É difícil dissociar o escritor norte-americano Chuck Palahniuk de sua obra mais conhecida. Sempre que se fala nele, é uma obrigação citar Clube da Luta, livro de estréia transformado em filme em 1999, dirigido por David Fincher e estrelado por Brad Pitt e Edward Norton. Em Clube da Luta, encontra-se a base de toda a literatura de Palahniuk: uma inabalada descrença no ser humano, o anticonsumismo, a repulsa ao American way of life, o bizarro, o escatológico, e também um ácido e divertidíssimo humor negro.
Muitas dessas características estão em Diário (Rocco, 240 págs.), novo livro do autor lançado no Brasil novo em termos, porque a obra foi lançada originalmente em 2003. É o quinto trabalho do americano a chegar ao país além dele e de Clube da Luta (Nova Alexandria, 224 págs., R$ 37), estão disponíveis nas livrarias Sobrevivente (Nova Alexandria, 240 págs, R$ 39), Cantiga de Ninar (Rocco, 280 págs., R$ 36,50) e No Sufoco (Rocco, 264 págs., R$ 37). Palahniuk escreveu outras quatro obras que não ganharam versão brasileira: Invisible Monsters, Fugitives & Refugees, Stranger Than Fiction (único de não-ficção) e Haunted. Rant, seu novo livro, já está em pré-venda em sites dos EUA.
Diário tem como personagem principal Misty Marie Wilmot, camareira de um resort na ilha norte-americana de Waytansea. Outrora berço de gente rica e abastada, o decadente local apostou no turismo para conseguir sobreviver economicamente. Misty é casada com Peter Wilmot, filho de uma das mais tradicionais famílias da região, que se encontra em coma no hospital depois de uma suposta tentativa de suícidio.
A esposa decide fazer um diário para o marido entrevado, descrevendo sua patética vida e relembrando a ele todos os terríveis e desprezíveis momentos de seu casamento, culpando-o pela difícil condição em que vive.
Misty conheceu Peter quando ambos cursavam uma escola de arte. Após engravidar da menina Tabbi, ela abandonou o sonho de ser artista para viver ao lado do marido em Waytansea, em um período antes da decadência local. Mãe e filha moram com Grace, mãe de Peter, que mantém uma certa postura aristocrática, assim como todos os originários da ilha, herança de tempos muito melhores. Misty é amarga e frustada por não ter seguido na carreira artística, pois tinha talento (fato que vai ser importante no desenvolver da história).
O estranho e o bizarro, comuns nos livros de Palahniuk, aparecem inicialmente com a descoberta de certos "trabalhos" de Peter. Ele era contratado para reformar cômodos das casas, mas estes estranhamente sumiram, segundo declaração dos donos. Descobre-se que ele havia deixado mensagens malucas em paredes ocultas dos locais, textos que farão sentido apenas no fim da história.
Diário não é um livro fácil de ser "digerido". Desde o início, a história de Misty agride o leitor. É difícil seguir com ela, principalmente porque, dessa vez, Palahniuk não dá o refresco do humor negro de seus outros trabalhos. As coisas "melhoram" um pouco a partir da metade da obra, quando há menos descrições tenebrosas do dia a dia de Misty e de sua miserável vida com Peter (em todos os sentidos) e a ação da trama começa a ficar mais clara. Um intricado quebra-cabeças, com ares de conspiração, vai revelar o bizarro motivo que levou Peter a se unir a Misty.
Cinema
Como os livros anteriores de Palahnhiuk, Diário poderia render um filme (bem angustiante, talvez). Mas é interessante constatar que, depois do sucesso de Clube da Luta, nenhuma outra obra do escritor chegou aos cinemas. Os direitos de três delas até foram vendidos para Hollywood, mas todos os projetos estão em fase de espera.
O mais antigo deles é baseado em Sobrevivente. O rei dos filmes de ação Jerry Bruckheimer era o responsável da produção, que teve atores importantes como Jim Carrey e Kevin Spacey cotados para o elenco. O roteiro estava sendo escrito por Jake Paltrow (irmão da atriz Gwylneth Paltrow), mas, depois dos atentados do 11 de Setembro, o projeto ficou no limbo. Explica-se: o livro fala de um ex-integrante de uma seita religiosa que seqüestra um avião e registra sua história na caixa-preta da aeronave, enquanto o combustível não acaba e ela não se espatifa em algum lugar (vale lembrar que ele libertou os outros passageiros e os pilotos e voa no piloto-automático).
Outro livro vendido para o cinema foi Invisible Monsters, sobre uma ex-modelo desfigurada depois de um acidente de carro e sua relação com um homem exibicionista. O projeto está nas mãos do novato Jesse Peyronel, que até o momento não conseguiu recursos para o filme.
A obra de Palahniuk mais próxima de chegar às telas é No Sufoco, que destaca como protagonista um rapaz pobre que engana as pessoas fingindo se afogar com a comida em restaurantes chiques. Ele vive do dinheiro daqueles que o "salvam" da situação, os quais se sentem heróis e depois responsáveis pelo jovem. O roteiro está sendo escrito por Clark Gregg (autor do texto do suspense Revelação, com Michelle Pfeiffer e Harrison Ford) e Darren Aronofsky (Réquiem para um Sonho) já esteve cotado para a direção.







