
Em pleno processo de criação do espetáculo Nus, Ferozes e Antropófagos, gestado há dois anos com o Coletivo Jakart/Muqiscué e o Centro Dramático Nacional de Limousin, na França, a Companhia Brasileira de Teatro abre os ensaios para o público do Festival de Curitiba, na Mostra Contemporânea. Abaixo, o diretor Marcio Abreu conta as idas e vindas dos brasileiros e franceses e as indagações que vêm crescendo dentro do projeto.
Como foi a dinâmica de criação de Nus, Ferozes e Antropófagos? Vocês se concentraram na França?
Foi bastante compartilhado. A primeira residência foi na (sede da) Companhia. Vieram o Pierre (Pradinas) e o Thomas (Quillardet). Cada um desses diretores franceses deu uma oficina aberta. Depois, teve dois dias no Rio, aproveitando o fato de que o Pierre vinha pela primeira vez à América do Sul. Um cara de 50 e tantos anos... Foi interessante como percepção, um material rico de investigar.
O que vocês começaram a investigar era a percepção sobre o outro?
O primeiro arcabouço de mobilização foi o olhar sobre o outro. A primeira camada de relações foram os clichês. É inescapável, porque a dose de verdade que existe na base dos clichês é muito grande. Isso foi tema da primeira residência lá na França e, depois, da nova residência no Rio. Nesse grupo, tem gente que fala o português, fala mais ou menos ou nunca ouviu a língua; assim como com o francês. É uma diversidade de experiências e referências da cultura do outro país. Até a estreia em Limousin (França), serão seis encontros, em torno de dez dias cada.
Qual forma essa pesquisa está tomando agora?
Fazia um ano que a gente não se encontrava, então o trabalho tem características peculiares. O modo de produção, necessariamente, interfere no processo artístico e no que é mobilizado para criar uma obra, peça, performance, uma estrutura que possa se colocar em relação ao público. Sempre foi uma questão para a Companhia como o exterior invade o interior, os modos de produção concretos que dão forma à obra. Percebo que é a primeira vez que essa dimensão toma essa força. Como se gere tudo isso ao longo do tempo, pretendendo que utopias, desejos e questões objetivas de trabalho não morram? Isso é também assunto do trabalho.
Em que etapa da criação vocês estão?
Estamos em processo. Depois dos ensaios abertos (durante o Festival de Curitiba), a gente estreia dia 13 de maio lá. Estreia marcada quase um ano antes e já com ingressos vendidos! Está sendo tudo muito novo para mim e para todo mundo. Os franceses têm essa prática muito mais que a gente. Na Companhia, temos tido condições de realizar projetos a longo prazo, mas, mesmo assim, é muita antecedência. Essa dimensão de contramão absoluta em relação ao que as estruturas de produção ou políticas culturais permitem é, no fundo, o que nos motiva em grande parte a sustentar esse projeto.
Como o espetáculo se estrutura?
Em três partes: nus, ferozes e antropófagos. Essa visão quase mitológica do Brasil que esse título denota, quando transportada para os franceses, faz com que todos esses conceitos se transformem. Isso está em jogo no trabalho: quem é feroz, quem está nu, quem come quem, o que é devorado e quando? A gente lida com a ideia do preconceito em muitas estruturas dramatúrgicas. Tem cenas dramáticas com diálogos e personagens, entrevistas, pequenas narrativas, cenas sem texto, tudo isso numa sequência organizada a partir desse título, que a gente roubou do Hans Staden, um holandês.



