
No próximo dia 15 de novembro será comemorado o centenário da umbanda no Brasil. A data remete à fundação da religião de matriz africana, mas com influências do catolicismo e do kardecismo por Zélio de Moraes, na cidade de São Gonçalo, localizada no entorno da baía de Guanabara e próxima às cidades de Niterói e do Rio de Janeiro. Segundo a crença umbandista, ele teria recebido orientações do Caboclo Sete Encruzilhadas, entidade de origem indígena.
"O surgimento da umbanda ocorre diante da insatisfação do médium Zélio em relação à prática religiosa kardecista embasada no espiritismo, que considerava inferiores entidades como os caboclos e pretos velhos. O kardecismo estava vinculado a classes sociais elevadas e cuja formação intelectual tinha sua base na sociedade européia, especialmente na de origem francesa, de forte influência na cidade do Rio de Janeiro do inicio do século 20", explica a professora de Geografia da UERJ Aureanice de Mello Corrêa, especialista em cultura afro-brasileira.
E hoje, cem anos após o surgimento oficial, a tolerância de acordo com umbandistas e especialistas consultados pela Gazeta do Povo parece ser um dos elementos que atrai fiéis, simpatizantes e seguidores. "Como presente de cem anos, fazemos uma campanha para que a umbanda seja reconhecida como pratimônio imaterial brasileiro", diz o dirigente espiritual do terreiro Pai Maneco, Fernando Guimarães. "O governo também poderia reconhecer a umbanda como religião", completa a mãe-de-santo Lucília Guimarães.
Festejos
Algumas ações sinalizam que o centenário da umbanda no Brasil não passará despercebido. Amanhã, uma passeata sai pela orla do Rio de Janeiro, com a finalidade de chamar a atenção da comunidade para a liberdade religiosa. A concentração acontece na Praia do Leme, às 9 horas. Em Curitiba, entre 22 e 26 de setembro, o Cine Luz exibe a Mostra Comemorativa aos Cem Anos da Umbanda no Brasil. As sessões iniciam-se às 19 horas e a entrada é franca.
"Mas, de uma maneira geral, todas as noites, de segunda à sábado, tem festa aqui no terreiro", diz Lucília. "Para os umbandistas, toda gira (sessão) é também uma festa, porque a alegria é um dos 'ingredientes' da umbanda", completa Guimarães.
"A umbanda é relacionada às forças da natureza", lembra a mãe-de-santo Lucília. Ela observa que, no final do ano, umbandistas costumam fazer oferecendas a Iemanjá (um dos orixás), a rainha do mar, em toda orla brasileira. E, por falar em orixás, outras entidades (todas ligadas à natureza) muito reverenciadas são Oxalá (senhor da força), Iansã (ventos, chuvas fortes, relâmpagos), Xangô (força do trovão) e Ogum (senhor dos caminhos).
A professora da pós-graduação em Movimentos Sociais da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) Cristiana Tramonte comenta que a umbanda varia muito de acordo com cada região do país. "Aqui em Santa Catarina, a umbanda é muito diversa do que pode ser, por exemplo, aí no Paraná", afirma, referindo-se a rituais, e a entidades a serem incoporadas. No entanto, frisa a especialista, há algo na umbanda que é igual em todo o Brasil: a tolerância e a abertura em relação à diversidade comportamental, racial e religiosa. "Os umbadistas não são e jamais serão presos a dogmas", conclui a especialista.










