
"Se ele [o autor] está morto, ótimo, porque não pode incomodar você. O melhor autor é um autor morto, porque está fora do seu caminho e você é o dono da peça. Pegue o que ele lhe deu e use para o que precisa." Essa foi a leitura da atriz e professora norte-americana Stella Adler (1901-1992) sobre a libertação trazida para as artes cênicas pela "morte" da autoria e do ineditismo, conforme relatado em seu livro Sobre Ibsen, Strindberg e Chekhov.
Nas artes cênicas, assim como em outros campos, é inegável que muitos artistas inovaram, particularmente na forma, e ajudaram a deslocar barreiras no palco. Entre inúmeros exemplos, é o caso de Mesa Verde, com que o alemão Kurt Jooss (1932) levou prêmios justamente pela originalidade de sua dança, com máscaras e a personificação da morte, ao redor de uma mesa de negociações.
Quando A Sagração da Primavera estreou, em 1913, o coreógrafo Vaslav Nijinski levou vaias por "enfear" os movimentos do balé estava dada a largada para a dança moderna.
Cem anos depois, a "era da autoria acabou. A produção agora trata da recombinação de fragmentos de cultura", opina o diretor e professor de artes cênicas da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) Fabio Salvatti. Em sua dissertação de mestrado, defendida há dez anos, ele analisou esse processo em peças curitibanas como Estou Te Escrevendo de um País Distante, de Felipe Hirsch (1997).
Atualmente, Salvatti aponta espetáculos como #zeqpop, em cartaz até amanhã no Teatro Universitário da UFPR, como exemplo dessa combinação bem-vinda. "Tem mais a ver com a leitura que se faz do que com novidade." Por outro lado, ele lembra do esforço feito no Núcleo de Dramaturgia do Sesi/PR, sob direção de Roberto Alvim, pautado pela lógica do novo.
O inédito, se é que existe, é rapidamente emulado em manifestações paralelas que o diga Lady Gaga quando busca o radicalismo performático de uma Marina Abramovic para rescaldar sua imagem "doida", esculpida via marketing.
"Todo artista é certa medida um DJ, alguém que conhece muito bem as tradições que o precedem e que delas se apropria", defende o professor e pesquisador do Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro Charles Feitosa.










