
E o cinema da quebrada ganha um espaço nobre nas salas do país. Até aqui, a voz da periferia, no cinema, tem sido vista no circuito alternativo, preferencialmente. Em outros locais, os filmes só chegam quando referendados por festivais ou apadrinhados por diretores famosos e distribuidoras grandes, como foi o caso de Cinco Vezes Favela, Agora por Nós Mesmos, e o padrinho era Cacá Diegues. Na última quinta-feira (19), ocorreu o que não deixa de ser um pequeno milagre. Estreou Branco Sai, Preto Fica, de Adirley Queirós, que, antes de vencer o Festival de Brasília, integrou a seleção da Mostra Tiradentes do ano passado, perdendo o prêmio da crítica na Mostra Aurora para A Vizinhança do Tigre, de Affonso Uchoa.
A garotada de Ceilândia desembarca no Shopping Frei Caneca e o cinéfilo pode se preparar para um duplo banho – de realidade e criatividade. Numa entrevista por telefone, Queirós lembrou seu início. Antes de ser cineasta, seu sonho era ser jogador de futebol. Como profissional, integrou os times do Tabatinga e do Ceilândia. Não virou astro nem foi convocado para a seleção. Nada do glamour associado ao esporte. Pelo contrário, baixos salários, contratos precários. Queirós substituiu o futebol pelo cinema, “para arranjar umas namoradas”, como diz.
Logo na abertura de Branco Sai, Preto Fica, um cadeirante chega em casa, em Ceilândia. A casa também é um estúdio que abriga uma rádio pirata e Marquim começa a relatar o que houve com ele. Fotos antigas e sons de sirenes e helicópteros criam a ambientação – estamos de volta no tempo, em plena intervenção policial num baile black no Distrito Federal, há 30 anos. Marquim vai perder a perna na escalada de violência desencadeada pela polícia. E o curioso é que sua casa é cercada de grades, o que já define, como uma ideia de mise-en-scène, a prisão em que ele tem vivido, privado de sua mobilidade.



