
O pensamento sobre autoria e, principalmente, a questão original x cópia faz parte das minhas pesquisas, tanto artísticas quanto acadêmicas. A ideia de uma "performance-de-plástico" que pesquiso parte da hipótese de que a utilização irônica do cover e do duplo mais precisamente, o cover e o duplo de si mesmo pode emergir como estratégia performática de subjetivação e criação artística. Uma das características da pesquisa é o gosto pelo periférico, pelo apócrifo, pelo menor, "maldito", de "mau gosto". Lançar um olhar que enxerga nesses interstícios um vasto campo de pesquisa e potencialidade artística, sem cair, contudo, numa apologia acrítica de possíveis virtudes. O processo de criação de imagens e simulacros do cover aparece ligado à ideia do kitsch. Um kitsch crítico e autorreferente, relido, reinterpretado nas loucuras do simulacro.
O universo da música já está acostumado a uma multidão de artistas que se esmeram em copiar outros artistas artistas famosos, normalmente. Homenagem, tributo, elogio, ironia, deboche. Graus do cover: da versão pessoal de músicas alheias à imitação implacável. A reprodução obsessiva de um modelo identificável. Cópia da cópia da cópia: não é apenas a obra de arte a ser reproduzida tecnicamente, mas o próprio artista. O artista em si é transformado em clichê, em modelo a ser reproduzido ad infinitum, repaginado e perpetuado no corpo de outrem.
Importante é pensar sobre um aspecto crucial do processo deflagrado pelo cover (discussão antiga, é verdade, mas que sempre se atualiza, sedutora): Quem é o original? Quem é a cópia? Ao manter uma relação mimética radical com o objeto tido como original, o cover nos diz, ironicamente, que, no fenômeno da produção e da fruição artística, não interessa quem veio antes, não interessa quem virá depois, interessa, isso sim, quem está ali, naquele momento. A radicalidade mimética do cover atravessa e perfura os planos da relação artística.
Se, numa primeira aproximação, o cover se remete, mesmo que longinquamente, a um original externo, um outro alguém que copia e reencena um outro alguém , interessa, aqui, reverter esse quadro e prestar atenção naquilo que Erasmo Carlos confessa: não o cover de alguém distante, mas o cover de si mesmo. Este é o ponto. "Sou meu cover, sou o meu espelho. Sempre atento a tudo que eu faço. Sou a cópia fiel da minha imagem. Gosto muito de ser igual a mim. Ser o gêmeo do eu original. Eu mesmo meu próprio personagem...". Quando original e cópia se confundem num mesmo corpo, num mesmo ente, a reencenação irônica do cover surge como estratégia performática de subjetivação. Ironia que provoca: o cover me copia ou eu copio o cover? Ou melhor: eu crio o cover ou o cover me cria? Pouco importa.
Questionar a linearidade e a validade da dicotomia original/cópia, criador/criatura, verdadeiro/falso, superfície/profundidade, vivo/inanimado através da presença e da relação irônica dos corpos em cena (todos os corpos possíveis e impossíveis, inclusive o do ator, mas não só o dele) abre novas possibilidades de reflexão, criação e fruição artísticas: propostas estéticas, performáticas, cênicas.
Essas reflexões aparecem com frequência em meus trabalhos artísticos. Trabalhos como Enriquecido Com Vitaminas e Ferro (2004), Parasitas (2005), Jesus Vem de Hannover (2008), Los Juegos Provechosos (2009), Burlescas (2009), Cicciolinas Breakfast (2011), Minha Vida: Esse Grande Comic Sans Negrito Fúcsia (2013) e Eu, Neto Machado, Agora Mostro o Que Não Está Aqui (2013), materializam algumas dessas questões, apontando novos caminhos de pesquisa e criação.







