• Carregando...
O escritor, que tem sua fama de recluso contestada na obra | Agência Estado
O escritor, que tem sua fama de recluso contestada na obra| Foto: Agência Estado

Serviço

Salinger

Shane Salerno e David Shields. Tradução de Carlos Irineu da Costa, Cássio de Arantes Leite, Denise Bottmann, Donaldson Garschagen e Jorio Dauster. Intrínseca, 704 págs, R$ 49,90.

J. D. Salinger (1919-2010) teria odiado a pesquisa de Sha­­ne Salerno sobre sua vida, já nas livrarias pela editora Intrínseca, e que chega no dia 14 de fevereiro aos cinemas em sua versão documentário. Salinger, escrito em parceria com David Shields, é uma investigação que custou dez anos e US$ 2 milhões a Salerno. Como resultado do trabalho, os autores revelam fatos que um dos mais famosos reclusos da literatura mundial preferiria manter em segredo. O livro contesta visões clássicas sobre o autor de O Apanhador no Campo de Centeio, com fotos e documentos inéditos, e revela que ele deixou instruções para a publicação de novos livros já a partir do ano que vem. Salerno diz ter contado, no começo da pesquisa, com a colaboração em off de alguém da família Salinger.

Biografia e documentário dividiram a crítica internacional. Alguns saudaram as revelações da pesquisa; outros condenaram a invasão da privacidade de um dos maiores ídolos literários do século 20. Salerno foi acusado de representar a vingança da cultura da celebridade contra um homem que sempre se opôs a ela. Mas, para essa crítica, ele tem uma resposta na ponta da língua.

"O New York Times foi um dos que escreveram isso. Engraçado, porque, durante meses, eles me imploraram, literalmente, para ter exclusividade sobre as revelações do livro. Tenho todos os e-mails. É hipócrita. Eles publicaram centenas de reportagens sobre a vida de Salinger quando ele estava vivo", diz Salerno, cujo livro é escrito na forma de depoimentos, o que atrapalha a fluência da leitura.

Até hoje, as principais fontes sobre a vida do autor eram os livros Salinger – A Biography, de Paul Alexander, e Salinger – Uma Vida (editora Leya), de Kenneth Slawenski. Além das memórias de sua filha, Margaret (Dreamcatcher), e de sua ex-mulher, Joyce Maynard (Abandonada no Campo de Centeio). Salinger excluiu a filha da herança por causa do livro.

Afastamento

Após lançar O Apanhador no Campo de Centeio, em 1951, o autor se afastou gradualmente da vida pública. Publicou seu último texto em 1965, na revista New Yorker. Mas seguiu escrevendo. E uma das missões que Salerno se impôs foi descobrir o quê. O biógrafo afirma que Salinger deixou instruções para que seus inéditos sejam publicados entre 2015 e 2020.

Um dos livros é The Glass Family, que reúne contos antigos e inéditos sobre a família Glass, recorrente na obra do escritor. Outro trará contos sobre a família Caulfield, da qual faz parte Holden, o protagonista de O Apanhador.... Há ainda duas obras passadas na Segunda Guerra e outra de contos inspirados no vedanta, religião indiana seguida por Salinger.

Além dessa revelação, Salerno defende que alguns conceitos sobre Salinger são mitos. O primeiro é a ideia de que ele foi recluso.

"Recluso? Recluso era o Howard Hughes [bilionário americano que se isolou da vida pública nos anos 1950]!", diz. "Ele e seus amigos costumavam rir dessa fama. Um recluso não aparece nos bastidores da Broadway e se apresenta como Salinger para as atrizes."

Segundo os autores, o escritor ia todos os dias à agência de correio perto de sua casa buscar as cartas que trocava com pessoas do país inteiro — mulheres muito mais novas em especial. Salinger também frequentava o jantar de domingo da igreja, e há relatos de que viajava para visitar garotas com quem trocava cartas – e até se decepcionou ao descobrir que uma delas não era nenhuma Lolita ao vivo.

Algumas revelações polêmicas do livro, aliás, dizem respeito ao envolvimento de Salinger com adolescentes. Uma delas, Jean Miller, veio a público pela primeira vez na biografia. Quando se conheceram, ela tinha 14 anos. Ele, 30. Ela diz que só perdeu a virgindade com o escritor aos 20 anos. Ele a rejeitou no dia seguinte. Salinger se encantava, de certa forma, com a pureza infantil.

"Ninguém questiona a veracidade das informações, mas dizem que eu não devia tê-las publicado. Eu devia trancar tudo num armário?", questiona Salerno. "Nada do que eu conto diminui o escritor extraordinário que Salinger foi. Mas é claro que nem todas as suas atitudes podem ser elogiadas."

0 COMENTÁRIO(S)
Deixe sua opinião
Use este espaço apenas para a comunicação de erros

Máximo de 700 caracteres [0]