura paterna. Não é o ateísmo militante de Dawkins", compara Scliar. Na sua opinião, os conceitos freudianos mantêm parte de sua força como teoria da cultura – explicam, por exemplo, a obsessão consumista, ligada à fase oral, da libido, em que a pessoa precisa se gratificar tal qual a criança no seio materno.

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