| Ricardo Humberto/Especial para a Gazeta do Povo
| Foto: Ricardo Humberto/Especial para a Gazeta do Povo

Livro

Soumission

Michel Houellebecq. Flammarion, 300 págs., R$ 83,90 (importado). A versão brasileira será publicada neste semestre pela Alfaguara/Objetiva.

Não é preciso conhecer a fundo a obra de Michel Houellebecq, escritor francês que ganhou o prestigioso prêmio Goncourt com O Mapa e o Território (2010), para ter ciência do gosto que ele tem por polêmica. E isso não foi diferente com o lançamento de seu sexto romance, Soumission ("Submissão"), no dia dos atentados ao jornal Charlie Hebdo em Paris. Na mesma hora, a programação em torno do livro foi suspensa e Houellebecq deixou Paris.

Não sei se é o corte de cabelo que lembra o de Einstein, ou a incapacidade de lidar com entrevistas – onde ele muitas vezes fuma, balbucia, tartamudeia e até chora –, ou se ainda é por causa da paixão sincera e profunda pela a literatura que faz dele um gênio contemporâneo, mas a certeza é que não se pode ficar indiferente ao livro novo de Houellebecq.

Em Soumission, François, professor de literatura na universidade de Sorbonne, tem uma vida medíocre de acadêmico num casulo confortável gozando de poder social, financeiro e intelectual. Porém, apesar de se achar protegido dos grandes perigos da vida, a sociedade francesa sofre uma virada política histórica em que o partido muçulmano conquista o poder em 2022, alçando como presidente da república seu representante legítimo, Mohammed Ben Abbes.

Numa França submetida ao Islã moderado — "submissão" é a tradução da palavra "islã" —, a poligamia está autorizada; o trabalho para as mulheres, proibido; e a conversão ao Islã, fortemente aconselhada para se acessar os cargos-chaves do poder. Os princípios da república laica ficam totalmente transtornados e François, covarde e desabusado, tentará sem luta nem rebelião encontrar seu lugar no meio desse novo território cheio de oportunidades.

Reflexões

Houellebecq gosta de alimentar polêmicas com a escolha dos temas que aborda. Em Partículas Elementares e Plataforma, dois livros anteriores, ele falava da escuridão insana do homem contemporâneo, torturado pelos desejos amorais e cedendo diante de fantasmas sexuais e de perversões indizíveis. Pois o trabalho do escritor é isso : descavar o indizível. E o gênio de Houellebecq brilha na tentativa de retratar o fantasma da sociedade francesa atual, tanto pelo estilo fluido, quase jornalístico, quanto pela construção narrativa que o escritor se esforça para não deixar aparecer.

No entanto, nesse novo romance, trata-se menos da profundidade do homem do que da política — francesa, principalmente. A preocupação do autor é de tornar o cenário verossímil, mas, no processo, ele acaba afetando a história com inúmeras reflexões digressivas.

O novo presidente houellebecquiano se inscreve na tradição da elite francesa, estudou na École d’Administration Nationale – onde se formou a maioria dos políticos atuais do país – e desfruta de uma credibilidade nacional. Essa ascensão é argumentada, comprovada e demonstrada em cada capítulo, com exemplos que usam políticos atuais, reais e famosos. Talvez seja esse o único problema de Soumission: ser menos uma obra de ficção e mais um ensaio ilustrando o famoso mito da invasão muçulmana e as teorias obscuras da islamização da Europa, lembrando o cenário de Eurábia, de Bat Ye’or, que serve de inspiração à extrema-direita europeia.

Fábula

Apesar das últimas marchas republicanas contra os atentados de Paris, o partido extremista da Marine Le Pen é o primeiro no gosto nacional, segundo pesquisas de opinião. Nesse contexto, como aceitar que o novo livro de Houellebecq não seja islamofóbico? Pois não é. "É uma fábula", explicou ele numa entrevista para o programa Le Grand Journal, do Canal Plus. "E, se a gente não pode mais escrever sobre o que queremos, então precisamos ir embora desse país." Numa época de reivindicação da liberdade de expressão, não há como contradizer.

Portanto, nem totalmente romance, nem totalmente ensaio, nem totalmente pro-muçulmano, nem totalmente contra o Islã, Soumission é uma obra inclassificável que, embora não seja a melhor de Houellebecq, mostra força ao caçar um fantasma perceptível na Europa de hoje e merece, sim, ser lida.

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