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Cacá Diegues: reconhecimento ao legado do Cinema Novo | Pedro Carrilho/Folhapress
Cacá Diegues: reconhecimento ao legado do Cinema Novo| Foto: Pedro Carrilho/Folhapress
  • Bye Bye Brasil: mito de um país subdesenvolvido

Na boleia da Caravana Rolidei, o caminhão usado pelos personagens de Bye Bye Brasil (1979), o público da sala de cinema do Lincoln Center, em Nova York, vai desbravar a obra cinematográfica de Cacá Diegues a partir de sexta-feira, 12. Até o dia 18, os cinéfilos que costumam lotar a instituição poderão ver 14 dos maiores sucessos do diretor alagoano. Entre eles, clássicos como Ganga Zumba (filme de estreia do diretor, rodado em 1963), A Grande Cidade (1966) e Os Herdeiros (1970), em cópias restauradas, algumas nunca projetadas por aqui.

Batizada de Brazilian Saga: Carlos Diegues’ Cinematic Adventures, a mostra foi organizada por Richard Peña, professor da Universidade de Columbia, para recontextualizar o caráter antropológico da filmografia de Cacá. É a primeira vez que os americanos poderão conferir todas as fases da carreira de 51 anos do diretor, indo do Cinema Novo, na década de 1960, à Retomada, em 1995.

"O grande tema de Cacá sempre foi o espaço, visto a partir da contradição entre o que podemos chamar de ‘mito’ e o que chamamos de ‘História’ ou ‘realidade’. Filmes como Ganga Zumba ou Quilombo falam do mito de Palmares, filtrado pela realidade que conhecemos de momentos históricos", explica Peña, destacando o longa que abre a mostra: Bye Bye Brasil. "Este talvez seja o melhor filme sobre o mito de um Brasil subdesenvolvido. O subdesenvolvimento é uma realidade terrível. Mas funciona, no Brasil, como mito e como realidade. Foi o que Cacá nos mostrou, de modo muito lúcido."

Prestes a ganhar outra mostra-homenagem, na França, no 15.º Festival de Cinema Brasileiro de Paris (entre 16 e 23 de abril), Cacá encara o tributo do Lincoln Center como um reconhecimento ao legado de toda a geração do Cinema Novo. E destaca a chance de levar a Nova York um filme como Ganga Zumba, épico anti-imperialista rodado há 50 anos, em plena efervescência política do Brasil.

"Minha geração teve um papel preponderante na invenção de um cinema fora do convencional", diz o realizador, que em 2012 filmou dezenas de entrevistas para o documentário Vinte, sobre as duas décadas da Retomada, já finalizado para ser distribuído pela RioFilme. "O respeito à memória cinematográfica no Brasil é coisa recente. Se só agora estamos restaurando filmes dos anos 1960 e 70 do Cinema Novo, imagine o que dizer dos filmes mais antigos. Por isso, é importante falar também do passado recente do nosso cinema."

No programa do Lincoln Center, Peña define os longas de Cacá como ícones de um movimento revolucionário, a partir de uma postura estética combativa: "Ele sempre defendeu a necessidade de uma nova linguagem cinematográfica e de se criar estruturas governamentais para apoiar o cinema", diz.

Projeto

Em meio às homenagens, o cineasta, que completa 73 anos em maio, se empenha em travar encontros no exterior a fim de levantar recursos para filmar O Grande Circo Místico. Com Lázaro Ramos e João Miguel previstos no elenco, o longa parte do poema homônimo de Jorge de Lima que virou musical de Chico Buarque e Edu Lobo. A ideia de Cacá é ter também astros estrangeiros na produção. "Numa língua como a nossa, de tantos poetas importantes, sempre achei Jorge de Lima um dos melhores. Levei uns três anos escrevendo o roteiro, com George Moura [Linha de Passe], e, só no fim do ano passado, comecei a montar sua produção. Estamos concluindo um acordo com Portugal e França, e se tudo der certo, até o fim do ano, começamos a filmar", diz o diretor, que prepara ainda uma antologia de suas memórias nas telas. "Estou terminando a revisão do livro que escrevo há cinco anos. A diversidade de estilos, temas, gêneros, regiões e gerações do cinema brasileiro hoje é imensa. Acho que nunca houve algo igual. E olha que tenho muita estrada nesse assunto."

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